Vivendo o legado de Abraão: Relevância dos ritos e rituais na era atual (Parte 2)

Vivendo o legado de Abraão: Relevância dos ritos e rituais na era atual (Parte 2)

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No Qur’aan, Abraão é mencionado repetidamente como uma figura central na história do hajj. Descreve-se Abraão como tendo sido guiado ao local da Casa (Ka’ba) em Meca (Qur’aan 22:26) e como o construtor da Ka’ba junto com seu filho Ismael, o patriarca dos árabes mesquitas (21:27). Na literatura do hadith, os rituais do hajj são explicitamente chamados de legado dos legados de Abraão (irth Ibrahim)[1].

O entendimento da vida de Abraão desempenha um papel poderoso na compreensão dos rituais do hajj. Através desses rituais, os peregrinos podem se conectar com uma história compartilhada e com o legado de Abraão e sua família.

Por essa razão, mesmo os árabes pré-islâmicos praticavam o hajj, apesar de terem se afastado do monoteísmo de Abraão. O hajj os conectava com seus ancestrais (Abraão e Ismael) mesmo quando eles abraçavam o politeísmo que contradiz as bases da mensagem de Abraão.

Mesmo assim, isso representa um dos maiores objetivos dos rituais do hajj: a capacidade de se conectar com a história compartilhada, narrativa e comunidade. Através dos movimentos e ritos do hajj, o crente volta no tempo e aprecia a maior tradição que os une a bilhões de pessoas através da história.

Parte da história única do hajj apresentada no Qur’aan é que Abraão foi o primeiro homem que recebeu a ordem de proclamar o compromisso do hajj a outros (Qur’aan, 22:27). Mesmo sendo Abraão um homem que o Qur’aan apresenta como tendo quando nenhum seguidor além dos membros mais próximos de sua família. O Qur’aan se refere a Abraão como “uma nação por si só”, em referência ao seu isolamento (Qu’raan, 6:120).

Mesmo assim, o chamado abraâmico para o hajj é de alguma forma atendido muitas gerações depois, com milhões de pessoas de todo canto do mundo se esforçando para seguir seus passos. Ele representa uma mensagem de esperança, otimismo e confiança em Deus e revela como os resultados mais improváveis podem ser obtidos com a vontade de Deus.

O hajj também representa a capacidade de se conectar com uma nação e comunidade muito maior. Que milhões de pessoas, homens e mulheres, no passado e no futuro, de diferentes raças, etnias e idades podem sincronizar ritos e rituais, motivados pelo mesmo propósito, fornecem ao peregrino uma experiência poderosa de irmandade e parentesco compartilhado que não pode ser experimentada de outra forma.

Talvez o testemunho de Malcolm X seja o mais digno de nota, pois ele ficou mundialmente conhecido por sua retórica anti-brancos (devido a suas experiências nos Estados Unidos durante a época da segregação racial), que renunciou sua retórica após vivenciar o hajj. Ele falou sobre ter mudado por Meca e descreveu a natureza transformativa do hajj em sua carta escrita na peregrinação:

“Havia dezenas de milhares de peregrinos, do mundo inteiro. Eles eram de todas as cores,  de louros de olhos azuis a africanos de pele negra.  Mas estavam todos participando em um mesmo ritual, demonstrando o mesmo espírito de unidade e irmandade que minhas experiências na América me levaram a acreditar que nunca poderia existir entre o branco e o não branco.

“Durante os últimos onze dias aqui no mundo muçulmano, eu tenho comido do mesmo prato, bebido do mesmo copo, e dormido no mesmo tapete – enquanto oro para o mesmo Deus – com irmãos muçulmanos, cujos olhos eram os mais azuis dos azuis, cujo cabelo era o mais louro dos louros, e cuja pele era a mais branca das brancas.  E nas palavras e nas ações e nos atos dos muçulmanos brancos, eu senti a mesma sinceridade que senti entre os muçulmanos negros africanos da Nigéria, Sudão e Gana.“Nós éramos verdadeiramente todos os mesmos (irmãos) (…)[2].

Isso ilustra como os rituais do hajj tocam em emoções profundas e oferecem a oportunidade de transformar o comportamento de forma positiva. Eles nos conectam a um propósito maior do que nós mesmos, e a um legado e história de grandiosidade: o legado de Abraão.

O SIMBOLISMO DOS RITUAIS DO HAJJ

Conforme discutimos anteriormente, os rituais islâmicos não são sem propósito, mas sim buscam evocar emoções nos corações dos crentes. Os ritos e rituais do hajj não são exceção. Na verdade, o Qur’aan especifica o objetivo de “precipitar os corações” (ou sejam, emoções e paixões) através do mecanismo no hajj. Isso é mencionado na súplica de Abraão, que é atendida por Deus através da ordem de se fazer o hajj:

“Senhor nosso! Por certo eu fiz habitar parte de minha descendência em vale sem searas, junto de Tua Casa Sagrada – Senhor nosso! – para que eles cumpram a oração. Então faze que os corações de parte dos homens se precipitem a eles com fervor. E dá-lhes dos frutos por sustento, na esperança de serem agradecidos” (Qur’aan, 14:37)

Há outra referência a isso quando o Qur’aan se refere aos ritos do abate: “Nem sua carne nem seu sangue alcançam a Allah, mas O alcança vossa piedade”. (Qur’aan, 22:37)

Assim, examinando cada rito e ritual do hajj nós podemos descobrir os significados espirituais que são o objetivo de cada prática. Passamos a entender como cada ritual contém significados que transcendem a capacidade da expressão verbal e que conectam o praticante a uma riqueza de espiritualidade, tradição e comunidade.

