Ciúmes na Infância – como pais muçulmanos devem lidar

Ciúmes na Infância – como pais muçulmanos devem lidar

A infância é o primeiro tijolo na construção de nossas personalidades e a base sólida que sustenta o desenvolvimento saudável do restante das etapas de nossas vidas, para produzir personalidades ideais, capazes de enfrentar os problemas futuros e levar uma vida equilibrada e estável. Nossos filhos hoje experimentam sentimentos diferentes e complexos que os pais podem não perceber devido à preocupação com a vida e com o sustento, além do ritmo acelerado da vida cotidiana. Muitas pessoas desconhecem, ou simplesmente ignoram, o fato de que a infância é a pedra fundamental e o principal componente da personalidade de um indivíduo nos níveis psicológico, emocional, físico e social. O desenvolvimento da personalidade de uma criança começa na família e se molda através da sua interação com vizinhos e amigos, e depois seus colegas na escola e na faculdade, até seus colegas de trabalho, expandindo-se para a inclusão da sociedade como um todo.

Cada aspecto psicológico da personalidade de uma pessoa se desenvolve e evolui de acordo com o meio ambiente e as circunstâncias disponíveis. Discutiremos neste artigo o aspecto emocional em particular e sublinharemos seu grande impacto na personalidade da criança.

O aspecto emocional de uma personalidade refere-se a um conjunto de emoções e sentimentos entrelaçados e conflitantes que precisam ser processados ​​adequadamente. A primeira reação emocional que a maioria das crianças exibe é o ciúme. Não é uma emoção simples; ao contrário, é uma mistura complexa e diversificada de emoções negativas e uma luta entre os sentimentos de amor e agressão dentro da criança. Abordaremos a seguir o ciúme em vários e importantes aspectos.

  • Conceito e Definição de Ciúme:

Linguisticamente, o ciúme é um apego emocional intenso a uma pessoa amada acompanhada de ansiedade constante por medo de perder essa pessoa valiosa para um rival que possa compartilhar com ele o amor.

Idiomaticamente, o ciúme é um estado emocional ou uma perturbação emocional complexa resultante de uma série de sentimentos mistos, como medo, possessividade, insatisfação, raiva e amor, acompanhados de alterações fisiológicas internas e externas vivenciadas pela criança ao perder coisas a que está acostumada ou quando surge um rival.

Na psicologia, o ciúme é um complexo de sentimentos inatos e intrincados que são difíceis de manter sob controle. O desenvolvimento de tais sentimentos leva a distúrbios psicológicos que privam a criança da paz interior.

Uma criança geralmente não está disposta a revelar e exibir os sentimentos de ciúme e opta por suprimi-los. A falha dos pais em lidar com esses sentimentos de forma positiva faz com que a criança os traduza em comportamentos não característicos e indesejáveis, como raiva, sabotagem, incômodo, desobediência e mentira. Às vezes, isto aumenta a ponto de fazer com que a criança desenvolva incontinência urinária, roa unhas, morda os lábios ou finja alguma doença.

Talvez nossa parentalidade e a maneira como lidamos com nossos filhos em diferentes situações sejam a faísca que acende o ciúme em seus corações, devido a erros parentais que os pais podem ignorar. São eles que alimentam a rivalidade entre os filhos como resultado desses erros parentais que poderiam ser evitados com um pouco de conhecimento de técnicas parentais simples.

Uma criança demonstra ciúmes quando experimenta privação ou perda de coisas a que está acostumada, ou quando se compara com o que vê nos outros, sejam seus colegas na escola ou membros da família.

  • Causas comuns de ciúme em crianças:

1- Comparar uma criança:

Muitas famílias, às vezes, tendem a comparar seus filhos com os outros elogiando o comportamento de outras crianças na frente deles ou mencionando conquistas alheias, como excelência acadêmica ou quão organizados ou ativos os outros são e coisas do gênero, ampliando essas qualidades enquanto ignoram as qualidades de seus próprios filhos, porque eles desejam que essa outra criança seja um modelo para as suas. Eles recorrem à comparação acreditando ser uma fonte de motivação para levar seu filho ao sucesso, ignorando o fato de que cada criança tem seu conjunto único de habilidades e nível de inteligência, e que algumas crianças podem ser dotadas de habilidades e capacidades distintas que diferem dos de seus pares. Tal comparação é um terrível erro parental que muitas famílias cometem. Encontramos, também, algumas famílias que privilegiam os filhos em detrimento das filhas por influência da sua cultura e herança social.

Essas comparações tomam um rumo negativo e levam a criança a se comportar de maneira agressiva e insalubre, porque a fazem se sentir inferior. Como resultado, a criança começa a sentir que suas ações não atendem às expectativas da família e, portanto, não podem ganhar sua admiração e se sente está falhando. A nível do subconsciente, ela começa a odiar a criança a quem está sendo comparada e tenta evitá-la, ou às vezes abusar dela. Para proporcionar uma educação sólida e saudável para uma criança, os pais devem evitar essas comparações negativas e recorrer às positivas, destacando as boas qualidades de seu filho e apontando as semelhanças entre ele e boas figuras públicas às quais ele pode imitar. Os pais também podem comparar seu filho com ele próprio ao longo do tempo, por exemplo, lembrando-o de suas pontuações no ano anterior e comparando-as com suas pontuações do ano corrente. Ao fazer isso, podemos transformar os sentimentos negativos do ciúme em positivos. Os pais também devem evitar a reprovação e o uso de punições prejudiciais ou espancamentos para garantir o desenvolvimento de uma personalidade madura e saudável, reduzindo os sentimentos de raiva ou agressão e evitar problemas que surgem disto, como sabotagem ou introversão. Às vezes, a supressão de sentimentos causa incontinência urinária ou leva a criança a comportamentos de auto mutilação, como morder os lábios ou roer as unhas para desabafar os sentimentos reprimidos de tristeza.

