Haya’: Mais do que Apenas Modéstia

Haya’: Mais do que Apenas Modéstia

Por Shaikh Mohammad Elshinawy

Em nome de Allah, o Misericordioso, o Misericordiador

Todos os louvores são para Allah, e que Sua melhor paz e bênçãos estejam com Seu profeta final, Muhammad que disse: “Eu não fui enviado, exceto para um caráter nobre perfeito.”[i] Cultivar bom caráter e excelência moral – para com Allah e Sua criação – é, portanto, o objetivo principal do Islam. Mas, para desenvolver isso efetivamente nas pessoas, o Islam centralizou certas qualidades morais que servem a um papel fundamental sobre o qual todas as outras virtudes podem ser construídas. Hayaʾ (vergonha saudável) está sem dúvida entre essas qualidades, tanto que o Profeta ﷺ considerou-a a própria marca do Islam ao dizer: “Cada religião tem seu traço de caráter característico, e o traço de caráter característico do Islam é hayaʾ”[ii]


Esta série de artigos resumirá principalmente um estudo publicado[iii] pelo Dr. Muhammad Ismail al-Muqaddim (um estudioso islâmico e psiquiatra clínico) sobre hayaʾ, seu valor e os domínios em que opera em nossas vidas.

O que é hayaʾ?

Hayaʾ carrega os significados de consciência, vergonha, modéstia, timidez e todos os sentimentos relacionados que impedem uma pessoa de se comportar indecentemente. É derivado de hayah (vida), porque os árabes consideravam o “estar vivo” das pessoas diretamente proporcional à suas experiências de hayaʾ. Para eles, uma pessoa desprovida de hayaʾ – aquilo que impede a violação de seu código moral – é menos semelhante a um ser humano e mais parecido com uma fera, cujos apetites mais baixos a levam a um comportamento sem princípios. É por isso que, na Arábia pré-islâmica, a poesia frequentemente elogiava hayaʾ e valor conjuntamente; esperava-se que um guerreiro tivesse uma morte digna, em lugar da desonra de fugir do campo de batalha para sobreviver. A falta de vergonha era uma tragédia maior para eles do que a perda de vidas. Eles também sustentaram que aqueles sem hayaʾ não estão verdadeiramente vivos à luz de sua consciência entorpecida; parecem apartados das dores da culpa, e não sentir a dor é uma característica óbvia do falecido.

A palavra vergonha evoca imediatamente uma variedade de conotações negativas; isso não é acidental. A proliferação do individualismo na era moderna despojou conceitos como vergonha de quase todas as suas conotações positivas. No entanto, os psicólogos continuam a enfatizar a potência e a indispensabilidade da vergonha saudável, em oposição à sua parte tóxica, que pode ser paralisante e destrutiva para o nosso bem-estar. Eles ilustram como a vergonha pode servir como um alarme interno que nos ajuda a sentir responsáveis ​​por nossos erros enquanto ainda há uma oportunidade para corrigi-los. Chama nossa atenção antes de avançarmos para situações irreparáveis. De acordo com o psicoterapeuta Dr. John Amodeo, as pessoas com uma repressão doentia da vergonha são mais propensas a sofrer transtornos de personalidade e relacionamentos mal sucedidos, uma vez que geralmente projetam a culpa nos outros e aceitam pouco para si mesmas. A crueldade dos sociopatas e a manipulação dos mentirosos patológicos são ambas baseadas em sua falta de vergonha. Eles não são “incomodados” por qualquer culpa associada ao seu comportamento.

Todos esses aspectos positivos da vergonha saudável foram captados pelos primeiros estudiosos do Islam. Ibn al-Qayyim, por exemplo, escreve:

Hayaʾ possui as qualidades mais superiores, o maior estatuto e os maiores benefícios. Na verdade, é a quintessência da humanidade, pois quem não carrega nenhum hayaʾ não compartilha da humanidade a não ser carne, sangue e aparência externa. Da mesma forma, não há potencial para o bem em uma pessoa [sem isto]. Se não fosse por essa qualidade, a pessoa nunca seria hospitaleira com um hóspede, cumpriria uma promessa, manteria a confiança, cuidaria das necessidades alheias, preferiria o que é agradável, evitaria o obsceno, cobriria suas partes íntimas ou se absteria da fornicação. Se não fosse pela hayaʾ, muitas pessoas não cumpririam nenhuma de suas obrigações, nem reconheceriam os direitos de nenhum ser, nem manteriam os laços de parentesco, nem mesmo demonstrariam bondade para com os pais. O elemento propulsor desses atos é tanto religioso, ou seja, esperar seu bom resultado [no acerto de contas], quanto mundano, que é a hayaʾ de seu executor a partir dos [olhos da] criação. Portanto, se não fosse pela hayaʾ do Criador ou da criação, as pessoas não se envolveriam nesses atos.

Deixando de lado a peculiaridade de nossa época, o potencial positivo da vergonha é algo universalmente apreciado na maioria das civilizações. Este artigo, no entanto, tem a intenção de explorar a hayaʾ na ética islâmica em particular, para revisitar seu estatuto elevado nos textos sagrados do Islam e identificar suas manifestações tão dignas de nota no cotidiano.

Hayaʾ instintiva

De acordo com o Alcorão, uma vez que Adam e Hawa comeram da árvore proibida, eles correram para cobrir seus corpos com folhas, pois; repentinamente, ficaram cientes e envergonhados de sua nudez pela primeira vez.[iv] Alguém pode chamar isso de nascimento da hayaʾ instintiva, ou a faculdade inata da descendência de Adam em se sentir desconfortável com sua nudez,[v] e tudo o mais que se considere vergonhoso ou impróprio. O Islam então incentivou as pessoas a aprimorar esta hayaʾ através da fé, por meio da qual nutrem sua espiritualidade para se tornarem mais familiarizadas com Allah, mais cientes de Sua proximidade, mais observadoras de Suas bênçãos e mais vigilantes sobre Sua ira. Mas, em essência, hayaʾ é uma qualidade inata.

Al-Munawi diz: “Hayaʾ consiste em dois tipos. Existe o tipo natural que é criado dentro de cada alma, como aquele que é desencadeado por uma parte privada que se revela ou através de relações sexuais em público. Depois, há a baseada na fé, que é o que impede um muçulmano de cometer o que é proibido por medo de Allah.” Dhu al-Nun al-Miṣri (falecido em 859) define o último como “encontrar uma intimidação e tristeza no coração devido aos atos que você praticou diante de seu Senhor.” Portanto, nutrir a hayaʾ tem funções preventivas e redentoras em relação à retidão, pois a hayaʾ em sua essência existe na fiṭrah – como a base da natureza de cada ser humano, independentemente da religião.

