A Grande Virtude de Baixar o Olhar

A Grande Virtude de Baixar o Olhar

Por Imâm Ibn al-Qayyim

Retirado de ‘al-Muntaqâ min Ighâthatul Lufhân fî Masâyid ash-Shaytân’ [pp. 102-105] de Ibn al-Qayyim, resumido por ‘Alî Hasan al-Halabî

Allah, o Exalto, disse,

“Dize aos crentes, Muhammad, que baixem suas vistas e custodiem seu sexo. Isso lhes é mais digno. Por certo, Allah é Conhecedor do que fazem”. [an-Nûr (24): 30]


Assim, Allah fez da purificação e do crescimento espiritual o resultado de diminuir a visão e guardar as partes íntimas. É por esta razão que impedir a visão de (ver) as coisas proibidas leva necessariamente a três benefícios que carregam um valor tremendo e são de grande importância.

O primeiro: experimentar o prazer e a doçura da fé

Este deleite e doçura é muito maior e mais desejável do que o que poderia ter sido alcançado a partir do objeto do qual alguém baixou a vista por causa de Allah. Na verdade, “quem quer que deixe algo por causa de Allah, então Allah, o Poderoso e Magnífico, irá substituí-lo por algo melhor do que isso.” [1]

A alma é sedutora e adora ver belas formas e os olhos são o guia do coração. O coração encarrega o seu guia de ir e olhar para ver o que está ali e quando o olho o informa de uma bela imagem ele estremece de amor e desejo por ela. Frequentemente, tais inter-relações cansam e desgastam tanto o coração quanto os olhos, como é dito:

Quando enviaste o teu olho como um guia

Para o teu coração, um dia, o objeto de visão te cansou

Pois tu viste alguém sobre quem não tinhas poder

Nem uma parte ou na totalidade, em vez disso, tiveste de ser paciente.

Portanto, quando a visão é impedida de olhar e investigar, o coração encontra alívio por não ter que passar pela árdua tarefa de (em vão) buscar e desejar.

Quem quer que deixe a sua visão vagar livremente descobrirá que está num estado perpétuo de perda e angústia, pois a vista dá à luz o amor (mahabbah) cujo ponto de partida é o coração ser devotado e dependente daquilo que contempla. Isso então se intensifica para se tornar um anseio fervoroso (sabâbah), por meio do qual o coração se torna totalmente dependente e dedicado (ao objeto de seu desejo). Então, isso se intensifica ainda mais e se torna paixão (gharâmah) que se apega ao coração como aquele que busca o pagamento de uma dívida que se apega firmemente àquele que deve pagá-la. Então, isso se intensifica e se torna um amor apaixonado (‘ishk) e este é um amor que transgride todos os limites. Então, isso se intensifica ainda mais e se torna uma paixão enlouquecida (shaghafa) e este é um amor que abrange cada pequena parte do coração. Então, isso se intensifica e se torna um amor de adoração (tatayyuma). Tatayyum significa adoração e é dito: “tayyama Allâh”, ou seja, “ele adorou Allâh”.

Consequentemente, o coração começa a adorar o que não é correto para ele adorar e a razão por trás de tudo isso foi um olhar ilícito. O coração agora está acorrentado, ao passo que antes era o mestre, agora está preso enquanto antes era livre. Foi oprimido pelos olhos e queixa-se perante o qual os olhos respondem: Eu sou o teu guia e mensageiro e foste tu que me enviaste em primeiro lugar!

Tudo o que foi mencionado aplica-se ao coração que abandonou o amor de Allah e a sinceridade para com Ele, pois, de facto, o coração deve ter um objeto de amor ao qual se devota. Portanto, quando o coração não ama Allah sem parceiros e não O aceita como seu Deus, então ele deve adorar outra coisa.

Allah disse a respeito de Yûsuf as-Siddîq (que a paz esteja com ele),

“Assim, fizemos, para desviar-lhe o mal e a obscenidade. Por certo, ele é um dos Nossos servos prediletos.” [Yûsuf (12): 24]

Foi porque a esposa de al-‘Azîz era uma politeísta que (o amor apaixonado) entrou em seu coração, apesar de ser casada. Foi porque Yûsuf (que a paz esteja com ele) foi sincero a Allah que ele foi salvo, apesar de ser um homem jovem, solteiro e um servo.

