Objetivos do Islam

Objetivos do Islam

– A adoração exclusiva a Allah

Sem dúvida, a maior meta do Islam, como também sua maior contribuição ao bem estar da humanidade, é a verdadeira e pura adoração a Allah, sem que se associe a Ele nenhum companheiro. Esse é, na realidade, o principal objetivo e propósito de um ser humano.


Allah disse:

“Não criei os gênios e os humanos, senão para Me adorarem.” (51:56).

Não há meta mais honrosa ou nobre para um ser humano.

O monoteísmo puro é o único sistema de crença que traz as verdadeiras respostas às perguntas que desconcertam praticamente todos os seres humanos: “de onde venho? Para onde vou? Qual a finalidade da minha existência?”

Quanto à pergunta “de onde venho?”, o Islam explica que os seres humanos são criaturas honradas e criadas por Allah de uma maneira muito especial e têm a liberdade de escolher ser a mais nobre das criaturas ou estar no plano mais baixo da criação. Assim, disse Allah:

“Que criamos o homem na mais perfeita proporção. Então, o reduzimos a mais baixa das escalas, salvo os fiéis, que praticam o bem; estes terão uma recompensa infalível.” (95:4-6).

A resposta à pergunta “para onde vou?” é que o ser humano volta a se reunir com seu Senhor e Criador. Isso ocorrerá depois de sua morte. Não haverá escapatória para este encontro. Neste momento, a pessoa será julgada com justiça e equidade.

Todas as ações que foram praticadas na sua vida serão analisadas.

“Nesse dia, os homens comparecerão, em massa, para verem as suas obras. Quem tiver feito o bem, quer seja do peso de um átomo, vê-lo-á. Quem tiver feito o mal, quer seja do peso de um átomo, vê-lo-á.” (99:6-8).

Este juízo começará com sua ação mais importante: sua atitude frente ao Criador Misericordioso e Cheio de Graça, Aquele que o criou, proveu, enviou a orientação, advertiu do castigo para os que se afastassem da verdade e prometeu uma grande recompensa aos que aceitassem a verdade, fossem agradecidos e submissos a Ele.

No que concerne à pergunta “qual a finalidade da minha existência?”, o ser humano foi criado com o mais nobre dos fins: adorar a Allah somente ou, em outras palavras, ser um verdadeiro e sincero servo de Allah.

Pode-se imaginar todo tipo de objetivos que as pessoas têm nesse mundo; pode-se ter como objetivo acabar com as doenças ou atingir a paz mundial. Em geral, essas admiráveis metas estão, de certa forma, corrompidas.

Pode-se persegui-las por motivos egocêntricos, como ser recordado ou louvado como aquele que fez tal coisa.

Pode-se conquistá-las dando as costas ao Criador, demonstrando arrogância e ingratidão, como também ignorância de como se atingem as verdadeiras metas mais nobres. Sem dúvidas, todas estas metas, que podem ser consideradas submetas, não estão à altura da que lidera a excelência da alma e das ações de uma pessoa, além da felicidade eterna na próxima vida.

Em verdade, toda meta realmente boa desta vida deve ser uma parte verdadeira da adoração a Allah.

Cumprir com o verdadeiro fim do ser humano e ter êxito no encontro com o Senhor depende totalmente da prática de um monoteísmo verdadeiro e intacto. Esse é o monoteísmo do qual se fala no Islam. Muitas pessoas dizem crer no “monoteísmo” e no fato de que só existe um Deus.

Porém, em muitas ocasiões, este “monoteísmo” está manchado de várias maneiras.

Em algumas das primeiras civilizações pré-modernas, começaram a atribuir filhos e filhas a Deus.

Lamentavelmente, esta clara contradição ao monoteísmo puro foi mantida até a era moderna por uma religião tão popular que é o Cristianismo. É habitual ouvir os cristãos falarem de Jesus, agradecer a ele e inclusive rezar para ele, em muitos casos esquecendo-se do “Pai”.

Os cristãos podem recorrer a diversos jogos lógicos para afirmar que adoram a um só Deus, mas, na realidade, não se pode considerá-los verdadeiros monoteístas.

