O Estado do Ego

O Estado do Ego

Há acordo entre os que procuram por Allah, apesar das suas diferentes escolas de pensamento e práticas, de que o ego fica entre o coração e o alcance d’Ele. Só silenciando o ego – evitando-o, ignorando os seus desejos e ultrapassando-o – poderá levar a pessoa para o domínio de Allah, sendo possível alcançá-Lo.


 Há dois tipos de pessoas: um deles é aqueles cuja nafs (ego) as derrotou e as levou à ruína porque se renderam e obedeceram aos seus impulsos; o outro tipo é aqueles que superaram a sua nafs e a fizeram obedecer às suas ordens.

     Alguns dos que têm conhecimento disseram: “O caminho daqueles que procuram por Allah termina quando eles superam os seus egos, porque quem triunfa acima do seu ego tem sucesso e ganha, e quem cujo ego triunfa acima dele perde.”

         Allah, O Exaltado, diz:

“Então, quanto a quem cometeu transgressão e deu preferência à vida terrena, por certo, o Inferno lhe será morada. E quanto a quem temeu a preeminência de seu Senhor e coibiu a alma das paixões, por certo, o Paraíso lhe será a morada.”[79:37-41]

       O ego incita às más acções, e à preferência desta vida acima da próxima; enquanto que Allah diz aos Seus servos para O temerem, e para restringirem o ego de seguir os seus impulsos. O coração é dividido entre estes dois. Este ouve um lado por um momento e o outro no momento seguinte. Aqui reside a fonte de aflição, e um desafio.

       No Qur’an, Allah descreveu três estados do ego: o ego em paz, o ego censurador de si mesmo, e o ego que incita ao mal. De acordo, muitas pessoas variaram nas suas opiniões quanto a se um servo tem um ego, do qual estes três estados são atributos, ou três egos.

       A primeira opinião é das pessoas de conhecimento e explicação, enquanto que a segunda foi atribuída aos sufis. A verdade é que não há contradição entre as duas. O ego é uma entidade singular em relação à sua essência, e é um dos três tipos principais, dependendo dos atributos que tem.

O ego em paz

     Quando o ego consegue descansar na Presença de Allah, e fica tranquilo quando o Seu Nome é invocado, e sempre deixa todos os assuntos para Ele, e volta-se para Ele frequentemente, e fica impaciente para O encontrar, e experiencia a intimidade da Sua proximidade, então é uma alma em paz. É a alma à qual será dito no momento da morte:

“Ó alma tranquila! Retorna a teu Senhor, agradada e agradável; Então entra para junto de Meus servos, e entra em Meu Paraíso.”[89:27-30] 

         Ibn Al-Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “É a alma crente e tranquila.”

       Qatada disse: “É a alma do crente, acalmada pelo que Allah prometeu. O seu dono está em completo descanso e contente com o seu conhecimento dos Nomes e Atributos de Allah, e com o que Ele disse sobre Ele Próprio e o Seu Mensageiro ?, e com o que Ele disse sobre o que espera a alma depois da morte – sobre a partida da alma, a vida no barzakh, e os eventos do Dia da Ressurreição que seguirão – tanto que um crente assim poderia quase ver com os seus próprios olhos. Então ele submete-se à vontade de Allah e rende-se a Ele contentamente, nunca insatisfeito ou queixoso, e com a sua fé nunca abalada. Ele não se regozija com os seus ganhos, nem as suas aflições o fazem desesperar, pois ele sabe que estes foram decretados bem antes de lhe acontecerem, mesmo antes de ele ser criado, visto que Allah diz:

‘Nenhuma desgraça ocorre sem que seja com a permissão de Allah, E quem crê em Allah, Ele lhe guiará o coração. E Allah, de todas as cousas, é Onisciente.’[64:11]” 

      Muitos dos nossos antepassados disseram que tal alma pertence ao servo que, quando afligido por infortúnio, sabe que este vem de Allah e aceita-o e submete-se à Sua vontade.

         A paz que vem com ihssan brota de uma familiaridade tranquilizadora com o decreto de Allah, que é refletido na submissão, sinceridade e adoração. Nenhum desejo, ou vontade, ou força de hábito, podem ter precedência sobre a Sua vontade e ordem; Não pode haver atracção a qualquer coisa que contradiga qualquer dos Seus Atributos; e não pode haver desejo que oponha o Seu decreto – e se alguma vez tal coisa aconteça a tal pessoa, então ele simplesmente repudia-a, como faz como os sussurros de shaytan. Por certo, ele preferiria cair do céu do que levar a sério tal coisa dentro dele.