O SIMBOLISMO DO TAWAF

Tawaf (circundar) é o ritual de circungirar a ka’ba (Casa de Deus) sete vezes durante o hajj (peregrinação) ou Umrah (peregrinação menor). O tawaf é o ritual mais associado ao hajj, ilustrando a icônica imagem de milhões de pessoas circungirando a ka’ba em Meca.

Diz-se que a Ka’ba foi o primeiro templo erigido na terra para a adoração de Deus, o primeiro santuário devotado unicamente a glorificar o Criador[3]. O Qur’aan se refere à Ka’ba como mathabah (local de retiro ou ao qual se pode recorrer) para a humanidade, e como “A Casa” (ou seja, a Casa de Deus) (Qur’aan 2:125). Nesse sentido, estar na presença da ka’ba é algo que traz um benefício espiritual próprio, permitindo que os crentes recarreguem e reavivem seu senso de fé e de conexão com Deus. O Imam Abu Hamid al-Ghazali escreve:

Quanto ao tawaf ao redor da Casa de Deus, saiba que é por si só uma forma de oração, então encha seu coração com a mesma reverência, temor, esperança e amor que nós descrevemos no livro da oração. E reconheça que no seu tawaf você está fazendo o mesmo que os anjos honoráveis que circungiram o trono Divino, fazendo tawaf ao seu redor. E não presuma que o objetivo é apenas o tawaf feito pelo seu corpo, mas sim o que se intenciona é o tawaf do seu coração com a lembrança do Senhor dessa Casa, até que seus pensamentos em vida comecem e terminam com a lembrança dEle, assim cmo o tawaf da Casa é o começo e o final do hajj. Reconheça que o tawaf sagrado é o tawaf do coração com a presença de Deus, e o Tawaf ao redor da Casa de Deus é meramente uma representação simbólica, no mundo físico, do processo espiritual no mundo invisível. Isso é semelhante a como o corpo é a representação física do coração (o coração espiritual) que existe no mundo invisível[4].

Enquanto muitos não muçulmanos compreendem erroneamente que os muçulmanos adoram a ka’ba, é importante lembra que não há nada inerentemente sagrado em suas pedras e tijolos, revestimento ou tecido que a cobre. Na realidade, o importante é o que a ka’ba representa: a qibla ou direção para a qual os muçulmanos se voltam em suas orações para Deus. Os muçulmanos costumavam rezar virados na direção da Masjid al Aqsa, em Jerusalém, durante a primeira fase da pregação do profeta Muhammad s.a.w. Quando a qibla foi alterada da Masjid al Aqsa para a ka’ba, Deus revelou um lembrete importante no Qur’aan de que as direções e estruturas físicas não são intrinsecamente sagradas. Mas sim, sua santidade vem do fato de Deus delegar importância a elas e dar a elas um significado:

A bondade não está em voltardes as faces para o Levante e para o Poente; mas a bondade é a de quem crê em Allah, e no Derradeiro Dia, e nos anjos, e no Livro, e nos profetas; e a de quem concede a riqueza embora a ela apegado, aos parentes e aos órfãos, e aos necessitados, e ao filho do caminho, e aos mendigos e aos escravos; e a de quem cumpre a oração e concede az-zakat. E a dos que são fiéis a seu pacto, quando o pactuam; e a dos que são perseverantes na adversidade e no infortúnio e em tempo de guerra. Esses são os que são verídicos e esses são os piedosos. (Qur’aan, 2:177)

Da mesma forma, beijar a pedra negra durante o tawaf é um ato simbólico de penitência e arrependimento[5]. É relatado que ‘Umar ibn al-Khattab beijou a pedra e disse: “Por Allah, eu sei que você não é mais do que uma pedra e se eu não tivesse visto o Mensageiro de Allah s.a.w. beijar você, eu jamais teria lhe beijado”[6].

O ato do tawaf lembra ao crente de que Deus deve ser o centro de nossas vidas, assim como a ka’ba permanece sendo o centro do ritual. É um ato de submissão e subserviência que reconhece que apesar de os crentes por sua própria vontade colocarem Deus no cento de sua devoção, toda a nossa existência gira em torno de Deus, quer nós reconheçamos isso ou não.

O SIMBOLISMO DO SA’I

Sa’i (buscar, procurar) é o ritual de percorrer o caminho entre os dois montes (al-Safa e al-Marwa). Esse ritual celebra a história de Hagar e seu filho Ismael. Os dois foram deixados por Abraão em um deserto estéril, sob a instrução de Deus. Relata-se que Hagar chamou Abraão, questionando a ele porque estava abandonando a ela e a seu filho em um deserto. Abraão não respondeu até que ela perguntasse: “Foi Deus quem lhe ordenou fazer isso?” e ele respondeu que sim, e ela respondeu com total convicção em Deus: “Nesse caso, Ele não vai nos abandonar”[7].