De fato a maioria – se não todos – dos que seguem a trindade sustentam que Jesus está no mesmo nível do Pai. Em outras palavras, perderam o monoteísmo.

O novo muçulmano pode levar certo tempo para se dar conta das maneiras que as pessoas associam companheiros a Allah, sem praticar o verdadeiro monoteísmo.

O cristão convertido ao Islam pode reconhecer rapidamente que o que lhe foi dito sobre a trindade não pode ser considerado monoteísmo.

Ao mesmo tempo, sem dúvidas, pode ser que não se dê conta de que os sacerdotes, por exemplo, como portadores da palavra final, no que diz respeito à lei, é outra forma de associar parceiros a Allah.

Nenhum sacerdote – nem nenhum ser humano – tem o direito de anular ou suplantar nenhuma lei de Allah. Isto também contradiz o monoteísmo puro.

Por isso, Allah disse:

“Tomaram por senhores seus rabinos e seus monges em vez de Deus, assim como fizeram com o Messias, filho de Maria, quando não lhes foi ordenado adorar senão a um só Deus. Não há mais divindade além d’Ele! Glorificado seja pelos parceiros que Lhe atribuem!” (9:31).

O Islam é uma religião que estabelece o monoteísmo puro e erradica todas as formas de associação de parceiros a Allah, desde a mais óbvia até a menos clara. Sem dúvida alguma, o Islam é a única religião que pode afirmar tal coisa. À medida que o convertido aprende mais sobre sua fé, a luz do monoteísmo puro, Allah estando no topo do processo, brilhará cada vez mais forte em seu coração.

– Livrar os seres humanos da adoração de quaisquer outros seres humanos ou objetos

Obviamente esta é uma conseqüência direta do primeiro princípio de se adorar somente a Allah. Sem dúvidas, merece uma menção especial já que a dominação e subjugo dos seres humanos, por parte de seus iguais, é uma das tragédias mais graves da história da humanidade; talvez superada somente pela tragédia dos seres humanos que aceitam tal situação e se submetem voluntariamente a outros seres humanos.

Há poucas coisas piores que um ser humano que se submete e adora a outros seres humanos. É algo totalmente degradante porque, na essência, todos os seres humanos compartilham da mesma natureza e debilidades humanas.

Ninguém tem o direito de se colocar no lugar de Allah – o que inclui o tirano, o ditador ou o clero – perante os demais, subjugando-os com suas ordens sem se importar se estas são compatíveis ou não com o que Allah revelou.

Esta meta do Islam foi expressa eloqüentemente por dois dos primeiros muçulmanos. Quando foram perguntados pelo imperador da Pérsia o que trazia os muçulmanos às suas terras, dois diferentes companheiros do Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) responderam de forma similar:

“Allah nos enviou para levar quem deseje da servidão à humanidade à servidão a Allah e da estreiteza deste mundo à grandeza e da injustiça na forma de vida (deste mundo) à justiça do Islam.”

É interessante destacar que os seres humanos reconhecem facilmente os males de um governo tirano, ou seja, um ser humano dominando os demais.

Entretanto não se dão conta desses males quando um grupo de elite os domina e, então, submetem-se voluntariamente à manipulação e opressão desta elite, muitas vezes disfarçada de democracia.

Na realidade, ambos são maus e só podem ser remediados através da aceitação de Allah como Legislador e Autoridade máxima. Como discutiremos adiante, somente Allah pode estabelecer leis e ordens justas, pois só Ele está livre de paixões e preconceitos.

Há muitas coisas que os seres humanos tendem a “adorar” ou das quais se tornam “escravos”, como as próprias paixões, o Estado ou nação e os desejos materiais. Allah descreve aos que tomam como deus seus próprios desejos:

“Não tens reparado naquele que idolatrou a sua concupiscência! Deus extraviou-o com conhecimento, ensurdecendo os seus ouvidos e o seu coração, e cobriu a sua visão. Quem o iluminará, depois de Deus (tê-lo desencaminhado)? Não meditais, pois?” (45:23).