       Isto, como o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse, é fé clara e verdadeira.[1] Por ela, ele é salvo da preocupação que acompanha más acções, da ansiedade quanto a elas, graças à paz e doçura que vêm ao voltar-se para Ele.

       Se ele se apoiar na crença firmemente depois de ter duvidado, ou no conhecimento depois da ignorância, ou na lembrança depois da negligência, ou no arrependimento depois da rebeldia, ou na sinceridade depois do exibicionismo, ou na honestidade depois do engano, ou no esclarecimento depois da confusão, ou na humildade da proximidade depois da impetuosidade do desejo, ou na modéstia depois da ostentação, então a sua alma estará em paz.

       Tudo isto é devido à conscientização que liberta o coração do sono ocioso e ilumina os palácios do Jardim à sua frente – tal como um homem clamou:

“Ó alma, cuidado! Ajuda-me com o teu esforço

na escuridão das noites,

para que no Dia da Ressurreição

ganhes uma boa vida nessas alturas!”

       Ele reconheceu, pela luz do despertar, o propósito da sua criação, e o que encontraria, do momento da sua morte ao momento que entraria na morada eterna (isto é, o Jardim ou o Fogo). Ele reconheceu o quão depressa passa este mundo, e o quão incerto é para as suas crianças, e como este destrói quem o ama. Então ele levantou-se nesta luz, cheio de determinação, e disse:

“Que aflição a minha, porque descurei de minhas obrigações para com Allah!”[39:56]

       Então ele parte para um novo começo na sua vida, compensando pelo que ele perdeu e trazendo de volta à vida o que morreu. Agora ele enfrenta destemidamente as armadilhas que encontrou antes, e aproveita o momento com a sua capacidade recentemente descoberta, que, quando tivesse passado por ele antes, teria causado a sua perda de todo o bem.

       Depois ele percebe, à luz do seu despertar e à luz das dádivas que Allah lhe deu, que ele é incapaz de medir e contar as bênçãos de Allah, ou de pagar a sua dívida. Com esta percepção, ele reconhece as suas falhas e deficiências, as suas más acções e todas as coisas más que fez, toda a sua desobediência e negligência de tantos deveres e direitos. O seu ego é quebrado e o seu corpo é humilhado e ele aborda Allah com a sua cabeça baixa. Ele reconhece a generosidade de Allah e vê ambos os seus próprios delitos e falhas ao mesmo tempo.

        Ele também vê, à luz do seu despertar, o quão precioso é o tempo, e o quão importante este é. Ele reconhece que este é a capital do seu bem-estar futuro que não deve ser desperdiçado, e ele torna-se tão poupado com ele que só o gasta em acções e obras que o aproximarão de Allah – pois desperdiçar tempo é a semente do fracasso e arrependimento, e ser cuidadoso com este é a raíz do sucesso e prazer.

       Estas são então as consequências de estar consciente e o que as aumenta. Estes são os primeiros passos da alma em paz no seu caminho para Allah e para a akhira.

O ego censurados de si mesmo

      Foi dito que este tipo de ego é aquele que não pode descansar em qualquer estado em particular. Ele muda frequentemente, lembra-se e esquece-se, submete-se e transgride, ama e odeia, alegra-se e entristece-se, aceita e rejeita, obedece e rebela-se.

         Foi também dito que é o ego do crente. Al-Hasan Al-Basri disse: “Você sempre verá o crente a censurar a si mesmo e a dizer coisas como ‘Eu queria isto? Porque é que fiz aquilo? Isto é melhor que aquilo?’”.

         Foi também dito que o ego culpa-se a si mesmo no Dia da Ressurreição: cada um culpa-se pelas suas acções, seja pelas suas más acções, se ele fazia muitas, ou pelas suas falhas, se ele fazia boas acções. O Imam Ibn Al-Qayyim diz que tudo isto está correcto.

         Há dois tipos de ego censurador de si mesmo: aquele que é culpável e aquele que não é culpável. O culpável é o ego ignorante e desobediente que Allah e os Seus anjos culpam. O ego que não é culpável é o ego que se culpa pelas suas falhas na obediência a Allah, apesar de todos os seus esforços nessa direcção. Este ego não é realmente culpável.