Hagar voltou até seu filho pequeno e, como ele estava chorando de fome, ela começou a correr entre al-Safa e al-Marwa, buscando por qualquer coisa ou qualquer um que pudesse ajuda-los. Hagar correu entre os dois montes sete vezes, em desespero. Ela então testemunhou o arcanjo Gabriel aos pés de seu bebê, bater com o pé dele no chão, o que fez com que brotasse um olho d’água que mais tarde se tornou o conhecido por Zamzam[8]. Mais tarde, pessoas da tribo de Jurhum vieram e se estabeleceram na área, respeitosamente pedindo permissão de Hagar para usar a água de Zamzam, e desta forma nasceu a cidade de Meca.

Aqui é onde o ritual do Sa1i nasceu e a história de Hagar é fundamental para entender a narrativa do hajj. Sua história é de máxima devoção, convicção, certeza, e confiança em Deus acima de tudo. Que uma mãe aceitasse o destino de ser abandonada no deserto com seu filho ainda em idade de amamentação, porque ela teve certeza de que isso era a vontade de Deus, demostra um grande exemplo de confiança em Deus.

O percorrer as montanhas, feito pelos peregrinos hoje, nos lembra do desespero e da necessidade que todos nós temos do socorro de Deus. Como disse um sábio muçulmano: “Saiba que aquele está à deriva no mar, apoiado em uma tábua, sendo virado e revirado pelo mar, não possui necessidade de Deus maior que a sua”. Esse percorrer revive o alerta metafísico de que sem o apoio constante de Deus, nós estaríamos em pior situação do que estar à deriva no mar ou no meio de um deserto total.

O exemplo de Hagar é também apreciado por seu otimismo e sua esperança em Deus e em Sua promessa. Quando os peregrinos percorrem os dois montes, eles reconhecem o otimismo inabalável de Hagar apesar do grande árduo esforço que ela estava fazendo. Lembra os crentes também de que não importa a magnitude da dificuldade que enfrentam, eles devem sempre continuar tendo esperança no esforço e na busca pela solução. Hagar sabia que a provisão de Deus chega até aqueles que buscam por ela.

Há algo muito fascinante sobre o ritual do Sa’i e o que ele representa. De certa forma, esse é o ritual que acontece na raiz dos antepassados do Islam, representando a história da origem de Meca. Todos os outros rituais celebram eventos que ocorreram após o sa’i feito por Hagar no deserto. O que é realmente admirável nesse ritual é a pessoa a quem estamos copiando. Através dele celebramos a fé em Deus de Hagar – uma mulher, originalmente uma escrava vinda do Egito, que não possuía nenhum status, fama ou riqueza. A mesmo assim, sua devoção era tão amada por Deus que Ele estabeleceu esse ritual como algo eterno a ser seguido por pessoas de todas as partes do mundo. Um mulher virtuosa, cujos passos foram ordenados a serem seguidos por milhões de homens e mulheres. Como afirma o hadith: “Essa era sua mãe, Ó filhos da água do paraíso”[9].

O Sa’i representa uma rica tradição. É verdadeiramente extraordinário que por milhares de anos, homens e mulheres vêm repetindo os passos de uma mulher comum cujo status foi elevado por sua conexão emocional e sacrifício físico pelo Divino.

Além disso, assim como todos os rituais do hajj têm uma conexão com os eventos da outra vida, o ritual do sa’i está também ligado ao nosso estado no Dia do Julgamento. O Imam Abu Hamid al-Ghazali explica que esse ritual de percorrer os montes de Safa e Marwa estão ligados à balança das boas e más obras no Dia do Julgamento[10]. A vida de cada ser humano contém uma mistura de bem e de mal, momentos de virtude e sucesso junto com momentos de pecado e falha. Da mesma forma, correr entre esses montes significa nossa jornada entre esses dois opostos e nossa esperança de que nossas boas ações sejam maiores do que as más na balança do Dia do Julgamento.

O SIMBOLISMO DE ARAFAT

Arafat é o nome dado a uma pequena montanha junto com seus arredores planos, ao leste de Meca[11].Yawm Arafat (o dia de Arafat) é o 9º dia de Dhul Hijjah no calendário islâmico. No Yawm Arafat os peregrinos se reúnem no monte de Arafat e em suas cercanias planas e lá passam o dia, até o pôr do sol, buscando o perdão de Deus.

Os ritos e rituais do hajj possuem janelas de tempo durante as quais devem ser cumpridos. A aglomeração em Arafat no dia de Arafat é o único ritual que reúne todos os peregrinos no mesmo lugar e ao mesmo tempo, realizando os mesmos ritos. Na verdade, é relatado que o profeta Muhammad s.a.w. disse: “O hajj é Arafat”[12], querendo dizer que esse ritual é de suma importância na experiência do hajj.

Yawm Arafat possui grande importância na tradição islâmica. Primeiro, é o dia no qual Deus revelou o versículo 05:03 no qual proclama a perfeição da tradição islâmica e a finalidade das leis religiosas que seriam reveladas à humanidade. Segundo, é sabido que esse é o dia do pacto, Isso se refere à um existência ou consciência anterior durante a qual Deus fez um pacto com cada alma. Esse incidente é mencionado no Qur’aan:

“E lembra-te Muhammad de quando teu Senhor tomou dos filhos de Adão – do dorso deles – seus descendentes e fê-los testemunhas de si mesmos, dizendo-lhes: ‘Não sou vosso Senhor?’ Disseram: ‘Sim, testemunhamo-lo’. Isso para não dizerdes, no Dia da Ressurreição: ‘Por certo, estávamos desatentos’”. (Qur’aan, 7:172)