O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) disse:

“Que o escravo das moedas de ouro e prata e das finas vestimentas pereça, pois se compraz se lhe dão essas coisas e não está satisfeito se não as dão.” (Bukhari).

Na realidade, esta é uma forma de escravidão ou servidão – uma escravidão a algo que não é Allah. Ibn Taimiyah escreveu o seguinte:

“Se ele for bem-sucedido, sente prazer; mas se falhar torna-se infeliz. Tal pessoa é abd (escravo) de seus desejos, pois a escravidão e a servidão são, na realidade, a escravidão e a servidão do coração. Portanto, o coração se torna escravo de tudo que o ponha nessa posição. Por esta razão se diz que: ‘O escravo é livre em tudo quanto está conforme o que Allah lhe proporcionou e o livre é escravo enquanto é presa de seus desejos.”

O Islam liberta as pessoas dessas falsas formas de adoração. Isso é alcançado através da libertação do coração dos caprichos e desejos. Liberta o coração desta forma de adoração fazendo com que este se apegue somente a Allah e construindo uma relação forte entre a pessoa e Allah (como será tratado mais à frente). A pessoa simplesmente deseja contentar Allah. Será feliz com tudo o que implique agradar a Allah e ficará insatisfeito com tudo o que não for do agrado de Allah.

Este aspecto do Islam deve estar bem claro para um novo muçulmano. Deve reconhecer com facilidade em si mesmo todos esses falsos deuses que costumava seguir e adorar em sua vida pregressa.

Toda sua vida pode haver girado em torno desses objetos de adoração. Pode ser que houvesse praticado qualquer coisa para alcançar suas metas, não se importando se os meios utilizados eram éticos. Essas metas o transformaram num tipo específico de pessoa. Avaliava sua vida inteira segundo essas metas. Se as alcançava, então, esta seria sua felicidade. Era um verdadeiro escravo desses objetivos.

Agora pode compreender que a forma com que atingia suas metas, na realidade, estava afastando-o da adoração a Allah.

– Fazer com que a vida na terra floresça

O Islam é uma religião bela que satisfaz as necessidades do corpo e também da alma. O ser humano é composto de um lado espiritual e um material. Ambos os lados de uma pessoa devem ser reconhecidos como “verdadeiros”, sem negar nem ignorar nenhum deles. Além disso, o indivíduo precisa ser guiado em ambos os aspectos de sua personalidade. Do contrário, um aspecto dominará ou estará em conflito com o outro e a pessoa nunca alcançará a verdadeira felicidade. Por exemplo, há aqueles que destacam as necessidades espirituais, mas ignoram os aspectos materiais do mundo.

Ao mesmo tempo, sem dúvidas, vêem-se obrigados a participar dos aspectos materiais deste mundo que são parte da natureza humana. Tais pessoas se encontram num conflito quando percebem que não podem se libertar totalmente das necessidades materiais que tanto desprezam.

Por outro lado, existem os sistemas econômicos, como o capitalismo e o socialismo, que buscam satisfazer as necessidades materiais – de fato, os capitalistas afirmam trazer “o melhor de todos os mundos possíveis.” Mas, na realidade, pode-se provocar um grande buraco na psique da pessoa, pois a satisfação das necessidades materiais não preenche o vazio interno.

Allah fez dos seres humanos os sucessores desta terra:

“(Recorda-te ó Profeta) de quando teu Senhor disse aos anjos: Vou instituir um legatário na terra…”(2:30).

Assim, a postura do islam é que os seres humanos foram postos sobre a terra intencionalmente por Allah e utilizam os meios materiais para construir uma vida positiva neste mundo passageiro, o qual, eventualmente, os levará a uma próxima vida eterna e satisfatória. Nesse sentido, Allah disse:

“Mas procura, com aquilo com que Deus te tem agraciado, a morada do outro mundo; não te esqueças da tua porção neste mundo, e sê amável, como Deus tem sido para contigo, e não semeies a corrupção na terra, porque Deus não aprecia os corruptores.” (28:77).