         Os egos mais louváveis são aqueles que se culpam por causa das suas falhas em obedecer Allah. Este é o ego que aguenta o criticismo dos outros na busca pelo Seu agrado. Este escapou de ser culpado por Allah.

         Quanto ao ego que aceita as suas acções como elas são, sem auto-censura, e que não aguenta criticismo dos outros – o que significa que não é sinceramente obediente a Allah – este é o ego que Allah culpa.

O Ego que Incita o Mal

        Este é o ego que traz castigo para si mesmo. Pela sua própria natureza, este guia o seu dono em direcção a todas as más acções. Ninguém pode livrar-se do seu mal sem a ajuda de Allah. Como Allah diz sobre a esposa de Al-Aziz, na história de Yusuf:

“E não absolvo minha alma do pecado. Por certo, a alma é constante incitadora do mal, exceto a de quem meu Senhor tem misericórdia. Por certo, meu Senhor é Perdoador, Misericordiador.”[12:53]

Allah também diz:

“E, não fora o favor de Allah para convosco, e Sua misericórdia, Ele jamais dignificaria a nenhum de vós, mas Allah dignifica a quem quer. E Allah é Oniouvinte, Onisciente.”[24:21]

         Foi-nos ensinado o du’a: “Todo o louvor é para Allah, nós louvamo-Lo e buscamos a Sua ajuda e o Seu perdão. Procuramos refúgio n’Ele do mal dos nossos egos e do mal das nossas acções.”[2]

         O mal reside escondido no ego, e é isto que o guia a fazer o que é errado. Se Allah deixasse o servo sozinho com o seu ego, o servo seria destruído entre o seu mal e o mal a que este anseia; mas se Allah lhe garantir sucesso e ajuda, então ele sobreviverá. Procuramos refúgio em Allah, Todo-Poderoso, do mal dos nossos egos e do mal das nossas acções.

         Então o ego é uma entidade única, apesar do seu estado mudar: do ego que incita ao mal (an-nafs Al-ammara), ao ego censurador de si mesmo (an-nafs Al-lawwama), ao ego em paz (an-nafs Al-mutma’inna), que é o objectivo final de perfeição.

         O ego em paz tem um anjo a ajudá-lo, que auxilia e orienta. O anjo lança bondade ao ego, para que este deseje o que é bom e esteja consciente da excelência de boas acções. O anjos também mantém o ego longe de más acções e mostra-lhe a feiúra das más acções. Contudo, tudo o que é para Allah e por Ele, sempre vem da alma que está em paz.

         O ego que incita ao mal tem shaytan como aliado. Ele promete-lhe grandes recompensas e ganhos, mas lança falsidade para ele. Ele convida-o e incita-o a fazer o mal. Ele lidera-o com esperança atrás de esperança e apresenta-lhe falsidade de uma forma que ele aceitará e admirará.

         A nafs Al-mutma’inna, o ego em paz, e os seus anjos requerem o seguinte: firme crença em Allah, O Único, sem parceiros; excelência moral; bom comportamento para com Allah, pais, companheiros, etc.; temor a Allah; total confiança e dependência de Allah; voltar-se arrependido a Allah; deixar todos os assuntos para Allah; aproximar-se de Allah; restringir expectativas; e estar preparado para a morte e o que vem depois desta.

         O Shaytan e os seus ajudantes, por outro lado, requerem a nafs Al-ammara, o ego que incita ao mal – o oposto de tudo isto.

         O desafio mais difícil para o ego em paz é libertar-se da influência do shaytan e da nafs Al-ammara. Se este entra nesta luta, então torna-se nafs Al-lawwama – o ego censurador de si mesmo; e se a luta é vencida, então torna-se nafs Al-mutma’inna. Se só uma acção fosse aceite por Allah, a pessoa que a fizesse teria sucesso pela sua virtude, mas o shaytan e a nafs Al-ammara recusam-se a encorajar o ego a fazer mesmo uma só acção deste tipo.

         Alguns aos quais foi dado conhecimento por Allah e pelos próprios egos disseram, “Se eu pudesse saber ao certo que mesmo uma só acção foi aceite por Allah, então eu estaria mais feliz na chegada da minha morte do que o constante viajante quando vê a sua família”. Abdullah Ibn Umar disse, “Se eu pudesse saber ao certo que Allah aceitou até uma das minhas prostrações, não haveria nenhum amigo perdido mais querido para mim do que a própria morte”.