Mas assim como esta hayaʾ baseada na fé elevada pode crescer e se tornar tão natural quanto a hayaʾ inata, as pessoas também podem se tornar não condicionadas pela sociedade a enxergar todas as particularidades da hayaʾ estranhas e opressivas. Por esta razão, o Islam não veio com um sistema que presumia que a hayaʾ original permanecesse intacta; ao contrário, o islam reconhece que a hayaʾ pode ser reintegrada e/ou reabilitada quando tiver sido comprometida.

Os dez tons de hayaʾ

Em Madarij al-Salikin, Ibn al-Qayyim subdividiu a hayaʾ em dez categorias:

  1. Hayaʾ da culpa; é como a hayaʾ de Adam quando fugiu, no Paraíso, após cometer um pecado. É relatado que Allah disse a ele: “Tu estás fugindo de mim, ó Adam?” Ele disse: “Não, meu Senhor! Ao contrário, é pela hayaʾ de Ti. ”
  2. Hayaʾ da inaptidão; isso é como a hayaʾ dos anjos que incansavelmente glorificam a Allah noite e dia. Então, quando o Dia da Ressurreição vier, eles dirão: “Glorificado és! Nós não Te adoramos como Tu mereces ser adorado.”
  3. Hayaʾ do temor; este é a hayaʾ de estar profundamente familiarizado com a grandeza de Allah. Esta hayaʾ se intensifica na proporção do conhecimento do servo sobre seu Senhor.
  4. Hayaʾ da generosidade; como a hayaʾ do Profeta ﷺ com aqueles que ele convidou para o jantar de casamento de Zainab. Eles se delongaram demais nas boas-vindas, mas o Profeta era muito tímido para dize-los, então simplesmente se levantou e foi embora.
  5. Hayaʾ da castidade; isso é como o hayaʾ de ʿAli bin Abi Talib, que Allah esteja satisfeito com ele, que o impediu de perguntar ao Mensageiro de Allah sobre a limpeza do fluido pré seminal, visto que ele era casado com sua filha.
  6. Hayaʾ da humildade; isso é como a hayaʾ do servo para com seu Senhor, o Poderoso e Majestoso, quando ele Lhe pede o que necessita. Isso pode resultar numa auto depreciação e percepção da enormidade de seus pecados, ou da compreensão da grandeza d’Aquele que está sendo solicitado.
  7. Hayaʾ do amor; esta é a hayaʾ do amante para com sua amada. É tão poderosa que sempre que sua amada, que está ausente, vem à mente, uma inexplicável hayaʾ pode brilhar em seu coração e aquecer seu rosto. A maioria das pessoas não percebe porque tremem e ficam tímidas ao ver o ser amada. Isso é causado pelo coração que sente a autoridade do ser amado sobre ele e, portanto, essa emoção e a inquietação o dominam.
  8. Hayaʾ da servidão; esta hayaʾ é necessária por uma mistura de amor, medo e reconhecimento de que uma pessoa deve servir a Allah, mas nunca pode fazê-lo adequadamente devido à Sua incompreensível grandeza.
  9. Hayaʾ da dignidade; esta é a hayaʾ de uma alma nobre quando sente que agiu em relação aos outros de uma forma que está abaixo de seus padrões de dignidade, seja em sacrifício, generosidade ou bondade.
  10. Hayaʾ de si mesmo; esta é a hayaʾ de uma alma nobre quando detecta sua própria deficiência, ou quando se contentou com menos. É quase como se uma pessoa tivesse duas almas, uma com vergonha da outra. Esta é a hayaʾ mais completa, pois se as pessoas tivessem vergonha de si mesmas, então, por uma virtude maior, elas se sentiriam envergonhadas na frente dos outros.

Notas:

[i] Aḥmad b. Ḥanbal, Musnad al-Imām Aḥmad (Beirute: Muʾassasat al-Risālah, 2001), n° 8952; autenticado por al-Albānī.

[ii] Muḥammad b. Yazīd al-Qazwīni Ibn Mājah, Sunan Ibn Mājah (Cairo: Dār Iḥyāʾ al-Kutub al-ʿArabīyah, 2011), n° 4181; autenticado por al-Albānī.

[iii] Muhammad Ismail al-Muqaddim, Fiqh al-Hayaʾ: Compreendendo o Conceito Islâmico de Modéstia (IIPH, 2015). Suas referências estão no próprio livro; apenas as citações do Alcorão e dos hadith estão nas notas de rodapé neste documento.

[iv] “Então, dela ambos comeram, e as partes pudendas mostraram-se-lhes, e começaram a aglutinar, sobre elas, folhas do Paraíso. E Adão desobedeceu a seu Senhor, e transviou-se” (Surah ta-há, 20:121)

[v] “O filhos de Adao! Que Sata nao vos tente, como quando fez sair a vossos pais do Paraiso, enquanto a ambos tirou a vestimenta, para fazê-los ver suas partes pudendas” (surah al Araf, 7:27)


Parte 2:
Hayaʾ no Islam

O Islam nos chama a reavivar nossa bússola interna e proteger nosso senso de respeito próprio, acentuando nossa hayaʾ e amplificando-a com taqwah (temor consciente por Allah). Valida o medo de nos sentirmos inadequados como um incentivo que pode nos iniciar na jornada para a piedade. A partir daí, a adoração e o amor a Allah são cultivados para imunizar uma pessoa de tudo que possa prejudicar sua posição ante Ele. Hayaʾ, portanto, constitui a primeira camada de proteção moral, aquela que nos veste contra os elementos de indecência ao nosso redor. Taqwah é a segunda camada, uma atualização conquistada pela haya’, que a reforça ainda mais para o crente. Com relação às palavras de Allah, “A vestimenta da taqwah – essa é a melhor”, Sufian bin ʿUyainah disse: “Hayaʾ é a forma mais elementar de taqwah, e o servo não teme [Allah] até que primeiro experimente a vergonha. De que outra forma o piedoso alcançou a piedade, exceto por meio da hayaʾ?”

O Alcorão tem em alta estima a hayaʾ e aqueles que a possuem. Por exemplo, Allah mostra para nós no Alcorão como Mussa ajudou as mulheres desfavorecidas no poço de Madian, e então imediatamente “foi para a sombra” (al-Qaṣaṣ 28:24) sem se socializar com elas ou solicitar pagamento por seu serviço. Tais comportamentos foram evitados por sua hayaʾ, pois o primeiro é contrário ao decoro e o segundo ao cavalheirismo.