De fato, inclusive depois de finalizada a oração de sexta-feira, um dos atos de adoração mais significativos do Islam, Allah nos ordena sair e buscar o sustento deste mundo:

“Porém, uma vez observada a oração, dispersai-vos pela terra e procurai as graças de Deus, e mencionai muito Deus, para que prospereis.” (62:10).

Na realidade, os seres humanos são os guardiões desta grande criação e supõe-se que devem se comportar de maneira apropriada. Não são donos e nem têm a liberdade para usar da criação da forma que desejam. Não podem explorá-la visando benefícios pessoais ou por vingança. Tampouco, devem desperdiçar os recursos desta terra por extravagância ou com fins prejudiciais. Pelo contrário, devem se comportar como Allah estabeleceu:

“São aqueles que, quando os estabelecemos na terra, observam a oração, pagam o zakat, recomendam o bem e proíbem o ilícito. E em Deus repousa o destino de todos os assuntos.” (22:41).

Este ensinamento do Islam também é mencionado em diversos versículos onde Allah proíbe a corrupção (fasaad) na terra – como consta no 28:77, mencionado anteriormente. Allah também disse:

“E não causeis corrupção na terra, depois de haver sido pacificada. Igualmente, invocai-O com temor e esperança, porque Sua misericórdia está próxima dos benfeitores.” (7:56).

“…Recordai-vos das mercês de Deus para convosco e não causeis flagelo, nem corrupção na terra.” (7:74).

Por outro lado, Allah promete uma grande recompensa àqueles que vivem suas vidas mediante o princípio de não promover ou buscar o mal ou a corrupção. Disse Allah:

“Destinamos a morada, no outro mundo, àqueles que não se envaidecem nem fazem corrupção na terra; e a recompensa será dos tementes.” (28:83).

Allah deixou claro que quando as pessoas estiverem em frente a Ele, no Dia da Ressurreição, os que causaram mal na terra não serão tratados de igual maneira que os que praticaram o bem. Disse Allah:

“Porventura, trataremos os fiéis, que praticam o bem, como os corruptores na terra? Ou então trataremos os tementes como os ignóbeis?” (38:28).

Lamentavelmente, o que muitas pessoas advertem é que a melhor forma de se espalhar a corrupção e o mal sobre a terra é dando as costas ao que Allah nos ordenou, seguindo assim seus próprios desejos. Afastar-se de Deus e de Sua orientação corrompe a alma da pessoa, assim como a estrutura familiar, sociedade e a criação, como um todo. É necessário dar um basta e não mais eliminar a fé em Deus de nossos corações, porque isso é um pequeno passo ao comportamento imoral e a prática da injustiça. Na realidade, faz parte da legislação Divina que caso se permita a proliferação da corrupção, então, haverá males em toda a terra como advertência aos seres humanos para que modifiquem sua conduta. Por isso Allah disse:

“A corrupção surgiu na terra e no mar por causa do que as mãos dos humanos lucraram. E (Deus) os fará provar algo de que cometeram. Quiçá assim se abstenham disso.” (30:41).

Infelizmente, são poucos os que se dão conta disso, pois a maioria culpa todos os males a qualquer coisa, exceto o fato de eles terem se afastado de Allah.

Definitivamente, são os corruptos e malfeitores que sofrerão:

“Quanto aos incrédulos, que desencaminham os demais da senda de Deus, aumentar-lhe-emos o castigo, por sua corrupção.”(16:88).

“Que violam o pacto com Deus, depois de o terem concluído; separam o que Deus tem ordenado manter unido e fazem corrupção na terra. Estes serão desventurados.” (2:27).

– A Justiça e a Proibição de Fazer Mal aos Outros

A vida sobre a terra não pode florescer se não houver justiça. Por isso o chamado e a implementação da justiça são uma das características mais destacadas no Islam. Em diversas passagens do Qur’an, Allah ordena aos muçulmanos que cumpram as exigências da justiça, ainda quando estas estejam contra seus próprios interesses ou desejos. Por exemplo, Allah disse:

“Deus manda restituir a seu dono o que vos está confiado; quando julgardes vossos semelhantes, fazei-o com eqüidade. Quão excelente é isso a que Deus vos exorta! Ele é Oniouvinte, Onividente.” (4:58).