         A nafs Al-ammara encoraja o mal e opõem-se abertamente à nafs Al-mutma’inna. Sempre que a última apresenta uma boa acção, a primeira apresenta uma má acção como resposta. A nafs Al-ammara diz à nafs Al-mutma’inna que jihad não é nada mais que suicídio, uma esposa viúva, crianças órfãs, e desperdício de riqueza. Ela tenta convencer a nafs Al-mutma’inna de que zakat e sadaqah não são nada mais que uma despesa desnecessária e um fardo, um buraco no seu bolso, que levará à dependência de outros, até se tornar como os pobres.

Responsabilizar o Ego

          Quando o ego que incita ao mal domina o coração de um crente, o único remédio é responsabilizá-lo e depois ignorá-lo. O Imam Ahmad relatou a partir de Umar Ibn Al-Khattab, que Allah esteja satisfeito com ele, que o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse, “A pessoa inteligente é aquela que responsabiliza o seu ego e age em preparação para o que está depois da sua morte; e a pessoa insensata é aquela que se abandona aos seus anseios e caprichos e espera que Allah cumpra os seus desejos fúteis.”[3]

         O Imam Ahmad também relatou que Umar Ibn Al-Khattab, que Allah esteja satisfeito com ele, disse, “Julguem os vossos egos antes de serem julgados [perante Allah]; e pesem os vossos egos na balança antes de serem pesados na balança [perante Allah]. Se vocês forem responsabilizados amanhã, será muito mais fácil se já se responsabilizaram hoje – então façam isso, antes de chegarem à Reunião Final pois:

‘Nesse dia, sereis expostos; nenhum segredo vosso se ocultará.’[69:18]” [4]

         Al-Hasan disse, “Um crente é responsável pelo seu ego, e ele responsabiliza-o para agradar a Allah. O julgamento será mais leve no Dia do Juízo para as pessoas que responsabilizaram os seus egos nesta vida, mas será severo para as pessoas que não se prepararam para ele, responsabilizando os seus egos antecipadamente.”

         Um crente é distraído por algo que ele gosta, então ele diz: “Por Allah, eu gosto de ti e eu preciso de ti, mas não há meios pelos quais te poderei ter, então foste mantido longe de mim”. Quando isso está fora do seu campo de visão e para além do seu alcance, então ele cai em si e diz, “Eu não queria isso realmente! O que me fez preocupado com aquilo? Por Allah, não me preocuparei mais com isso outra vez!”

         Os crentes são um povo que foi impedido através do Qur’an de ceder aos prazeres deste mundo; este fica entre eles e o que poderá destruí-los. O crente é como um prisioneiro neste mundo, que tenta libertar-se das suas algemas e grilhões, pondo a sua confiança em nada [mundano], até ao dia que ele encontra o seu Criador. Ele sabe bem que é responsável por tudo o que ouve, vê,, diz, e por tudo o que ele faz com o seu corpo.[5]

         Malik Ibn Dinar disse, “Que Allah conceda misericórdia a um servo que diz para o seu ego ‘Não és este e este? Não fizeste isto e isto?’, e depois repreende-o e fá-lo colocar no seu lugar, e disciplina-o e restringe-o de acordo com o Livro de Allah, Poderoso e Glorioso, e torna-se o seu guia e mestre.”

         É, sem dúvida, responsabilidade de quem acredita em Allah e no Dia do Juízo, e de quem deseja manter os seus assuntos em ordem, certificar-se de responsabilizar o seu ego. Ele deve controlar o que este faz e o que não faz, mesmo as actividades mais insignificantes, pois cada exalação durante a sua vida é preciosa. Pode ser usada para adquirir um dos tesouros que garantem um estado de felicidade eterno. Quem a desperdiça, ou a usa para adquirir coisas que podem causar destruição, sofrerá grandes perdas, que só acontecem pela permissão das pessoas mais ignorantes, insensatas e imprudentes. A verdadeira dimensão de tais perdas só será aparente no Dia do Juízo. Allah, O Exaltado, diz:

“Um dia, cada alma encontrará presente o que fez de bem e o que fez de mal; ela almejará que haja longínquo termo entre ela e ele (o mal).”[3:30]

         Há duas formas de responsabilizar o ego: uma antes da acção, e outra depois da acção.

         A primeira forma é a decisão que é feita quando um crente hesita antes de agir. Este é o momento de avaliação antes da intenção ser formada. Ele não procede até estar certo de que é uma acção boa e genuína. Se não o é, então ele abandona-a.