Por fim, é um dia marcado pelo perdão e satisfação de Deu. Em uma tradição, relata-se que o profeta s.a.w. disse: “Não há nenhum dia em que Deus liberte mais servos do castigo do inferno do que no dia de Arafat”[13]. Em outra tradição ele disse: “Deus se gaba para os anjos sobre as pessoas de Arafat, dizendo: ‘Vejam Meus servos, eles vieram até Mim pela manhã em um estado desolador, com cabelos empoeirados, tendo atravessado todo vale profundo. Eu vos chamo para testemunharem que Eu os perdoei”[14]. A magnitude do perdão de Deus nesse dia de intensa oração e imenso arrependimento é tão grande que muitos sábios e ascéticos costumavam dizer: “O maior dos pecados para os que vivenciam o dia de Arafat é pensar que Allah não os perdoou”[15]. A atitude do crente é de esperança, otimismo e pensamentos positivos sobre Deus, sabendo que a Misericórdia de Deus abrange a todos.

Assim como Arafat é conhecido como dia do pacto, em referência a um dia anterior ao nascimento da humanidade em nossa existência atual, Arafat também inflama a imaginação do crente em direção à vida após a morte e ao dia da ressurreição.

O dia da ressurreição tem uma série de epítetos no Qur’aan, incluindo o dia da prestação de contas (yawm al-hisab)[16], o dia estéril (yawm ‘aqim)[17], dia da aflição (yawm al-hasrah)[18]. Mas muitos dos nomes do último dia carregam uma grande semelhança com o dia de Arafat. Esses incluem o Dia em que estarão de pé (yawm qiyamah)[19], dia em que saíram dos sepulcros (yawm al-khuruj)[20] e dia do Encontro (yawm al-Talaaq)[21].

Quando o peregrino testemunha tantas pessoas reunidas em um só lugar, ao mesmo tempo, ansiando desesperadamente pelo perdão de Deus, isso inevitavelmente evoca imagens do dia da ressurreição. As veste do hajj também são marcadas por dois tecidos brancos simples, análogos à mortalha usada para envolver o morto. Todos esses elementos se unem para fazer do dia de Arafat um lembrete enfático de nossa mortalidade de nossa futura ressurreição. Ele lembra ao peregrino de seu eventual deparar com Deus, respondendo por suas ações.

O SIMBOLISMO DE MUSDALIFAH

Após passar o dia rezando e fazendo du’a em Arafat, o próximo passo no Hajj é deixar Arafat após o pôr do sol e passar a noite em um local chamado Musdalifah, uma área deserta na periferia de Meca. A palavra tem origem linguística na raiz zulfa que denota aproximação ou reunião, e é onde os peregrinos se reúnem fora de Meca[22]. Nesse local, o profeta Muhammad s.a.w. juntou suas orações do maghrib e do isha[23], e depois saiu na madrugada do dia seguinte para retornar à Mina. Durante a noite, os peregrinos dormem sob o céu aberto, desconectados das distrações e confortos da vida mundana, deitados sobre pedras.

A parada em Muzdalifah é algo ordenado no próprio Qur’aan:

E quando prosseguirdes do monte Arafar, lembra-vos de Allah junto do símbolo sagrado. E lembrai-vos bem dEle, como Ele bem vos guiou; e por certo, éreis antes disso, dos descaminhados. (Qur’aan, 2:198)

O símbolo sagrado mencionado nesse versículo não é outro senão Muzdalifa. Nesse versículo, os crentes são instruídos a lembrar de Deus e adorá-lO precisamente de acordo com a maneira que Ele os guiou, não de acordo com a maneira que Ele era adorado durante os dias da ignorância antecedentes ao islam. É certo que os idólatras pagãos na era pré-islâmica incluíam Arafat e Muzdalifah em seus rituais, mas a tradição islâmica requer que os crentes deixem Arafat antes do sol se pôr e saiam de Muzdalifa antes do sol nascer completamente, ao contrário dos idólatras que deixavam Arafat após o sol se pôr e Muzdalifah após o sol nascer.

Aí pode surgir a pergunta: qual é a importância dessas mudanças aparentemente triviais? Às vezes as diferenças entre duas escolhas na vida, porém parecer sutis, mas as consequências podem ser drásticas. Desenvolver a disciplina e hábitos consciências de aderir firme e rigorosamente ao que é certo mesmo em circunstâncias difíceis é um pilar essencial para o sucesso na vida. O ponto central da fé islâmica é o elemento da submissão ao caminho de Deus, e se a pessoa cria saídas e não é firme em seguir as instruções nos menores níveis, isso pode gerar um insucesso espiritual em um nível maior.

Em toda indústria, uma das habilidades mais importantes é a de seguir instruções com precisão e exatidão. No campo da medicina, por exemplo, um menor erro na dose ou administração de um medicamento pode levar o paciente à morte[24]. Ao seguir devotadamente as ordens de Deus, a pessoa expressa seu amor e reverência pelo Criador.

Outro simbolismo de Muzdalifah envolve dormir ao céu aberto sobre pedras planas como sendo uma metáfora da vida no túmulo. A vida humana é tão curta quando a oportunidade de buscar a Misericórdia de Deus em Arafat, após o que nós passamos um curto período de tempo no deserto antes de sermos ressuscitados e retornamos ao nosso Senhor. Isso nos leva de volta ao tema dos rituais do hajj como representações dos estágios da vida após a morte, lembrando-nos da inevitável jornada de volta para Allah.