“Ó fiéis, sede firmes em observardes a justiça, atuando de testemunhas, por amor a Deus, ainda que o testemunho seja contra vós mesmos, contra os vossos pais ou contra os vossos parentes, seja contra vós mesmos, contra os vossos pais ou contra os vossos parentes, seja o acusado rico ou pobre, porque a Deus incumbe protegê-los. Portanto, não sigais os vossos caprichos, para não serdes injustos; e se falseardes o vosso testemunho ou vos recusardes a prestá-lo, sabei que Deus está bem inteirado de tudo quanto fazeis.” (4:135).

” Ó fiéis, sede perseverantes na causa de Deus e prestai testemunho, a bem da justiça; que o ódio aos demais não vos impulsione a serdes injustos para com eles. Sede justos, porque isso está mais próximo da piedade, e temei a Deus, porque Ele está bem inteirado de tudo quanto fazeis.” (5:8) .

O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) demonstrou que ninguém está acima da lei e da justiça no Islam. Uma vez Usamah, que era muito próximo e querido pelo Profeta, foi convencido a tentar interceder, junto ao Profeta, sobre um castigo prescrito, e o Profeta lhe disse:

“Acaso, Usamah, intervéns para impedir um dos castigos prescritos por Allah? Por Allah, se Fátima, a filha do Profeta, roubasse, eu mesmo cortaria sua mão.” (Bukhari).

Portanto, a justiça deve ser paliçada a todos: ricos, pobres, jovens, velhos, amigos, inimigos, muçulmanos, não muçulmanos, e assim sucessivamente.

Na verdade, se não fosse assim e fosse utilizado algum tipo de intermédio, não seria uma justiça verdadeira.

O muçulmano deve ser justo com todos, amigos ou inimigos, incluindo com sua própria alma. Não é permitido que sua alma lhe cause dano, pois isso não é “liberdade”, senão uma das piores formas de injustiça. Um verdadeiro muçulmano é ordenado a ser mais que justo, deve, também, ser benevolente e tolerante. Por isso, Allah disse:

“Deus ordena a justiça, a caridade, o auxílio aos parentes, e veda a obscenidade, o ilícito e a iniqüidade. Ele vos exorta a que mediteis.” (16:90).

A aplicação da justiça e trabalho em prol dela são algumas das grandes responsabilidades da comunidade islâmica, coletivamente. De certa maneira os muçulmanos são testemunhas, ante o resto da humanidade, do que se trata a verdadeira religião de Allah. A este respeito, Allah disse:

“E, deste modo, (ó muçulmanos), contribuímo-vos em uma nação de centro, para que sejais, testemunhas da humanidade, assim como o Mensageiro será para vós…” (2:143).

Um dos significados da palavra wasat (no versículo acima traduzido como “de centro”) é justo e equilibrado, que evita os extremos que acompanham sempre a exploração e a injustiça.

Por último, existe uma relação muito importante entre a justiça e a obediência à revelação de Allah.

Allah é o único com imparcialidade e justiça para determinar leis que não favorecem a uma classe em detrimento de outra (em particular, a dos poderosos sobre os fracos).

É também o único com conhecimento total que Lhe permite estabelecer leis verdadeiramente justas.

Pode-se ter intenções sinceras, entretanto, devido à necessidade do conhecimento racional perfeito e das interações sociais humanas, corre-se o risco de invocar leis que na realidade são injustas e parciais.

Mais um vez, se uma pessoa uma pessoa deseja uma justiça pura e intacta, não tem outra opção senão recorrer à revelação de Allah e Suas Leis. Ibn al Qaiim escreveu:

“Allah enviou Seus mensageiros e revelou Seus Livros para que a gente pudesse viver com justiça. É a mesma justiça e o mesmo equilíbrio em que se baseiam os céus e a terra. Em todo lugar onde estejam visíveis e claros os sinais da verdadeira justiça, ali estará a Lei de Allah e Sua religião.”