Alguns versículos depois, Allah diz: “Em seguida, uma das duas mulheres chegou-lhe andando com recato. Disse: “Por certo, meu pai te convoca, para recompensar-te com o prêmio de haveres abeberado os rebanhos, por nós.” (Al-Qaṣaṣ 28:25)

Muitos estudiosos de tafsir explicam que este versículo foi claramente estruturado para celebrar a multifacetada hayaʾ dessa mulher. Para explicar, com base na escolha de um recitador em onde se deve fazer uma pausa neste versículo e de onde retomar, o termo hayaʾ poderia descrever seu caminhar (andar com hayaʾ) ou sua voz (com hayaʾ, ela disse). Além disso, fez questão de deixar claro que não o estava convidando ela mesma, mas apenas como uma enviada de seu pai, cuja velhice o impedia de fazer o convite pessoalmente.

A hayaʾ é tão valorizada na Sunnah que exceções foram feitas em algumas de suas leis mais firmes por consideração a isto. A oficialização do casamento, por exemplo, é tratada com bastante sensibilidade no Islam. Por não haver espaço para ambiguidade em tal acordo, os juristas concordam que apenas uma declaração verbal imediata e explícita de aprovação mútua é aceitável para que um casamento válido entre em vigor. No entanto, uma concessão foi feita às mulheres cuja hayaʾ as constrange, impedindo-as de expressarem o interesse em um homem. Aisha, narra que quando o Mensageiro de Allah instruiu as famílias a consultar as mulheres antes de casá-las, ela o disse: “Ela (a virgem) é muito tímida para falar.” Ele respondeu: “Então, o consentimento dela é o seu silêncio.[i] Em outro lugar, a Sunnah do Profeta autorizou a hayaʾ como um medidor legítimo pelo qual um crente com um coração saudável pode discernir entre o vício e a virtude. Ele ﷺ disse a al-Nuwas bin Saman, que Allah esteja satisfeito com ele: “A justiça é a boa maneira, e o pecado é o que confunde o teu peito e o que tu odiarias que as pessoas descobrissem.[ii]

Os juristas muçulmanos também dedicaram capítulos inteiros a regulamentações legais destinadas a garantir que as pessoas não sejam aproveitadas por causa de sua hayaʾ. Eles cunharam máximas como “Tudo o que é conquistado pela espada da hayaʾ é ilegal”, o que significava que induzir os outros a renunciar seus direitos é o mesmo que usurpá-los pela força. Imam Aḥmad, que Allah tenha misericórdia dele, aplicou esta regra a um devedor que assediava um credor para reduzir o valor devido, e muitos aplicaram-na também no consumo da comida das pessoas e na permanência em suas casas. Se uma pessoa tem consciência que algo lhe foi oferecido por causa da timidez ou constrangimento de alguém que seria incapaz de fazer o contrário, seria proibido aceitar o item, e a pessoa seria obrigada a devolver ou reembolsar o valor daquilo, caso já o tivesse consumido. Esta não foi apenas uma salvaguarda racionalmente deduzida para proteger o escopo da hayaʾ, mas sim, tirada diretamente das palavras do Profeta ﷺ: “A propriedade de um muçulmano é ilegal [para consumo] a menos que, de coração aberto, o dono permita.”[iii]

ʿAbd Allah bin ʿUmar, que Allah esteja satisfeito com ele, narra que o Profeta ﷺ disse: “Hayaʾ e iman (fé) foram emparelhadas, se uma é removida, a outra também é removida.”[iv] Um hadith como este – eles são inúmeros – significa que hayaʾ é inseparável do Islam , e um motivador fundamental por trás do compromisso de viver a fé. Isso não quer dizer que a hayaʾ inata, que até mesmo os não-muçulmanos têm, faz da pessoa uma crente qualificada para a salvação. Isso também é o que ʿUmar bin ʿAbd al-aziz deve ter indicado, quando ouviu as pessoas dizerem: “a hayaʾ faz parte da religião”, e respondeu: “Ao contrário, é a religião inteira”.

Abu Hurairah, que Allah esteja satisfeito com ele, narra que o Profeta ﷺ disse: “A Hayaʾ vem da fé, e a fé está no Paraíso. E a vulgaridade vem da insensibilidade, e a insensibilidade vem do Inferno.”[v] Portanto, os fiéis são aqueles que são cautelosos em usar expressões vulgares (badhaʾah), mesmo quando factualmente corretas, enquanto aqueles com corações insensíveis (jafaʾ) não se abstêm das expressões obscenas. Por esta razão, descobrimos que o Profeta ﷺ também disse: “Hayaʾ e silêncio são dois ramos da fé, e vulgaridade e eloquência são dois ramos da hipocrisia.”[vi] O Profeta ﷺ era o orador mais eloquente e elogiava os outros por serem articulados, então isso deve significar que às vezes é a força da fé que impede a língua de falar insolentemente, e o coração enfermo que permite a alguém proferir mentiras e obscenidades.

Os primeiros muçulmanos compreenderam que sua sobrevivência na Outra Vida exigia manter um coração saudável que crê no invisível e abomina o obsceno.

Al-Fudail bin ‘Iyad disse: “Cinco sinais de condenação são: dureza de coração, secura de olhos, falta de hayaʾ, inclinação para este mundo e indulgência em falsas esperanças”.
Malik bin Dinar disse: “Allah, Glorificado e Exaltado seja, nunca puniu um coração com nada mais severo do que arrancar a hayaʾ dele.”

Hayaʾ é uma qualidade de Allah

A maior virtude da hayaʾ é ser um atributo inerente do próprio Divino. Vários ahaadith estabelecem que Allah é ḥayi, que significa abundante em hayaʾ, ou seja, esta é uma de Suas características sempre presente. Salman, que Allah esteja satisfeito com ele, narra que o Profeta ﷺ disse: “Allah é, de fato, Hayi e Generoso; quando uma pessoa levanta as mãos para Ele [em súplica], Ele é muito tímido para mandá-las de volta vazias e desapontadas.”[vii]

Claro, as qualidades de Allah existem perfeitamente n’Ele, ao contrário de suas características presentes nos seres criados.

Al-Mubarakfuri explica que “atribuir hayaʾ a Allah (o Altíssimo) é entendido de uma forma condizente com Ele, assim como o resto de Seus atributos nos quais devemos acreditar, sem nos aprofundar nos detalhes de como eles se relacionam [com Allah]. ”

Essa é a estrutura definida pelo Alcorão: “Nada é igual a Ele. E Ele é O Oniouvinte, O Onividente.” (al-Shura, 42:11).