O segundo: a iluminação do coração, percepção clara e visão penetrante

Ibn Shujâ` al-Kirmânî disse, “quem quer que construa a sua forma externa seguindo a Sunnah, a sua forma interna em contemplação perpétua e consciência de Allâh, impede a sua alma de seguir desejos, baixe o seu olhar das coisas proibidas e sempre coma as coisas lícitas, então a sua percepção e discernimento nunca estarão errados.”

Allah mencionou o povo de Lût e o que os afligiu, e então disse:

“Por certo, há nisso sinais para os observantes [Mutwassimîn].” [al-Hijr (15): 75]

Os Mutwassimîn são aqueles que têm uma percepção clara e uma visão penetrante, aqueles que estão salvos de olhar para o que é ilícito e de praticar atos indecentes.

Allah disse depois de mencionar o versículo sobre diminuir a visão,

“Allah é a luz dos céus e da terra.” [an-Nûr (24): 35]

A razão por trás disso é que a recompensa é do mesmo tipo que a ação. Portanto, quem quer que diminua a sua visão do ilícito por causa de Allah, o Poderoso e Magnífico, Ele o substituirá por algo melhor do que o mesmo tipo. Assim como o servo impediu que a luz de seus olhos incidissem sobre o ilícito, Allah abençoa a luz de sua visão e coração, fazendo-o perceber o que ele não teria visto e compreendido se não tivesse baixado a vista.

Esta é uma questão que a pessoa pode sentir fisicamente em si mesma, pois o coração é como um espelho e os desejos básicos são como ferrugem sobre ele. Quando o espelho for polido e limpo da ferrugem, ele refletirá as realidades (haq’iq) como elas realmente são. No entanto, se permanecer enferrujado, não refletirá adequadamente e, portanto, o seu conhecimento e fala surgirão de conjecturas e dúvidas.

O terceiro: o coração torna-se forte, firme e corajoso

Allah dar-lhe-á o poder da ajuda para sua força, assim como Ele deu o poder das provas claras para a sua luz. Consequentemente, o coração deve combinar esses fatores e, como resultado, Shaytân deve fugir dele. É mencionado na narração, “quem quer que se oponha a seus desejos básicos, o Shaytân fugirá aterrorizado da sua sombra.” [2]

É por isso que aquele que segue os seus desejos baixos encontrará em si mesmo a ignomínia da alma, sendo ela fraca, débil e desprezível. Na verdade, Allah dá poder e nobreza àquele que O obedece e desgraça àquele que O desobedece,

“E não vos desanimeis nem vos entristeçais – enquanto sois os superiores -, se sois crentes.” [Äli Imrân (3): 139]

“Quem deseja o poder, saiba que é de Allah todo o poder.” [Fâtir (35): 10]

Significa que todo aquele que busca a desobediência e o pecado, então Allah, o Poderoso e Magnífico, irá humilhar aquele que O desobedece.

Alguns dos salaf disseram: “o povo busca a nobreza e o poder às portas dos reis e não os encontrarão, exceto por meio da obediência a Allah”.

Isso ocorre porque aquele que obedece a Allah tomou Allah como seu amigo e protetor e Allah jamais humilhará aquele que toma seu Senhor como amigo e patrono. No Du’â Qunût encontra-se, “aquele que Tu tomas por amigo não é humilhado e aquele que Tu tomas como inimigo não é enobrecido”. [3]

Notas:

[1] Relatado por Ahmad [5/363], al-Marwazî em ‘Zawâ`id az-Zuhd’ [nº 412], an-Nasâ`î em ‘al-Kubrâ’ como mencionado em ‘Tuhfah al-Ashrâf’ [11/199] de um dos Companheiros que o Mensageiro de Allah disse, “na verdade, não deixarás nada por causa de Allâh, exceto que Allah o substituirá por algo melhor do que ele.” O isnâd é sahîh.

[2] Isto não é estabelecido como um hadîth do Profeta.

[3] Relatado por Abû Dâwûd [tradução inglesa 1/374 nº 1420], an-Nasâ`î [3/248], at-Tirmidhî [nº 464], ibn Mâjah [nº 1178], ad-Dârimî [1/311], Ahmad [1/199], ibn Khuzaymah [2/151] de al Hasan de Alî (que Allah esteja satisfeito com ele).

O hadîth é sahîh. O isnâd foi criticado por muitos, no entanto, nenhuma das críticas se manteve. Consulte: ‘Nasb ar-Râyah’ [2/125] e ‘Talkhîs al-Habîr’ [1/247].

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