O SIMBOLISMO DE UDHIYA

Udhiyah refere-se ao sacrifício ritual de um animal, que é feito durante a época do hajj ou após no dia do Eid al Adha (festa do sacrifício)[25]. Essa é uma das duas celebrações anuais para os muçulmanos ao redor do mundo[26]. O profeta Muhammad s.a.w. instruiu que o animal a ser sacrificado deve ser abatido de maneira humanizada, minimizando qualquer dor e evitando que o animal fique ansioso[27]. O sacrifício é um ato de gratidão e devoção a Deus, e um ato de generosidade para com os outros, já que a carne do animal é distribuída entre os pobres e necessitados.

Assim, vemos o espírito humanitário do islam ser enfatizando no dia do Eid al-adha. Ao celebrar este dia com suas famílias, os muçulmanos compartilham suas bênçãos com os outros, pois Deus afirma no Qur’aan que os rituais do hajj foram prescritos “para presenciar certos benefícios seus, e para mencionar, em dias determinados, o nome de Allah, sobre o animal dos rebanhos que Ele lhes deu por sustento. Então, deles comei e alimentai o desventurado, pobre”[28]. A ênfase no benefício humanitário é repetida alguns versículos depois: “E quando abatidos e, caem sobre os flancos, comei deles e alimentai o pobre e o mendigo. Assim submetemo-los a vós, para serdes agradecidos”[29]. No espírito de servir toda a humanidade, a carne é doada aos pobres, independente de sua religião[30]. O profeta Muhammad s.a.w. ensinou: “Doem em caridade para as pessoas de todos os credos”[31].

A origem desse ritual é uma das mais famosas histórias sobre Abraão, a história sobre ser ordenado por Deus a sacrificar seu filho[32]. É uma história que está no coração de cada uma das tradições religiosas que olham para Abraão como seu pai da fé. Mas é também uma história que tem sido objeto de muita polêmica. Novos especialistas ateus como Christopher Hitchens, famosamente atacaram essa história como exemplo primário do que há de errado com a religião. Que tipo de Deus ordena que um pai mate seu próprio filho? Que tipo de pai concordaria em realizar tal ato? E que tipo de religião veneraria um homem que concordou em matar o próprio filho porque acreditava que Deus o havia instruído a tal?

Refletir sobre essas objeções é imperativo: ter certeza de nós mesmos termos o entendido corretamente a história e sermos capazes de apresentar as lições dela para os outros, e também enxergar porque essas objeções são interpretações errôneas da história. Para ter certeza, o que foi ordenado a Abraão foi um teste incrível de devoção. Quando Abraão migrou por Deus, abandonando seu lar, seus pertences, levando nada além de sua fé em Deus, ele suplicou: “Senhor meu! Dadiva-me cm um filho, dos íntegros” ao que Deus afirma: “Então alvissaramo-lhe um filho clemente”[33]. Nós podemos só imaginar o imenso amor de Abraão por Ismael, que continuou crescendo dia após dia, conforme Ismael crescia, até que atingiu a idade em que podia andar atrás de seu pai. E foi precisamente aí que a ordem mais difícil veio – a ordem de sacrificar o que era mais amado por ele.

Examinando bem o assunto, vemos que existem vários pontos chave da narrativa islâmica do sacrifício de Abraão que demonstram porque as dúvidas sobre a importância ética da história estão equivocadas. Um princípio central da teologia islâmica explica porque não há tensão na história entre fazer o que é bom para a criação (ética) e fazer o que Deus determina (religião): na base da teologia islâmica está a noção de que Allah é Misericordiosíssimo e que Allah jamais ordenaria sofrimento ou prejuízo para qualquer ser humano: “E Allah não deseja injustiça para os mundos”[34].

A realidade profunda que os críticos dessa história não conseguem perceber é a certeza de Abraão de que não importa o quão imensa e intensamente ele amasse Ismael, O amor de Deus por Ismael era infinitamente maior. Na verdade o profeta Muhammad s.a.w. descreveu que Deus ama a humanidade mais do que uma mãe ama seu filho[35]. Abraão sabia que seguir a ordem de Allah jamais causaria algum prejuízo, e de alguma forma, no final, o resultado seria bom mesmo que ele não entendesse no momento. Esse é o aspecto epistêmico que os críticos negligenciam: o fato de Abraão – enquanto profeta – possuir certo conhecimento do que Deus estava ordenando[36] e certo conhecimento de que a vontade de Deus é moral e boa, explica porque ele sabia que seguir a instrução de Deus não resultaria em nenhum mau resultado[37]. Essa não é uma alegação qualquer de uma pessoa com quem Deus falou – esse é o Abraão que saiu de ileso de uma fogueira na qual seu povo o atirou[38], o Abraão que testemunhou com seus olhos o milagre físico da ressurreição[39], e testemunhou os segredos deus céus e da terra para que estivesse dentre aqueles de certeza incomparável[40].

