O Que Eu Fiz Para Merecer Isto? Parte 1

O Que Eu Fiz Para Merecer Isto? Parte 1

Por Najwa Awad e Sarah Sultan

PARTE 1: Superando Aquilo que te Derruba

“Às vezes, quando você está em um lugar escuro, pensa que foi enterrado, mas na verdade, você foi plantado.” (Christine Caine)


Introdução

Tudo começou na faculdade. Ahmed não conseguia se lembrar do momento exato da reviravolta, mas, aos poucos, ansiedade, raiva e negatividade começaram a tomar conta de sua vida diária. Ele lutou para dormir devido ao coração e à mente acelerados e também começou a sentir que sair da cama todas as manhãs era uma tarefa monumental. Estudar para os exames tornou-se difícil depois de sua primeira reprovação e sua preocupação com futuras reprovações era constante. Quase todos os dias eram cheios de medo e raiva. Ele não conseguia entender de onde todos esses sentimentos surgiam.

Ahmed ansiava por uma carreira como farmacêutico, mas, como continuou a lutar nas aulas, desistiu dessa ambição. Ele estava ansioso para se casar, mas os aplicativos de casamento aumentaram seus níveis de ansiedade e frustração. Lentamente, seus objetivos e sonhos começaram a desaparecer. As amizades começaram a se deteriorar conforme suas batalhas aumentavam e ele reclamava de tudo que acontecia em sua vida cada vez que saía com alguém. Ele começou a ficar com raiva de pequenas coisas e percebeu que seus amigos pararam de passar tempo com ele, o que o deixou ainda mais ressentido. Ele perdia orações quando começou a sentir raiva de Allah por tudo que estava passando. Ele havia feito tudo “certo” – ele havia trabalhado muito, rezado, sido uma boa pessoa e um bom aluno – mas, ainda estava lutando contra sentimentos incontroláveis. Ele pensou consigo mesmo: “Não importa o que eu faça; tentei o meu melhor e ainda estou sofrendo. O que eu fiz para merecer isso?”

O que está acontecendo comigo?

Quando a vida dá uma guinada em uma direção que não prevíamos, de repente temos que reavaliar nossas vidas e aceitar uma nova realidade. Os sonhos que tínhamos alimentado com tanta ternura são repentinamente atirados no chão apenas para serem substituídos pela assustadora percepção de que nossa vida não é, de forma alguma, o que tínhamos imaginado.

Aceitar uma nova realidade envolve a perda de muitas coisas. Todo trauma envolve algum tipo de ruptura – a perda de algo tangível, como um ente querido, um emprego, um casamento, a saúde de alguém ou a perda de algo intangível (como o sonho que uma vez imaginamos que seria a nossa vida). Ninguém espera que a gravidez acabe em aborto espontâneo, que o emprego dos sonhos não seja tão gratificante quanto o previsto ou que o casamento chegue ao fim. Uma vez que a realidade bate à porta, pode ser difícil lidar com isso.

Quando situações difíceis acontecem, é natural sentir dor e uma sensação de decepção, choque e raiva. Afinal, você provavelmente passou muito tempo imaginando como seria sua vida apenas para perceber que não saiu da maneira que havia imaginado. Isso pode trazer um sem-número de pensamentos e perguntas difíceis, incluindo: “Por que eu continuo me frustrando?”, “O que eu fiz para merecer isso?” ou “Allah está zangado comigo?”

Quando esses pensamentos assumem o controle, às vezes podem resultar em sentimentos negativos em relação a Allah (louvado seja). Nunca podemos dizer que é “ok” ou “permissível” internalizar a raiva ou má vontade em relação a Allah; no entanto, é importante saber que é muito mais comum do que você imagina.

Abu Hurairah (que Allah esteja satisfeito com ele) narra que um companheiro veio ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e perguntou: “Temos pensamentos sobre os quais não ousamos falar e não gostamos que ocorram.” O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Tu realmente vives isso?” “Sim”, eles responderam. O Mensageiro de Allah disse: “Elas [essas preocupações] são sinais claros de fé.” (Sunan Abi Dawud, 5111)

Vemos neste hadith que mesmo algumas das melhores pessoas que viveram nesta terra, nossos justos predecessores, lutaram contra esses pensamentos, confusos e temerosos de se sentirem inadequados em seu relacionamento com Allah (louvado seja). Com relação a esses pensamentos difíceis, o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) nos disse: “Em verdade, Allah perdoou minha nação pelo que ocorre dentro das pessoas, contanto que elas não falem ou ajam sobre aquilo.” (Sahih Bukhari, 6287; Sahih Muslim, 127). Esses pensamentos passageiros não dizem nada sobre sua fé em Allah; ao contrário, o desconforto que você sente ao vivenciar esses pensamentos é um indicativo de como seu relacionamento com Allah (louvado seja) é importante para você.

Compreendendo seus pensamentos e emoções

Nossas mentes frequentemente se comportam como se possuíssemos uma bola de cristal, espelho mágico ou habilidade telepática. Claro, nada disso é real ou possível, mas nossas mentes podem nos levar a acreditar que nossos pensamentos são precisos, apesar de ser impossível determinar o futuro ou o que os outros estão realmente pensando.

Essa habilidade “mágica”, que supostamente nossas mentes têm, é chamada de: tirar conclusões precipitadas. Esse tipo de distorção cognitiva (padrão de pensamento negativo) é definido como a criação de uma interpretação negativa de algo, mesmo que não haja fatos definidos que apoiem de forma convincente essa conclusão. Tirar conclusões precipitadas pode ocorrer de duas maneiras: leitura da mente e leitura da sorte. “Leitura da mente” envolve uma pessoa pensar que os outros a estão avaliando negativamente ou que têm más intenções em relação a ela. Quando uma pessoa se julga “adivinha” é como se previsse um resultado futuro negativo ou decidisse que as situações acabarão mal antes mesmo de ocorrerem.

Como seres humanos, nossas mentes e nossos corações buscam um significado, um sentido. Quando alguém de quem você gosta, te fere ou quando uma tragédia acontece, seu cérebro faz suposições sobre a razão daquilo ter ocorrido. Temos a tendência de escolher interpretações que se encaixem em nossa visão existente do mundo. O problema com isso é que as experiências traumáticas mudam nossa visão do mundo de uma visão realista para uma baseada no medo e pessimismo. Cada conclusão a que chegamos e cada percepção será baseada em algo impreciso – dor, medo e raiva.

O que começou como uma dificuldade torna-se algo intransponível porque nossas mentes entendem assim. Sua mente começa a tirar conclusões precipitadas para dar sentido à situação, mas essas conclusões costumam ser negativas e dolorosas. Considere estes exemplos:

Você perdeu o emprego e começa a pensar: “Devo ser um idiota, é por isso que fui demitido. Não há nenhuma maneira de eu ter outro emprego novamente.”

Seu noivado não se concretizou e você pensa: “Ela deve ter encontrado alguém melhor. Não sou digno de ser marido. Ninguém me achará digno ou digno de amor. ”

Você abortou durante a gravidez e pensa: “Allah deve pensar que serei uma mãe ruim, então Ele nunca me abençoará com um filho.”

A maneira como pensamos é incrivelmente poderosa e pode nos ajudar a seguir em frente ou nos quebrar durante as dificuldades.

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Fonte: Yaqeen institute

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