Afortunadamente, para toda a humanidade, o funcionamento do cosmos se dá segundo a justiça e a verdade de Allah e não se baseia em paixões dos seres humanos. Dessa forma Allah disse:

“E se a verdade tivesse satisfeito os seus interesses, os céus e a terra, com tudo quanto encerram, transformar-se-iam num caos. Qual! Enviamos-lhes a Mensagem e assim mesmo a desdenharam.” (23:71).

A justiça, que é tão essencial ao Islam, estende-se além desta vida. Em outras palavras, Allah julgará todas as pessoas da maneira mais justa e não prejudicará a ninguém, nem mesmo no mínimo que seja. Parte desta justiça inclui o fato de que nenhuma pessoa carregará o pecado de outra e ninguém será responsável pelo que esteja além de seu alcance. Sobre isso Allah disse:

“Dize ainda: Como poderia eu adorar outro senhor que não fosse Deus, uma vez que Ele é o Senhor de todas as coisas? Nenhuma alma receberá outra recompensa que não for a merecida, e nenhum pecador arcará com culpas alheias, então, retornareis ao vosso Senhor, o Qual vos inteirará de vossas divergências.” (6:164).

“Quem se encaminha, o faz em seu benefício; quem se desvia, o faz em seu prejuízo, e nenhum pecador arcará com a culpa alheia. Jamais castigamos (um povo), sem antes termos enviado um mensageiro.” (17:15).

“Deus não impõe a nenhuma alma uma carga superior às suas forças. Beneficiar-se-á com o bem quem o tiver feito e sofrerá mal quem o tiver cometido…” (2:286).

“Que o abastado retribua isso, segundo as suas posses; quanto àquele, cujos recursos forem parcos, que retribua com aquilo com que Deus lhe agraciou. Deus não impõe a ninguém obrigação superior ao que lhe concedeu; Deus trocará a dificuldade pela facilidade.” (65:7).

A justiça não só tem um aspecto positivo (o cumprimento e a restituição dos direitos que haviam sido violados), mas também deve ter um componente “negativo”: a proibição de prejudicar o próximo. No Islam é muito evidente o impedimento de se prejudicar o próximo. O Profeta afirmou que Allah lhe disse:

“Ó servos Meus, é proibida para Mim a injustiça e também proibida para vós. Portanto, não vos prejudiquem uns aos outros.” (Muslim).

Ibn Taimiyah sustenta que essa afirmação cobre toda a religião. Tudo o que Allah proibiu, de uma ou outra maneira, é um tipo de injustiça (dhulm), enquanto tudo o que foi ordenado é uma forma de justiça (adl). De fato, Allah disse:

“Enviamos os Nossos mensageiros com as evidências: e enviamos, com eles, o Livro e a balança, para que os humanos observem a justiça; e criamos o ferro, que encerra grande poder (para a guerra), além de outros benefícios para os humanos, para que Deus Se certifique de quem O secunda intimamente, a Ele e aos Seus mensageiros; Sabei que Deus é Poderoso, Fortíssimo.” (57:25).

Portanto, foram enviados mensageiros, livros foram revelados e alcançou-se um equilíbrio para que a humanidade pudesse se estabelecer e viver com justiça. Além disso, o ferro foi criado para que pudesse ser usado em nome da verdade e justiça. O Livro guia à justiça e a espada e o ferro o apóiam.

Existe outra relação muito importante entre justiça e Islam. Para que os seres humanos possam ser realmente justos, necessitam de algum tipo de mecanismo interno que os impulsione a fazer algo correto. É muito fácil ser parcial quando está em jogo a riqueza, a família, a comunidade e a honra. Muitos sabem reconhecer a injustiça dos demais, mas não conseguem, ou mesmo se negam, a reconhecer a própria injustiça. Nesses casos as paixões não nos permitem reconhecer a verdade. Sem dúvidas, uma vez que a verdadeira fé entra no coração da pessoa, a situação muda por completo.