Ibn al-Qayim, que Allah tenha misericórdia, diz: “Quanto à hayaʾ do Senhor (o Exaltado) para com Seu servo, estes é um tipo diferente. O entendimento não pode compreendê-lo, nem a inteligência pode abarcá-lo. É uma hayaʾ de nobreza, bondade, generosidade e glória. Ele (o Abençoado e Exaltado) é Hayi e Generoso; muito tímido para devolver as mãos vazias de Seu servo, depois dele tê-las erguido, e muito tímido para punir os idosos cujos cabelos ficaram brancos. ”

Yaʿlá bin Umayyah (que Allah esteja satisfeito com ele) narra que o Mensageiro de Allah disse: “Allah é de fato Hayi e Sittir; Ele ama hayaʾ e sitr. Portanto, quando um de vós se banhar, que se esconda.”[viii] Sittir é um superlativo de sitr (ocultação), o que significa que Allah valoriza a ocultação, odeia que os corpos das pessoas sejam expostos desnecessariamente e ama aqueles que observam a hayaʾ e sitr dos outros. A única exceção feita pelo Profeta ﷺ foi para companheiros legais, talvez devido aos elementos visuais que aumentam sua gratificação física. Na verdade, quando ele ﷺ foi questionado no mesmo contexto, “Que tal um homem sentado nu e sozinho?”, Ele disse: “Allah é mais merecedor [do que qualquer pessoa] que a hayaʾ seja exibida ante Ele.”[ix] Todos graus de nudez, como revelar qualquer parte do corpo ou sua forma, em um contexto proibido pela Shariah – para homens ou mulheres – seriam contrários à hayaʾ e sitr que é tão querido por Allah e também parte de Suas qualidades.

O amor de Allah pela hayaʾ e sitr se estende até mesmo aos nossos pecados. Allah odeia que uma pessoa se exponha e ama velar as pessoas da desgraça pública. Isso pode ser inesperado, especialmente quando Allah não se beneficia de nada com isso, mas Sua nobreza sublime exige que não sejamos humilhados aos olhos dos outros ou punidos imediatamente por Ele. Yahia bin Muʿadh, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: “Exaltado é Aquele cujo servo peca, e ainda assim Ele é Aquele que se torna tímido.” Ele também disse: “Quem tem hayaʾ de Allah quando O obedece, Allah tem hayaʾ dele quando ele peca”. Ibn al-Qayyim explica isso:

“Quem exibe hayaʾ, mesmo durante atos de obediência, em que seu coração é lançado entre as mãos de seu Senhor em vergonha e intimidação… Se tal pessoa cair em pecado, Allah (o Glorificado e Exaltado) olhará para ele neste estado com timidez, devido à sua significância aos olhos de Allah. Ele tem hayaʾ para ver Seu querido servo, que é valioso para Ele, em tal estado deplorável… Na vida cotidiana, vemos isso. Se um homem se deparar com alguém muito querido, amado e próximo a ele – talvez uma criança, companheiro ou outro ente querido – enquanto esta pessoa o está traindo, essa descoberta vem acompanhada de um estranho sentimento de haya, ​​como se ele próprio fosse o criminoso, e este é o auge da nobreza.”

Quanto àqueles que não têm hayaʾ e, portanto, continuam a desobedecer a Allah, Allah não terá hayaʾ para puni-los neste mundo e no próximo. Estas são pessoas para quem os portões da redenção estarão bloqueados, ou totalmente fechados, e elas terão que pagar por seus crimes, apesar da vasta misericórdia de Allah. O Profeta ﷺ disse: “Minha nação inteira está perdoada, exceto aqueles que divulgam [seus pecados]. E uma forma de divulgação é quando uma pessoa comete [um pecado] à noite, então ela diz pela manhã, apesar de Allah ter escondido: ‘Ó fulano de tal, eu fiz isso e aquilo ontem à noite.’ Ela passou a noite sendo preservada por Allah, e então rasgou a cobertura de Allah pela manhã.”[x]

Hayaʾ é a marca registrada dos profetas

Hayaʾ é o legado de todos os profetas. Isto foi protegido por Allah contra a extinção, apesar das muitas distorções e revogações que suas mensagens enfrentaram. Abu Masʿud al-Badri, que Allah esteja satisfeito com ele, narra que o Profeta ﷺ disse, sobre isto: “Certamente, o que as pessoas retiveram das palavras da primeira missão profética é: Se tu não sentes hayaʾ, faça o que quiseres.”[xi] Os profetas de Allah não apenas ensinaram esta virtude de forma consistente ao longo das gerações, mas também foram os que melhor incorporaram isso na criação de Allah.

Em um hadith, o Mensageiro de Allah disse: “Mussa era um homem de intensa hayaʾ. Ele sempre fazia questão de se cobrir e sua timidez não permitia que nada fosse visível de seu corpo. Um grupo de pessoas dos israelitas o assediou, dizendo: ‘tu não te cobres desta maneira, exceto devido a algum defeito [na pele] ou hérnia escrotal.’ Allah desejou limpar seu nome, então, no dia em que ele saiu para tomar banho em privacidade e colocou suas roupas sobre uma pedra, a pedra escapou com suas roupas. Mussa correu atrás dela, gritando, ‘Ó pedra, minhas roupas! Ó pedra, minhas roupas!’ Por fim, ele chegou a um lugar onde os israelitas estavam reunidos, e eles o viram nu, tendo a melhor das formas que Allah havia criado. Eles disseram, ‘Por Allah, não há defeito algum em Mussa’. Ele agarrou suas roupas e começou a bater na pedra. E por Allah, ele deixou seis ou sete marcas na pedra de suas batidas.”[xii]

Em um famoso hadith, aprendemos que a criação buscará desesperadamente alívio contra a angústia do Último Dia, correndo para cada um dos profetas para interceder por ela perante Allah para que o julgamento possa começar. Eles se aproximarão de Adam, então Nuḥ, então Ibrahim, então ‘Issa e cada um desses poderosos mensageiros declinará e se sentirá incapaz para esta tarefa assustadora. Mas com Adam, Nuḥ e Ibrahim em particular, o hadith estabelece que é o sentimento hayaʾ de seu Senhor que os impedirá, “devido a se lembrarem de seus pecados”.[xiii]

Quanto ao nosso Profeta Muhammad ﷺ, Ibn Ḥajar afirma que ele foi dotado por Allah com a mais pura hayaʾ inata, e sua hayaʾ baseada na fé adquirida era de um nível supremo e incomparável. Abu Saʿid al-Khudri disse: “O Mensageiro de Allah era mais tímido do que uma virgem em seu khiḍr; quando ele visse algo de que não gostava, saberíamos pelo seu rosto.”[xiv] O khiḍr é o canto mais recluso de uma casa inacessível a estranhos, onde uma jovem encontraria privacidade sem ser perturbada quando os visitantes chegassem. A virgem protegida – ao contrário das mulheres casadas ou mulheres que casualmente se misturam com o público – tem um senso de hayaʾ ainda maior do que as outras. Portanto, quando o Profeta ﷺ encontrava algo impróprio, sua profunda hayaʾ não lhe permitia esconder sua reação; era mais óbvio em seu rosto do que a reação de uma virgem protegida que foi invadida sem aviso nos aposentos mais privados da casa de seus pais. Às vezes, seu rosto ficava vermelho e, outras vezes, isto o deixava ﷺ incapaz de falar. Como Abu Dahbal al-Jumaḥi, um poeta omíada, disse em um dístico de louvor:

A Hayaʾ manteve suas palavras – poucas, como se estivesse doente,
Embora seu corpo não tivesse sofrido a menor picada.