         Al-Hasan, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: “Que Allah conceda misericórdia a um servo que hesita no ponto de avaliação e, quando vê que a acção é por Allah, realiza-a, mas, quando vê que é para outro senão Allah, então ele evita completá-la.” [6]

         Isto foi explicado como significando que quando o ego parte para fazer uma coisa ou outra, o servo começa a considerar o valor disso, ele primeiro pára e pensa para ele próprio “É permitido fazer isto?”. Se a resposta é não, ele não realizaráa acção. Se a resposta é sim, ele novamente pára e pergunta “É melhor para mim fazê-lo ou não fazê-lo?”. Se a resposta é não, ele abandonará a acção e não tentará realizá-la, mas se a resposta é sim, ele então pausará pela terceira vez e perguntará a si mesmo “Esta acção é motivada pelo desejo de procurar o agrado de Allah e recompensa, ou é para adquirir poder, admiração e dinheiro?”.

         Se é a última opção que solicitou a ideia da acção, então ele não a realizará, mesmo que ela resultasse em adquirir esses ganhos mundanos que solicitaram a ideia da acção em primeiro lugar – pois, pelo contrário, isto resultaria no seu ego a acostumar-se a associar outros com Allah, e faria agir por causa de algo ou alguém para além de Allah mais fácil para ele, e quanto mais fácil é fazer algo para outro senão Ele, mais difícil se torna fazer algo intencionado para o Seu agrado.

         Se é a primeira opção que solicitou a ideia da acção, ele pára mais uma vez e pergunta a si mesmo “Terei ajuda ao fazer isto? Tenho companheiros que me possam ajudar e auxiliar se precisar de ajuda ao realizar esta acção?”. Se ele vir que não tem aliados para o ajudar, ele adiaria fazer esta acção, tal como o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) adiou a jihad contra o povo de Makkah até que tivesse aliados e forças suficientes que garantissem sucesso.

         Se ele vir que há ajuda confiável para realizar a acção proposta, então, finalmente, ele deverá começá-la, e ele terá sucesso, pela permissão de Allah. O fracasso só poderá ocorrer se uma destas salvaguardas estiver em falta, pois quando elas são todas combinadas, elas garantem o sucesso. Estes são os quatro passos que um servo precisa de dar ao responsabilizar o seu ego antes de fazer qualquer coisa.

         A segunda forma é a de responsabilizar o ego depois de uma acção. Há três categorias disto:

         Primeiro, responsabilizar o ego por um acto de obediência no qual o que é devido a Allah não foi cumprido completamente ou feito da melhor maneira possível. Há seis coisas que são devidas a Allah em actos de obediência: sinceridade ao fazê-los, dedicá-los só a Allah, seguir o exemplo do Profeta ?, ter atenção em fazê-los bem, reconhecer as bênçãos de Allah neles e, depois disto tudo, estar consciente das suas próprias falhas ao fazê-los. Uma pessoa pode responsabilizar o seu ego, mas será que ela deu a devida atenção e esforço a estes pré-requisitos? Ela cumpriu-os no seu acto de obediência?

         Segundo, responsabilizar o ego por qualquer acção que seria melhor ter sido deixada do que realizada.

         Terceiro, responsabilizar o ego quanto àintenção ao realizar uma acção permitida. Foi esta realizada para o agrado de Allah, Exaltado seja, e sucesso na akhira, garantindo o sucesso – ou foi, na verdade, para procurar os ganhos passageiros desta vida, perdendo assim o que poderia, ao contrário, ser ganho?

         A última coisa que uma pessoa deve fazer é não ter atenção e ser negligente ao responsabilizar o seu ego, começando sem qualquer preparação, e tratando dos assuntos levemente, atrapalhando tudo. Isto só traráa sua ruína. Este é o destino das pessoas que são arrogantes. Tal pessoa fecha os olhos às consequências ao agir desta maneira e depende do perdão de Allah. Ela negligencia a responsabilização do seu ego e não contempla o resultado do seu comportamento. Se ele faz este tipo de coisas, ele comete más acções até se acostumar a elas, e então torna-se difícil retirar-se delas.

         Concluindo, o crente deve primeiro responsabilizar o seu ego quanto aos seus actos obrigatórios de adoração. Se ele estiver em falta nestes, então ele deve apressar-se a retificar a sua situação, seja compensar pela adoração que negligenciou, ou corrigir o que ele pode ter feito de forma errada na sua adoração.