A pessoa entende que Allah quer que ela atue com justiça. Ela também sabe que Allah está inteirado de todas as suas ações e intenções, até as mais pequenas. Allah exige justiça e proibiu todas as formas de injustiça. Então, o verdadeiro crente não dará preferência a seus desejos, sua riqueza, sua nação ou o que for, sobre o que Allah exige dele em forma de justiça. Sabe que se encontrará com Allah e que quererá fazê-lo com a consciência limpa. Assim, esforçar-se-á para alcançar a justiça e aceitar somente o que esta determine.

Muitos convertidos, hoje em dia, vêm de sociedades individualistas, onde, em muitas ocasiões, a justiça é passada para trás para servir aos interesses próprios. Isto não tem cabimento dentro do Islam. Novamente, ainda que vá contra nossos próprios interesses, um muçulmano deve sempre firmar-se e encorajar-se na verdade e justiça.

– A Paz Verdadeira

A luz e a orientação de Allah é o caminho para a paz verdadeira. Allah disse:

“Ó adeptos do Livro, foi-vos apresentado o Nosso Mensageiro para mostrar-vos muito do que ocultáveis do Livro e perdoar-vos em muito. Já vos chegou de Deus uma Luz e um Livro lúcido, pelo qual Deus conduzirá aos caminhos da salvação aqueles que procurarem a Sua complacência e, por Sua vontade, tirá-los-á das trevas e os levará para a luz, encaminhando-os para a senda reta.” (5:15-16).

De fato Allah chama os seres humanos à morada da paz eterna:

“Onde sua prece será: Glorificado sejas, ó Deus! Aí sua mútua saudação será: Paz! E o fim de sua prece será: Louvado seja Deus, Senhor do Universo!” (10:25).

A paz total e verdadeira só se pode ser alcançada quando as pessoas obtêm a paz interior. É a única forma de vida compatível com a natureza dos seres humanos. De fato, é o que podemos chamar “verdadeira vida”. Assim, disse Allah:

“Ó fiéis, atendei a Deus e ao Mensageiro, quando ele vos convocar à salvação. E sabei que Deus intercede entre o homem e o seu coração, e que sereis congregados ante Ele.” (8:24).

Conhecer a Allah é o que pode trazer a verdadeira felicidade da alma. Se a pessoa não conhece seu Criador, sua alma sempre estará sempre buscando algo que falta em sua vida. A menos que a alma e o coração estejam contentes, a pessoa nunca poderá alcançar a felicidade.

O Profeta disse:

“A verdadeira riqueza está na felicidade interna.” (Bukhari e Muslim).

Também disse:

“A verdadeira riqueza é a riqueza do coração. A verdadeira pobreza é a pobreza do coração.”

Uma vez que o indivíduo está em paz consigo mesmo e livre de toda agitação interna, pode estabelecer relações verdadeiramente pacíficas com os demais. Isso começa com os mais próximos de sua família e se estende aos vizinhos e outras pessoas da comunidade, para eventualmente alcançar a humanidade em sua totalidade.

Assim o Islam estabelece uma estrutura social baseada na interatividade entre as pessoas, de forma que geram uma coexistência pacífica. Os filhos reconhecem os direitos de seus pais sobre eles mesmos, por sua vez, os pais reconhecem as suas responsabilidades para com seus filhos. Os cônjuges se unem não como competidores, mas como companheiros que cooperam para criar um lugar cheio de paz e amor. De fato, Allah ressalta que esta relação – que Ele criou – como um grande sinal:

“Entre os Seus sinais está o de haver-vos criado companheiras da vossa mesma espécie, para que com elas convivais; e colocou amor e piedade entre vós. Por certo que nisto há sinais para os sensatos.”(30:21).

Allah estabelece leis estritas que protegem a santidade do lar, como as leis que dizem respeito ao adultério, fornicação e injúria. A razão para isso é que o lar é a verdadeira base de toda a sociedade. Dificilmente as pessoas que provêm de um lar conflitado e sem paz poderão se tornar membros positivos e pacíficos da sociedade.