Depois, uma característica única da narrativa corânica é que Abraão vai até seu filho e conversa com ele sobre o assunto: “Ó meu filho! Por certo vi em sonho que te imolava. Então olha, que pensas disso?” Ismael disse: “Ó meu pai! Faze o que te é ordenado. Encontrar-me-ás entre os perseverantes, se Allah quiser”[41]. Ismael entra no assunto com boa vontade e devotadamente, em vez de ser conduzido ao sacrifício sem saber das intenções de Abraão. Não há ocultamento ou coerção na narrativa islâmica. A história é sobre a beleza de pai e filho ambos respeitosamente confiarem na vontade de Deus, como o Qur’aan afirma: “E quando amobis se resignaram e o fez tombar com a fronte na terra, livramo-lo. E chamamo-lo: ‘Ó Abraão! Com efeito, confirmaste o sonho’. Por certo assim recompensamos os benfeitores”[42].

Analisando como os sábios clássicos entenderam a história revela como a leitura dos críticos é fundamentalmente equivocada. Ibn al-Qayyim fez os seguintes comentários sobre porque Deus ordenou que Abraão sacrificasse Ismael:

O benefício em ordenar que Seu amigo Abraão sacrificasse seu filho não era para que o sacrifício ocorresse, mas sim para que ambos pai e filho se submetessem firme e completamente à Sua ordem. Uma vez que o benefício tomou forma, a continuação do sacrifício se tornou um prejuízo para os dois. Portanto, Deus o ab-rogou (e ordenou que Abraão sacrificasse uma ovelha em vez do flho). Essa é a resposta verdadeira e solução do assunto[43].

O filósofo dinamarquês Soren Kierkegaard ficou fascinado pelo aparente dilema entre a fé e a moral na história de Abraão. Kierkegaard sentiu que a história resumia o verdadeiro significado da fé, e sentiu que muitos cristãos não conseguiam apreciar a profundidade dela. Ele dedicou sua obra filosofia Temor e Tremor à história do sacrifício de Abraão, focando psicologicamente na ansiedade que Abraão deve ter sentido enquanto rumava em direção a essa experiência com seu amado filho. Apesar de a obra representar um trabalho complexo e com muitas interpretações, o tema central que surge em sua obra é a ideia de que Abraão em momento algum havia se comprometido a fazer algo antiético, como assassinato. Na verdade Abraão sabia que apesar de o que estar sendo pedido parecer imoral, uma vez que Deus jamais ordenaria algo que fosse verdadeiramente imoral, ele precisou confiar que o resultado final seria algo moralmente bom. Assim, Abraão deu o salto da fé (que Kierkegaard chamou de “suspensão teleológica do ético”) ao confiar que Deus pouparia seu filho[44]. Dessa forma, Kierkegaard distingue o tipo de obediência que envolve estar tranquilo na realização de uma ação antiética, versus a verdadeira fé que envolve manter a preocupação ética, porém confiando que por fim um bem maior será o resultado de seguir o que não é conhecido com a certeza de isso que vem de Deus.

O famoso exegeta do Alcorão, Imam al-Shawkani, faz um comentário interessante sobre esse aspecto. Ele diz:

Quando Abraão colocou Ismael na posição do sacrifício, um chamado vindo da montanha lhe disse: “Ó Abraão! Com efeito, confirmaste o sonho”, fazendo assim com que o cumprimento fosse baseada puramente em sua firme resolução (de realizar o ato) apesar de não ter realizado o sacrifício do filho. Isso porque ele foi o mais longe que podia e a verdadeira intenção da ordem era que ambos (Abraão e Ismael) se resignassem e se submetessem a Deus (e não efetivamente realizar o ritual da imolação), o que eles cumpriram devidamente[45].

Em resumo, de acordo com essa narrativa, a resposta de Abraão não foi: (tudo bem por mim matar meu filho só porque Deus pediu” como a nova caricatura ateísta sugere, mas foi na verdade: “Deus está pedindo que eu faça algo extremamente difícil, mas eu confio em Deus sabendo que se eu seguir esse caminho, Deus estará lá por Ismael e por mim, e a vontade de Deus nos protegerá de qualquer prejuízo. Deus vai aceitar nossa devoção e confiança nEle e nos conduzirá à algo melhor”. Essa forma de confiança é de certa forma análoga ao bem conhecido exercício da “queda de confiança”, no qual alguém se permite cair de costas, confiando que os demais participantes do exercício irão segurá-lo. A pessoa que cair vai ser ruim e não deseja cair no chão e se machucar, mas ela demonstra total confiança de que outros participantes irão segurá-la impedido que se machuque com o impacto da queda no chão.

Portanto, analisada sob a luz correta, essa história representa o mais brilhante e poderoso testamento de verdadeira espiritualidade e devoção. Apesar de Deus não nos pedir o sacrifício de nossos filhos, a vida trará muitos desafios difíceis no qual será preciso muita força para fazer o que é certo, e estar disposto a aguentar um sofrimento que resultará em uma mudança positiva. Nós podemos perder nossa riqueza, nossa família ou muito mais. A verdadeira fé não é descartar nossos valores morais e éticos em favor de um comprometimento sem sentido com instruções arbitrárias. Mas a verdadeira fé é estar preparado para deixar aquilo nossos corações amam, sacrificar aquilo que é mais precioso para nós, quando sabemos que podemos aproveitar a oportunidade de fazer o que é certo para Deus e servi-lO. Porque no fim das contas, sabemos que Deus estará com aqueles que escolhem se esforçar pelo bem em Seu caminho[46].

O SIMBOLISMO DO JAMARAT

Jamarat (local das pedrinhas) refere-se três locais específicos em Mina, perto de Meca. Os peregrinos visitam os Jamarat durante o hajj e apedrejam os três pilares com pedrinhas.