Durante a extraordinária viagem noturna (al-Miʿraj), o Profeta ﷺ ia e voltava entre seu Senhor e Mussa, cada vez buscando uma redução maior no número de orações diárias devidas por sua nação. Mas depois que ela foi reduzida de cinquenta orações para cinco, e Mussa ainda aconselhou o Profeta Muhammad ﷺ a buscar uma redução adicional, para que o povo não falhasse em sustentá-la, ele ﷺ não conseguiu superar sua hayaʾe disse a Mussa, “Eu pedi ao meu Senhor até que fiquei envergonhado. Então, vou aceitar e submeter.”[xv]

Aisha atesta que a hayaʾ do Profeta ﷺ não apenas transcendeu a vulgaridade, mas também a vingança: “O Profeta nunca foi vulgar, nem lascivo, nem barulhento e indisciplinado nos mercados, nem retribuiria o mal com o mal. Em vez disso, ele perdoava e esquecia.”[xvi]

Hayaʾ entre os companheiros e primeiros muçulmanos

Os Companheiros do Profeta estavam ansiosos para emular seu modelo perfeito ﷺ em todas as suas virtudes, e os seguintes são apenas alguns exemplos dos estados elevados de hayaʾ que eles herdaram e viveram.

Era bem conhecido que Allah distinguiu ʿUthman bin ʿAffan em particular com esta qualidade. O Mensageiro de Allah atestou isso por si mesmo, dizendo: “O mais genuíno da minha nação em hayaʾ é ʿUthman.”[xvii] Foi tão intenso que provocou a haya’ das pessoas e anjos ao seu redor. Em um longo hadith, Aisha narra que ela disse ao Profeta ﷺ: “Abu Bakr entrou, mas tu não te moveste nem te importaste… Então ʿUmar entrou, mas tu não te moveste nem te importaste… Então ʿUthman entrou, então tu te sentaste e arrumaste tuas roupas (cobrindo tuas pernas).” Em resposta, ele disse: “Não deveria eu ter hayaʾ de um homem por quem os anjos têm hayaʾ?”[xviii]

A própria Aisha, que Allah esteja satisfeito com ela, era conhecida por sua incrível hayaʾ, a ponto de se sentir desconfortável em remover seu hijab na presença do falecido. Ela disse: “Eu costumava entrar na sala sem meu véu onde o Mensageiro de Allah e meu pai foram enterrados, e dizia [a mim mesma] que eram apenas meu marido e meu pai. Mas, por Allah, uma vez que ʿUmar foi enterrado [lá], eu nunca entrei sem minhas vestes sobre mim – por hayaʾ de ʿUmar.”[xix]

Asmaʾ bint Abi Bakr, que Allah esteja satisfeito com ela, menciona que durante os primeiros anos de seu casamento com al-Zubair, a pobreza deles a forçou fazer a trabalhos pesados. Um dia, enquanto ela carregava uma carga pesada de tâmaras em sua cabeça (por quase 3 quilômetros) para alimentar o cavalo de seu marido, o Profeta ﷺ a encontrou no caminho com alguns de seus Companheiros. Ele ofereceu a ela uma carona em seu camelo, mas ela se recusou a viajar com um grupo de homens sem relação de parentesco. Ao chegar a al-Zubair, ela explicou a ele que o Profeta ﷺ “baixou [seu camelo] para eu cavalgar, mas eu senti hayaʾ e pensei em seu ciúme”. Ele respondeu: “Por Allah, tu carregando as tâmaras é certamente mais difícil para mim do que cavalgando com ele.”[xx]

Faṭimah, que Allah esteja satisfeito com ela, a filha do Mensageiro de Allah ﷺ, uma vez reclamou que ficou horrorizada com as mortalhas justas que envolvem uma mulher falecida, revelando a forma de seu corpo. Umm Jaʿfar, que Allah esteja satisfeito com ela, disse: “Ó filha do Mensageiro de Allah, devo mostrar-lhe algo que vi na Abissínia?” Ela pediu fibras de palmeira úmidas, dobrou-as e jogou uma peça de roupa sobre elas. Faṭimah disse: “Como isso é maravilhoso e excelente!… Se eu morrer, tu e ‘Ali me lavam e não permitem que ninguém entre [antes de me vestir com isso].” Seu desejo foi realizado em seu funeral, e sua hayaʾ vive para guiar as mulheres crentes até o fim dos tempos.

As biografias de nossos predecessores justos, as primeiras gerações de muçulmanos, também estão repletas de exemplares hayaʾ para com Allah e com o povo:

Abu Hudhail, que Allah esteja satisfeito com ele, ​​disse: “Encontramos pessoas que gostariam de ter hayaʾ de Allah, mesmo na escuridão da noite”. Al-Thawri disse: “Com isso, ele quis dizer sentir vergonha de que seus corpos possam ficar descobertos [durante o sono].”

Muḥammad bin Sirin disse: “Eu nunca tive relações com uma mulher, nem quando acordado ou dormindo, exceto [minha esposa] Umm ʿAbd Allah. Eu até veria uma mulher em meu sonho, então percebendo que ela não é permitida para mim, eu desviaria meu olhar. ” Alguns disseram: “Eu gostaria de ser tão inteligente acordado quanto Ibn Sirin é dormindo”.

Muʿawiyah bin Aws, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: “Eu vi Hisham bin ʿAmmar. Quando ele caminhava, seu olhar estava baixo, em direção ao chão, e ele nunca levantava sua cabeça para o céu, por hayaʾ de Allah, o Poderoso e Majestoso. ”

Al-Ḥussein bin Muḥammad bin Khusru disse: “Abu Bakr bin Maimun uma vez bateu na porta de al-Ḥumaidi. Ele presumiu que a permissão havia sido concedida, então ele entrou e o encontrou com a coxa descoberta. Isso fez com que al-Ḥumaidi chorasse e dissesse: ‘Por Allah, tu olhaste para um lugar que ninguém jamais viu desde que eu atingi a maturidade.’”