Posto que a orientação do Islam não só cobre o que se conhece tradicionalmente como “lei”, senão também o comportamento e a conduta ética; o Islam oferece uma orientação detalhada da maneira em que os membros da sociedade devem interagir entre si. Há uma grande ênfase no respeito mútuo, no que cada membro da sociedade é consciente de que é parte de uma unidade maior e que isso implica direitos e deveres. Este sentimento mútuo produz uma sociedade cheia de paz, na qual cada indivíduo cuida do bem-estar e das necessidades dos outros membros da sociedade.

Portanto, quando se põe em prática o Islam, a pessoa encontra paz ao seu redor, tanto em si mesma, quanto na sociedade. Até mesmo a paz mundial só pode ser real através da justiça. Nos últimos anos, cada vez mais pessoas se dão conta disso e declaram que “não há paz sem justiça”. (A justiça geralmente é um lema utilizado em tempos de guerra, mas normalmente não é mais que isso, um lema.)

Entretanto, não pode haver paz verdadeira ou justiça até que as pessoas consigam superar os interesses nacionalistas, étnicos, econômicos ou políticos.

A verdadeira justiça só pode acontecer quando as pessoas se dedicam inteiramente a Allah, aplicando Sua orientação e eliminando seus egos e paixões em suas decisões.

Na próxima vida, desde já afirmo, a paz eterna só poderá ser alcançada crendo em Allah e seguindo Sua orientação. Novamente, Allah deixa bem claro que esse é o destino o qual os seres humanos são convidados:

“Deus convoca à morada da paz e encaminha à senda reta quem Lhe apraz.” (10:25).

– Uma Última Consideração

Não é exagero advertir que todos os objetivos do Islam estão fortemente interligados e isso é algo bastante lógico. Na verdade, todos surgem da base do monoteísmo verdadeiro. Quando uma pessoa se cerca pelos ensinamentos islâmicos, liberta-se da adoração a qualquer coisa ou objeto.

Além disso, leva uma vida, neste mundo, de uma maneira que beneficia a sociedade e a civilização. Trabalha pela justiça e se assegura que nem ele, nem os outros provoquem algum tipo de dano. No fim encontra a verdadeira paz e pode transmiti-la aos demais. Entretanto, tudo isso deve começar com a verdadeira interiorização do monoteísmo puro, naquilo que a pessoa adora e se submete – Allah e a prática, com devoção, da religião de Allah em sua vida.

Claramente, uma vez que a pessoa entende, aceita e aplica o verdadeiro conceito do monoteísmo islâmico em sua vida, alcança-se os outros aspectos como conseqüência desta meta principal. Por outro lado, sem um monoteísmo puro, não se pode alcançar os objetivos, inclusive a níveis superficiais. Por isso, é compreensível que, na essência, todo o Qur’an trate do tauhid, ou o monoteísmo puro. O comentarista de uma das exposições mais famosas sobre teologia islâmica, al Aquidah al tahaawiyah, destacou que o Qur’an, em sua totalidade, é, na verdade, uma discussão sobre o monoteísmo puro (tauhid):

“A maior parte dos capítulos do Qur’an trata de dois tipos de tauhid; de fato, cada capítulo do Qur’an [trata sobre tauhid]. O Qur’an cita os nomes e atributos de Allah. Esse é o tauhid que se refere ao que deve ser conhecido e é reportado. O Qur’an convida a adorá-lo, sem associá-lo companheiros [nessa adoração] e abandonando todo ídolo que não seja Ele. Esse é o tauhid da intenção ou vontade. O Qur’an ordena, proíbe ou decreta a obediência para com Ele. São aspectos essenciais do tauhid e parte de sua totalidade. O Qur’an reporta como [Allah] honra àqueles que aderem ao tauhid, o que Ele faz por estes neste mundo e o que lhes é reservado na próxima vida. Essa é a recompensa por aderir ao tauhid. O Qur’an também reporta sobre os politeístas e de como são tratados neste mundo e que tipo de castigo receberão quando chegar o fim, esse é o castigo para aqueles que abandonam os aspectos do tauhid.”

Por Jamaal Zarabozo

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