De acordo com uma narração, esse ritual celebra as ações de Abraão enquanto estava n caminho ara sacrificar seu filho Ismael para cumprir a instrução de Deus. Após Abraão se convencer de que imolar Ismael era a vontade de Deus, em seu caminho até seu filho ele foi confrontado três vezes pelo demônio que tentou dissuadi-lo. E cada vez que isso aconteceu, Abraão respondeu jogando nele pedrinhas[47].

Apesar da compreensão errônea por parte dos peregrinos de que estão fisicamente apedrejando o demônio quando apedrejam os jamarat, esse ato é na verdade um exercício simbólico que celebra as ações de Abraão. Esse exercício lembra aos peregrinos que devem estar cientes dos males internos e externos nesse mundo que tentam nos manter longe de Deus e longe da retidão. E nos lembra de que a fé e a sinceridade sempre serão abordadas e confrontadas por forças externas, e por isso o crente deve estar preparado para se esforçar em alcançar a satisfação de Deus.

CONCLUSÃO

Como seres humanos, nós buscamos crescer moral e espiritualmente, e alcançar nosso total potencial enquanto nos batalhamos contra as árduas provas e tribulações que nos acometem. Através da linguagem simbólica dos rituais, descobrimos uma camada de significado em nossas vidas que fala diretamente com o centro do nosso eu: quem somos, de onde viemos e qual o propósito de nossa existência. A maior jornada é a jornada espiritual até Deus, obter conhecimento do Nosso Criador e viver a experiência de tê-lO em nossas vidas, e a jornada física do hajj guarda muitos rituais poderosos que nos despertam para nosso relacionamento com o Divino e uns com os outros.

Fonte: clique para ler


[1] Sunan An-Nasa’iHadith #3014.

[2] Malcolm X’s (Al-Hajj Malik El-Shabazz) Letter from Mecca, accessed August 17, 2017, http://islam.uga.edu/malcomx.html.

[3] [15] The Qur’an mentions that the foundations of the Ka’bah were raised by Abraham and Ishmael (Qur’an 2:127); however, scholars have differed over whether this was the very first time it was constructed. A narration from Ibn Abbas states that the foundations were already present before. Moreover, the Prophet Muhammad ﷺ stated that the time between the construction of the Ka’bah and Bayt al-Maqdis was 40 years (Sahih Bukhari 3186), which doesn’t correspond to the time between Abraham and Solomon (i.e., thousands of years), and on the basis of this point, Ibn al-Jawzi (d. 597 H) suggested that both were actually originally constructed by Prophet Adam, 40 years apart. Ibn Hajar al-’Asqalani (d. 852 H) cites and supports this conclusion and lists a number of evidences and arguments that indicate that the Ka’bah was first built by Prophet Adam himself. He cites a report from Qatadah ibn Di’amah (d. 117 H) that states, “Allah founded the Ka’bah with Adam when he descended. Adam missed the voices of the angels and their tasbeeh. So Allah said, ‘O Adam I have designated a House around which humanity will make tawaf just as tawaf is performed around my Throne, so journey to it.’” (See Ibn Hajar, Fath al-Bari, Cairo: Dar al-Rayan l’il-Turath, 1987. vol. 6, pp. 467-471).

[4] Al-Ghazali, Ihya Ulum al-Deen, (Beirut: Dar Ibn Hazm 2005), p. 318.

[5] The Black Stone marks the eastern corner of the Ka’ba, and is said to be a stone from Paradise sent down to Earth and blackened with the sins of mankind (Sunan al-Tirmidhi, 877). There is also a weak narration attributed to Ibn Abbas that states, “The Black Stone is (a symbol of) God’s right Hand on Earth, so whoever greets it and kisses it, it is as if they have greeted God and kissed His Hand” (Ibn Adi, al-Kamil 1/336). Ibn Qutaybah al-Daynuri (d. 276 H) states, “This is just an analogy, the basis of which is that when one greets a king, one kisses his hand, so it is as if the Black Stone has the station of the right hand of The King” (Ibn Qutaybah, Ta’wil Mukhtalif al-Hadith, Cairo: Dar Ibn Affan, p. 406). He also mentions a report from Aisha (ra) that when God took the primordial covenant from humanity, He placed it in the Black Stone (ja’ala dhalika fi’l-hajar al-aswad). Thus, the symbolic significance may also extended to humanity renewing their covenant with God when kissing the Black Stone.

[6] Sahih Muslim, 1270.

[7] Sahih Al-Bukhari, 3364.

[8] Ibid

[9] Sahih Bukhari, 3179. This expression highlights Hajar’s importance to the ummah (followers) of Prophet Muhammad ﷺ, and it has diverse interpretations. One possibility is that it indicates that this ummah was born at that moment of God’s answering Hajar with the spring of Zamzam.

[10] Al-Ghazali, Ihya Ulum al-Deen, p. 319.

[11] The name ‘arafah comes from the linguistic root word “to recognize” and a plethora of conjectural suggestions have been made as to why this name originally was chosen. Some suggestions include that it was here that Abraham recognized the rituals of Hajj after being taught by Angel Jibreel, or it was here that Adam was reunited on Earth with Hawwa, and so on. See Tafsir al-Baghawi (verse 2:198).

[12] Abu Dawud, 1949.

[13] Sahih Muslim, 1348.