Mihran bin ‘Amr al-Asdi narra que testemunhou al-Fudail bin ‘Iyad em pé no local sagrado na véspera de ʿArafah, chorando tão apaixonadamente que não conseguia nem suplicar, e estava dizendo: “Ó, que vergonha! Ó minha humilhação! Mesmo se Tu me perdoes! “

Muḥammad bin Abi Ḥatim narra que Muḥammad bin Salam dizia a seus colegas, depois que Imam al-Bukhari deixava a reunião: “Vós já vistes uma garota virgem que tem mais hayaʾ do que este homem?”

Notas:
[i] Muḥammad b. Ismā’īl al-Bukhari, al-Jāmi ‘al-Musnad al-Sahih (Beirute: Dār Ṭawq al-Najāh, 2001), n° 6971; Muslim b. Ḥajjāj al-Naysābūri, al-Musnad al-Sahih (Beirute: Dār Ihyā ’at-Turāth al-‘Arabi), n° 1420.

[ii] Sahih Muslim, n° 2553.

[iii] ʿAlī bin ʿUmar al-Dāraquṭnī, Sunan al-Dāraquṭnī (Beirute: Muʾassasat al-Risālah, 2004), nos. 2885 e 2886; autenticado por al-Albānī.

[iv] Muḥammad bin ʿAbd Allah al-Ḥākim, al-Mustadrak ‘alá al-sahihayn (Beirute: Dār al-Kutub al-ʿIlmīyah, 1990), n° 58; autenticado por al-Ḥākim de acordo com os critérios de al-Bukhari e Muslim, e al-DhahAbi concordou.

[v] Muḥammad bin ʿĪsá al-Tirmidhi, Sunan al-Tirmidhi (Egito: Maṭbaʿat Musṭafá al-ḤalAbi, 1975), n° 2009; classificado como ḥasan-sahih por al-Tirmidhi e autenticado por al-Albānī.

[vi] Sunan al-Tirmidhi, n° 2027; autenticado por al-Albani.

[vii] Sunan al-Tirmidhi, n° 3556; autenticado por al-Albani.

[viii] Aḥmad bin Shuʿayb al-Nasaʾi, Sunan al-Nasaʾi (Aleppo: Maktabat al-Maṭbu’at al-Islamiyyah, 1986), n° 406; autenticado por al-Albani.

[ix] Sunan al-Tirmidhi, n° 2769; classificado como ḥasan (aceitável) por al-Albani.

[x] Sahih al-Bukhari, n° 5721, Sahih Muslim, n° 2990.

[xi] Sahih al-Bukhari, n° 3483.

[xii] Sahih al-Bukhari, n° 278; Sahih Muslim, n° 339.

[xiii] Sahih al-Bukhari, n° 4712; Sahih Muslim, n°. 194.

[xiv] Sahih al-Bukhari, n° 6102.

[xv] Sahih al-Bukhari, n° 7517; Sahih Muslim, n° 162.

[xvi] Sunan al-Tirmidhi, n° 2016; autenticado por al-Ḥakim de acordo com os critérios de al-Bukhari e Muslim, e ambos al-Dhahabi e al-Albani concordaram.

[xvii] Sunan al-Tirmidhi, n° 3790; Sunan Ibn Majah, n° 154; autenticado por al-Albani.

[xviii] Sahih Muslim, n° 2401.

[xix] Musnad Aḥmad, n° 25660; autenticado por al-Ḥakim, al-Haythami e al-Albani.

[xx] Sahih al-Bukhari, n° 5224; Sahih Muslim, n° 2182.


Parte 3:

Onde a hayaʾ não pertence

Uma vez que o Profeta ﷺ disse que “Hayaʾ traz nada além do bem”[i], estudiosos muçulmanos fizeram questão de identificar que a hayaʾ é qualificada por seus frutos e condenável quando resulta na violação das leis de Allah ou usurpação dos direitos das pessoas. Como al-Aḥnaf bin Qais, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: “Na verdade, hayaʾ tem um limite designado; o que quer que exceda isso pode ser chamado do que quiseres.” Por exemplo, uma pessoa pode se recusar a falar quando islamicamente necessário, por timidez, e outra pode se recusar a falar sem conhecimento, também por timidez. À primeira vista, ambos parecem estar operando à luz da hayaʾ, porém o Islam categoriza o primeiro comportamento como fraqueza e incompetência, e o segundo como dignidade e piedade. Sobre esta nuance, al-Qurṭubi escreve,

O escolhido [(Profeta Muhammad)] certamente estava comprometido com a própria hayaʾ, e instruiria e encorajaria os outros com isto. No entanto, sua hayaʾ nunca o impediria de falar a verdade, nem de cumprir qualquer injunção religiosa. Isso foi feito em adesão às Suas palavras (o Altíssimo), “… e Allah não se envergonha com a verdade.” (33:53) Esse é o epítome da hayaʾ e sua forma mais perfeita, bela e equilibrada.
Quanto a alguém que está oprimido pela hayaʾ de tal forma que o afasta da verdade, então tal indivíduo abandonou a timidez diante do Criador para ser tímido ante a criação. Quem é assim perde os benefícios da hayaʾ e torna-se caracterizado pela hipocrisia e exibicionismo.

A tradição islâmica está repleta de declarações de advertência contra os dois inimigos do conhecimento sagrado: arrogância e constrangimento. Estas são as duas inseguranças que podem ser mal interpretadas como hayaʾ, ou mesmo chamadas de hayaʾ no sentido linguístico. Na verdade, porém, elas são contrárias a essa virtude por causa das coisas que atrapalham ou impedem, e nunca são uma desculpa válida para abortar a busca do aprendizado pela satisfação de Allah. É fascinante notar que o Profeta ﷺ conheceu e sentiu a hayaʾ que incentivou nos Companheiros, e como ele, às vezes, introduzia suas instruções mais explícitas com palavras que mitigavam sua aspereza. Em um hadith, “Eu sou para vós não mais do que um pai, ensinando-vos. Ao vos aliviar (fazer as necessidades fisiológicas), não olhai para a direção da oração (quiblah), nem virai as costas para ela… ”[ii] Esta é uma metodologia do Alcorão; ele geralmente emprega linguagem implícita para evitar ofender a hayaʾ de seus leitores, mas não é limitado apenas por este princípio, já que, às vezes, a natureza da lei necessita de uma linguagem que deixa as pessoas inquietas, a fim de afirmar noções específicas que de outra forma seriam perdidas na ambiguidade .