         A seguir, ele deve responsabilizar o seu ego quanto a actos proibidos. Se ele vir que fez algum, ele deve arrepender-se rapidamente, procurar pelo perdão de Allah, e fazer boas acções para erradicar as más acções que foram gravadas no seu livro (de acções).

         De seguida, ele deve responsabilizar o seu ego quanto aos assuntos que negligenciou. Se ele vir que foi negligente ao fazer aquilo para o qual ele foi criado, ele deve apressar-se à lembrança de Allah e aproximar-se d’Ele com um coração aberto.

         Depois, ele deve responsabilizar o seu ego pelas palavras que falou, pelos passos que os seus pés deram, pelas coisas que as suas mãos agarraram, e pelo que os seus ouvidos ouviram (voluntariamente). Ele deve perguntar-se “Eu queria isto para quê? Eu fiz isto porquê? Eu fiz isto por quem? Porque fiz isto desta maneira?”.

         Ele deve saber que cada acção e cada palavra são registadas em dois livros; um deles tem o título “Fiz isto por quem?”, e o outro tem o título “Quão bem fiz isto?”. A primeira pergunta ér elacionada à sinceridade, e a segunda é relacionada à própria acção. Allah, Exaltado seja, disse:

“Para que Ele interrogasse os verídicos acerca de sua verdade.”[33:8]

         Se os verídicos serão questionados sobre a sua verdade, e serão julgados de acordo com quão verídicos foram, o que se pode imaginar no caso das pessoas da falsidade?

 Os méritos de Responsabilizar o Ego

         Isto envolve:

         Primeiro, identificar as falhas do ego. Aquele que não reconhece as suas falhas não poderá livrar-se delas. Yunus Ibn Ubaid disse: “Eu conheço cerca de cem atributos da bondade e, no entanto, não encontro nem um deles no meu ego.”

         Muhammad Ibn Wasi disse: “Se as más acções produzissem flatulência, ninguém conseguiria sentar-se na minha companhia.”

         O Imam Ahmad escreveu que Abu’d-Darda’disse: “Nenhum homem ganha entendimento e conhecimento completo, a não ser que deteste todas as pessoas que não são próximas a Allah, e volte a sua atenção ao seu ego e o deteste ainda mais.”

      Segundo, saber quais os direitos de Allah. Isto é importante porque faz com o que o servo deteste o seu ego e liberta-o de arrogância e de se auto-satisfazer com as suas acções. Isto abre as portas da submissão e humildade para ele, e resulta na purificação da sua alma pelas Mãos do seu Senhor. Ele desespera pelo seu ego e acredita firmemente que a sua sobrevivência não será alcançada sem o perdão, generosidade e misericórdia de Allah. É direito d’Ele ser constantemente obedecido, lembrado e agradecido.


 [1] Muslim, Kitab Al-Iman, 2/153; relatado pela autoridade de Abu Hurairah, que disse: “Alguns dos companheiros do Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) vieram até ele e disseram: ‘Encontrámos algo nos nossos corações pelo qual estamos orgulhosos de falar sobre’. Ele perguntou: ‘Encontraram mesmo?’. Eles disseram: “Sim.”Depois ele disse: “Essa é a verdadeira fé.”

 [2] Hadith sahih, Abu Dawud, Kitab an-Nikah, 6/153; Ibn Ma’jah, Kitab an-Nikah, 1/609.

  [3]Da’if, at-Tirmidhi, Kitab Sifat Al-Qiyyamah, 7/155; Al-Hakim, Al-Mustadrak, Kitab Al-Iman, 1/57.

 [4]Ahmad, Kitab az-Zuhud, 7/156; Al-Baghawi, Sharh as-Sunnah, 14/309; Abu Na’im, Al-Hilya, 1152.

 [5] Veja Ibn Kathir, Al-Bidaya wa’n-Nihaya, 9/272; Abu Na’im, Al-Hilya, 2/157.

 [6]Este relato é apoiado por um hadith sahih transmitido por Muslim, Kitab Al-Iman, 2/18, pela autoridade de Abu Hurairah, que disse que o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele)  disse: “Quem acredita em Allah e no Último Dia, deve falar o bem ou permanecer calado; e quem acredita em Allah e no Último Dia, deve ser generoso para com o seu vizinho; e quem acredita em Allah e no Último Dia deve ser generoso para com o seu convidado.”

Fonte: Livro A Purificação da Alma – Capítulo 12- por  Ahmad Farid

 

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