2- O ciúme de um irmão com um bebê recém-nascido:

A chegada de um novo membro à família é motivo natural para despertar o ciúme do filho mais velho, pois ele sente que perdeu todos os privilégios que tinha, bem como toda a atenção e cuidado que recebia dos pais, como se o tapete debaixo de seus pés fosse puxado e ele perdesse tudo o que tinha para este bebê recém-nascido. Essa mudança leva a criança mais velha a apresentar um comportamento agressivo em relação ao recém-nascido pelo sentimento que lhe roubaram tudo, ou ainda, pode começar a fingir doença para chamar a atenção de seus pais, e, às vezes, pode se sentir triste e deprimido porque perdeu seu senso de segurança.

Portanto, os pais devem evitar brincar e mimar o recém-nascido na frente do mais velho e não devem ignorar os protestos do filho mais velho. Eles devem continuar a brincar com ele, mostrar afeição e cuidar de todos os seus assuntos. Além disso, os pais devem preparar seu filho (mental e emocionalmente) antes do nascimento de seu irmão mais novo. Eles devem conversar com ele e dizer que ele terá um irmãozinho ou irmãzinha que vai brincar com ele e estar perto dele. Devem também associar o nascimento do recém-nascido a um acontecimento alegre que o faça feliz, comprando-lhe um brinquedo ou levando-o para um passeio especial e etc. Outra ideia é envolver o filho mais velho na preparação do quarto do recém-nascido, acompanhando-o para visitar o irmãozinho no hospital e pedindo sua ajuda para cuidar de seus afazeres voluntariamente sem coação, como pedir que ele vá buscar fraldas ou a mamadeira. Os pais também devem elogiar as boas qualidades do filho mais velho e recompensá-lo por seu comportamento positivo com o bebê; isso gera sentimentos de amor pelo recém-nascido, neutraliza seus sentimentos conflitantes internos de amor e agressão e o ajuda a aceitar a nova situação. Para incentivá-lo a aceitar a mudança, ele também deve ser incentivado a expressar suas emoções e lidar com elas de maneira adequada e equilibrada para superar seus efeitos adversos. Enquanto isso, os pais devem evitar tomar partido de um de seus filhos para que não haja distorção de sua imagem aos olhos de seus irmãos, provocando raiva e ciúmes, que podem se acumular e evoluir para um complexo psicológico.

3- Mimar a criança:

Uma criança mimada percebe-se como o centro do universo e rejeita tudo o que pode mudar isso, como o nascimento de um novo irmão ou a excelência de um colega de escola, porque não quer que ninguém seja melhor do que ela. A presença de uma criança fisicamente mais forte, de um colega de classe de alto desempenho ou de um irmão recém-nascido a deixa com raiva e a leva a recorrer a comportamentos de sabotagem, às vezes, até ao auto isolamento e à introversão. Os sentimentos de ciúme experimentados por uma criança mimada podem se agravar se não forem abordados, pois ela tende a ser egoísta e possessiva. Ela não abre espaço para os outros brilharem nem está atenta aos que estão ao seu redor.

Portanto, os pais devem ensinar a essa criança que ela tem direitos e deveres e devem incentivar jogos de equipe para que ela jogue com seus colegas de escola ao invés de brincar sozinha. Eles também devem lembrá-la de que o que ela recebe deve ser compartilhado com seus colegas ou irmãos para minar esse egoísmo e possessividade e reduzir gradualmente a probabilidade de comportamento agressivo. É perceptível que um filho único é mais propenso a ser possessivo e egoísta do que aqueles com irmãos que crescem em um ambiente saudável e adequado. O mesmo vale para uma criança do sexo masculino com irmãs do sexo feminino ou vice-versa. A família, e sua formação cultural e educacional, desempenham um papel significativo no alívio e na prevenção desse problema, além de ter um papel ativo na construção da personalidade da criança nos níveis emocional e sentimental de maneira equilibrada e na transformação do ciúme em ciúme positivo (inveja isenta de malícia), levando-o a uma competição justa, em vez de produzir sabotagem e comportamento agressivo ou introversão.

Podemos encontrar muitas outras razões diferentes para o fenômeno do ciúme e sua prevalência entre as crianças, mas discutimos neste artigo as causas mais famosas e comuns do meu ponto de vista e com base em minhas observações dentro dos contextos familiares e discussões com um grupo de educadores, aproveitando suas experiências neste campo. Tentei resumir e simplificar todos esses pontos para os queridos leitores.

Por fim, é importante conscientizar as famílias sobre esse problema, compreender os sentimentos de ciúmes que seus filhos nutrem, identificar os motivos que os provocam, seja em palavras ou ações, e evitá-los para mitigar esses sentimentos negativos na criança, porque ela precisa desfrutar de segurança, estabilidade emocional e psicológica ao longo das várias fases de seu crescimento e desenvolvimento. Isso pode ser feito fornecendo a ela um ambiente amoroso e saudável para ser seu refúgio permanente e fonte de apoio que a capacitaria a superar seus problemas. Isso maximiza as chances de seu sucesso e potencializa sua capacidade de construir uma personalidade forte, capaz de se envolver com a sociedade e enfrentar seus desafios.

Fonte: islamweb.net

O Islam e a Família