Encontramos este método sábio seguido pelos principais estudiosos dentre os Companheiros também. Aisha, que Allah esteja satisfeito com ela, por exemplo, uma vez foi abordada por Abu Mussa al-Ashʿari, que disse: “Ó Mãe dos Crentes, desejo perguntar-te sobre uma coisa, mas tenho vergonha de ti”. Ela disse: “Não tenhas vergonha de me perguntar algo que tu perguntarias à tua própria mãe que te deu à luz, pois eu sou apenas tua mãe.” Ele disse: “O que torna um banho ritual obrigatório?” Ela disse: “Tu encontraste a pessoa mais conhecedora [a respeito disso]. O Mensageiro de Allah disse: ‘Se ele se sentar entre os quatro membros dela e os dois pontos de circuncisão se encontrarem, então um banho ritual se tornou obrigatório.”[iii] Ela certamente não estava se gabando por se rotular como especialista, mas sim elogiando-o por não deixar de perguntar a uma esposa do Profeta sobre um assunto privado por causa da hayaʾ, especialmente quando a validade de suas orações dependia disso. Em outro contexto, Aisha disse: “Tão excelentes são as mulheres Anṣari; sua hayaʾ não as impede de obter o conhecimento da religião.”[iv] Também é relatado que ʿAli bin Abi Talib disse: “Quem não tem conhecimento nunca deve ser impedido de perguntar por causa da hayaʾ até que saiba, e quem é questionado sobre algo que não sabe nunca deve ser impedido pela hayaʾ de dizer: ‘Eu não sei.’”

Ceder à pressão social é outra falha de comportamento que pode vir disfarçada de hayaʾ, mas na verdade pode ser um ato covarde. É por isso que ser a voz da razão em face do dogma generalizado e a voz da virtude em um ambiente de imoralidade predominante são atos de devoção no Islam. O Alcorão nos mostra como todos os profetas foram reformadores destemidos, que nunca se esquivaram de desafiar o status quo antiético com sabedoria, e assim também foram seus seguidores genuínos. Abu Saʿid al-Khuḍri, que Allah esteja satisfeito com ele, narrou que o Profeta ﷺ disse: “Nenhum de vós deve se humilhar” eles perguntaram: “Ó Mensageiro de Allah, como um de nós se humilha?” ele respondeu: “Ao presenciar um assunto sobre o qual devemos a Allah alguma colocação, e ainda assim a pessoa não se pronuncia. Como resultado, Allah (o Poderoso e Majestoso) dirá à pessoa no Dia da Ressurreição: “O que te impediu de dizer isso e aquilo por Minha causa?” Ela responderá: “Medo das pessoas.” Ele (louvado seja) dirá , “Eu merecia ser temido por ti.”[v] Observe como o Profeta ﷺ deixou implícito que a timidez nesse contexto era vergonhosa e que desafiá-la significaria respeito próprio e evitar a verdadeira humilhação.

Este princípio pode consertar os relacionamentos de muitas pessoas com seu Senhor e entre si. Considere a vítima que encontra coragem para acusar seu estuprador, desafiando a cultura retrógrada de vitimização de sua sociedade para salvar futuras vítimas. Considere o parente que tem a ousadia de insistir que o empréstimo seja documentado conforme a Shariah recomenda, apesar da falta de confiança que isso possa sugerir, com o intuito de preservar os laços familiares a longo prazo. Considere o funcionário que é capaz de trazer um colega para abraçar o Islam rezando corajosamente em público ou recusando-se educadamente a apertar a mão do sexo oposto. Biógrafos mencionam que sempre que Shams al-Din al-Maqdisi ouvia alguém caluniar – independentemente de quão notável fosse – ele o interrompia, com um sorriso, dizendo: “Astaghfirullah (eu busco o perdão de Allah).”

Como cultivar a hayaʾ

Os seguintes “geradores da hayaʾ” são os principais meios para desenterrar a hayaʾ que pode estar enterrada dentro de nós, restaurar seu brilho quando enferruja e aumentar sua força por meio da fé autêntica.

1. Haya’ ​e o amor de Allah. Todas as pessoas procuram se conectar com seu Criador, e anseiam em seu íntimo por garantias de que Ele esteja satisfeito com elas. Isso é o que o Islam veio oferecer à humanidade: uma oportunidade de descobrir Allah e desfrutar da bem-aventurança de ser um reflexo de Sua luz da melhor maneira que um ser criado poderia ser. Ibn al-Qayyim disse: “Quem quer que se alinhe com Allah em um de Seus atributos, isso o leva a Allah com suas rédeas, leva-o ao seu Senhor, para perto de Sua misericórdia e o faz ser amado por Allah. Ele, Exaltado seja, é Misericordioso e ama o misericordioso, é Generoso e ama o generoso, é Onisciente e ama o sábio, é Forte e ama o crente forte mais do que ama o crente fraco, é Ḥayi e ama a hayaʾ, é Belo e ama as pessoas da beleza, e é Witr (singular) e ama as pessoas do witr [oração]. ”

2. Pratique a hayaʾ para experimentá-la. A hayaʾ inata que permanece adormecida em algumas pessoas deve primeiro ser revivida por meio da prática antes que possa ser sentida por nossos sensores psicoespirituais. Agir ao contrário da hayaʾ, junto com a exposição recorrente àqueles que não a possuem, é o que nos dessensibiliza, em primeiro lugar. Portanto, esperar que o sentimento de vergonha saudável volte por conta própria, em vez de nos recondicionarmos a ele, é um pensamento enganoso. Baixar nosso olhar em um mundo saturado de imagens sem vergonha e vestir o hijab conforme definido pelo Islam, não conforme as tendências da moda, são dois dos muitos caminhos para ressuscitar nossa sensibilidade para a hayaʾ. Assim como nos é dito no Alcorão que os pais da humanidade sentiram vergonha e se apressaram a se cobrir, somos informados que o alvo do Shaitan era adormecer sua hayaʾ e deixá-los confortáveis ​​em não estarem vestidos. Allah diz: “ filhos de Adao! Que Sata nao vos tente, como quando fez sair a vossos pais do Paraiso, enquanto a ambos tirou a vestimenta, para fazê-los ver suas partes pudendas” (al-Aʿraf 7:27). Portanto, devemos normalizar os ditames da hayaʾ em nossa conduta, antes de podermos esperar experimentar a hayaʾ em nossos corações.

3. Temor reverencial por meio do conhecimento sagrado. O ápice da hayaʾ é estar mais atento ao olhar de Allah do que às pessoas, assim como o ápice do Islam (isto é, iḥsan) é “adorar a Allah como se você O visse, e se você não O vê, saiba que Ele o vê.”[vi] Esta posição é alcançada refletindo sobre a natureza onisciente do Divino, al-Raqib (o Observador), al-Shahid (a Testemunha), al-Samiʿ (o Ouvinte), al-Baṣir (o Que tudo vê), al-Muḥiṭ (o Que abrangente tudo). Ḥatim al-Aṣamm disse: “Se um espião estivesse sentado ao seu lado, você estaria em guarda diante ele, mas suas palavras são exibidas ante de Allah e você não está em guarda?”

Ibn ʿAbbas, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: “Ó pecador que se sente seguro das terríveis consequências, estejas certo de que o que se segue a um pecado é maior do que o pecado que cometido. Tua falta de hayaʾ daqueles [anjos] à tua direita e esquerda quando tu pecas é maior do que o pecado que cometeste. Tua risada, apesar de não saber o que Allah fará contigo, é maior que o pecado. Tua tristeza quando perdeste a oportunidade de pecar, é maior do que o pecado, se tu o tivesses cometido. Teu medo do vento quando ele move a cortina de tua porta enquanto pecas, e teu coração não estremece com o olhar de Allah sobre ti, é maior do que o pecado, se tu o tivesses cometido.” Imam Aḥmad certa vez ouviu Abu Ḥamid al-Khalqani recitar estes dois dísticos de poesia:

Quando meu Senhor me diz,
Você não teve vergonha de me desobedecer?
Você esconde os pecados da Minha criação,
E com esses pecados você vem a mim?

…Imediatamente, ele instruiu al-Khalqani a repeti-los para ele, e ele o fez. Depois de aprendê-los, o Imam dirigiu-se para sua casa, repetindo-os uma e outra vez enquanto chorava, imaginando-se recebendo aquele castigo. Uma vez que a pessoa percebe que seu Senhor está olhando para ela, essa certeza produz hayaʾ, o que a leva a carregar o fardo da obediência. É semelhante a quem serve com alegria a sua amada; você o achará enérgico em seu trabalho e suportando seus contratempos, especialmente se sua amada for gentil e benevolente com ele. Nesse sentido, o olhar de Allah, o Poderoso e Majestoso, nunca está alheio aos Seus servos. Mas quando os servos se descuidam de seu Mestre olhando para eles, isso gera insolência e uma falta de haya’.

4. Relembrando os imensos favores de Allah. A hayaʾ também surge ao notar o tratamento cortês que alguém recebe de Allah constantemente, porque pessoas dignas não suportam estar indiferentes àqueles que são gentis e corteses com elas, então como isso não pode gerar vergonha saudável diante do Senhor daquele cujas bênçãos são inumeráveis? Al-Junaid disse: “Hayaʾ é sobre ver os favores e perceber as próprias deficiências. Entre esses dois, nasce uma condição chamada hayaʾ, e sua realidade é uma qualidade que leva a pessoa a deixar a indecência e impede que a pessoa deixe de cumprir os direitos de cada ser.” Também é relatado que Dhun-Nun al-Miṣri disse: “Pertencentes a Allah são os servos que deixaram o pecado por hayaʾ à Sua generosidade, em vez de tê-lo deixado por medo de Seu castigo. Se Ele te disser: ‘Faça o que quiseres e não te responsabilizarei por pecar’, Sua generosidade deve aumentar tua hayaʾ a Ele e tua abstinência da desobediência a ele – se tu fores realmente um servo nobre, livre e grato. Como então deveria ser o tua hayaʾ quando Ele, de fato, te ameaça [com punição]?”

5. Refinamento espiritual por meio da devoção. Sentir-se próximo a Allah e proteger essa posição honrada é algo cultivado por pura devoção ritual e atos sinceros de adoração. Quando feito de forma diligente e regular, eles alimentam a fé de uma pessoa e tornam-se poderosos dissuasores contra o comportamento indecente, como Allah diz sobre a oração: “Por certo, a oração coíbe a obscenidade e o reprovável.” (al-ʿAnkabut: 29:45). Foi dito uma vez ao Mensageiro de Allah: “Fulano ora a noite inteira, então, quando chega a manhã, ele rouba!” Ele ﷺ disse: “Sua oração irá [eventualmente] restringi-lo.”[vii]

6. Paire em torno da hayaʾ. A socialização é a força mais influente na vida da maioria das pessoas, e isso pode ser um grande recurso para inculcar a hayaʾ em nossas personalidades. Além de ensaiar as virtudes da hayaʾ e os perigos de ignorá-lo, mergulhe nas biografias das primeiras gerações do Islam é de suma importância absorver essa qualidade. Isso também deve ser complementado com boa companhia, para absorver visualmente o quão contidos os piedosos são em seus olhares, quão seletivos eles são em suas palavras e como seu respeito próprio os torna incapazes de se conformarem com os padrões dos outros. Mujahid bin Jabr costumava dizer: “Se um muçulmano não beneficia en nada seu irmão, se sua hayaʾ a impede de pecar, isso já é suficiente.”

7. Valorize a honestidade. Muitas pessoas não se intimidam ao mentir para uma criança, por considerá-la (e também à “mentira”) trivial, mas podem ter dificuldade em mentir para alguém mais velho, devido à reverência que sua idade cronológica traz. Da mesma forma, são apenas as pessoas que se colocam em alta consideração que evitam a desonestidade, seja para com Allah, com o povo, ou consigo mesmas. Por essa razão, os estudiosos aconselham as pessoas que buscam a redenção de uma vida pecaminosa a começarem com honestidade, pois isso vai restabelecer nelas um senso de autoestima e, assim, erguer a cerca da hayaʾ entre elas e seu passado sombrio. Talvez esta seja uma das razões pelas quais o Profeta ﷺ disse: “Siga a veracidade, pois a veracidade certamente conduz à retidão, e a retidão certamente conduz ao Paraíso. E uma pessoa será verdadeira e insistirá em permanecer verdadeira, até que seja registrada ante Allah como um ṣiddiq (forte confirmador da verdade).”[viii]

Conclusão

Pedimos a Allah que nos perdoe por quaisquer declarações ou intenções equivocadas que este documento possa conter, por quaisquer declarações que não correspondam às nossas ações e por tudo o que demonstramos de conhecimento a respeito da hayaʾ ao sermos negligentes em praticá-la. Que Ele nos faça agir de acordo com nosso conhecimento, buscando Sua Face, e não use nossas falhas contra nós. Na verdade, Ele é Muito Gracioso e Generoso.

Notas:

[i] Sahih al-Bukhari, n° 6117; Sahih Muslim, n° 37.

[ii] Sunan al-Nasaʾi, n° 40; considerado ḥasan-sahih por al-Albani.

[iii] Sahih Muslim, n° 349.

[iv] Sahih al-Bukhari, n° 38.

[v] Sunan Ibn Majah, n° 4008; autenticado por al-Arnaʾuṭ.

[vi] Sahih al-Bukhari, n° 50; Sahih Muslim, n° 8.

[vii] Musnad Aḥmad, n. 9776; autenticado por Ibn Ḥibban e al-Wadiʿi.

[viii] Sahih al-Bukhari, n° 6094.

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