[14] Al-Dhahabi, Mizan Al-I’tidal, 4:381.

[15] Al-Ghazali, Ihya Ulum al-Deen, p. 319.

[16] Qur’an, 38:16.

[17] Qur’an, 22:55.

[18] Qur’an, 19:39.

[19] Qur’an, 2:85.

[20] Qur’an, 50:42.

[21] Qur’an, 40:15

[22] Ibn Mandhur, Lisan al-’Arab, (Dar Sader 2003), vol. 7, p. 49 (online). An example of a similar linguistic usage in the Qur’an is 26:64.

[23] Sahih Bukhari, 1674.

[24] [36] For instance, an error confusing intravenous vincristine and intrathecal methotrexate resulted in the deaths of patients with leukemia. Dyer Clare. Doctors suspended after injecting wrong drug into spine BMJ 2001; 322 :257.

[25] [37] There is a classical difference of opinion over whether it is an obligation (Hanafi school of law) or an emphasized recommendation (Shafi’i, Maliki, Hanbali schools), and also a difference of opinion over whether it is prescribed for everyone (Shafi’i), only for non-travelers (Hanafi), or only for non-pilgrims (Maliki), along with other positions in between.

[26] The other being Eid al-Fitr (festival of ending fasting) which follows the month of Ramadan.

[27] The Prophet ﷺ said, “When you slaughter, you should use a good method, for one of you should sharpen his knife, and give the animal as little pain as possible” (Sahih Muslim 1955).

[28] Qur’an, 22:28.

[29] Qur’an, 22:36.

[30] Ibn Qudamah al-Maqdisi (d. 620 H), al-Mughni (Riyadh: Dar Alam al-Kutub 1999) vol. 13, p. 381.

[31] Musannaf ibn Abi Shaybah, 10494.

[32] In the Islamic tradition, the son is identified as Ishmael according to the predominant opinion amongst scholars based on indications in the Qur’an, as articulated by Ibn Taymiyyah (d. 728 H) in Majmu al-Fatawa (Dar al-Wafa’ 2001, vol. 4, p. 204). Meanwhile, exegetes like Ibn Jareer al-Tabari (d. 320 H) and al-Qurtubi (d. 671 H) supported the viewpoint that it was Isaac (see their respective commentaries on 37:101-2).

[33] Qur’an, 37:100-101.

[34] Qur’an, 3:108.

[35] Sahih Bukhari, 5999.

[36] It has been stated in Tafsir al-Qurtubi (37:102) that he witnessed these visions for three consecutive nights, and in Islamic theology the visions of prophets constitute revelation, as related in Sahih Bukhari (refer to Ibn Hajar al-Asqalani, Fath al-Bari 6581).

[37] Most of the objections have the underlying epistemological presumption that the one making the claim about what God has commanded him to do is probably deluded or insane, because in reality there is no God telling him to do this or that. However, if it is established with absolute certainty that God has in fact commanded a deed to be performed, a deed which seems to conflict with our ethical sensibilities, what then is the correct course of action? On Ash’arite theology, by Divine command theory, the ethical is defined as whatever God has ordained so this becomes the ethical course of action, while on Hanbalite-Salafist, Maturidite and Mu’tazilite theology, fundamental ethical realities are rationally discernible, so God’s commandments always correspond with what sound reasoning identifies as truly ethical. If something seems otherwise, it’s because we haven’t studied it sufficiently. The Qur’an states that when people attempt to justify immoral actions by stating God commands it, the correct response is to state, “Verily, God does not command evil” (Qur’an 7:28).

[38] Qur’an 21:69.

[39] Qur’an 2:260.

[40] Qur’an 6:75.

[41] Qur’an, 37:102. The Qur’anic exegete, Mahmud al-Alusi (d. 1270 H) notes that this demonstrates the humility of Ishmael in not boldly asserting that he was personally patient, but rather saying that he would be amongst those who are patient if God wills.

[42] Qur’an 37:103-105.

[43] Tallal M. Zeni, Ibn Qayyim al-Jawziyya on Knowledge: from Key to the Blissful Abode (Miftah Dar al-Sa’ada), p. Xxii. Cited as Miftah, p. 392.

[44] Alastair Hannay. Homing in on Fear and Trembling. In: Kierkegaard’s Fear and Trembling: A Critical Guide. (Cambridge University Press 2015) edited by Daniel Conway. p. 13.

[45] Al-Shawkani, Fath al-Qadir, (Beirut: Dar al-Marefah 2007) p. 1246. There is a classical theological debate between the Mu’tazilah and the Ashaa’irah on this issue which Al-Razi (d. 606 H) recounts (Mafatih al-Ghayb 37:102). The Mu’tazilah hold that Abraham was only commanded by God to perform the steps leading to the sacrifice, not the sacrifice itself, and thus he fulfilled the vision despite never sacrificing Ishmael. Meanwhile the Ashaa’irah contend that the actual sacrifice itself was what he was commanded to perform.

[46] There is one other element of the New Atheist critique of the story that is logically fallacious—when one is committed to the idea that humans are mere biological animals without special status or sanctity, why is human sacrifice morally objectionable but animal sacrifice is not? If human life is categorically no different from an animal life, what gives humans the right to take the life of an animal for consumption? For Muslims, this right comes only from Divine permission (with the condition that the animal is not killed for sport but that we consume the meat and slaughter the animal in a humane manner), and thus Divine blessing is sought before slaughtering any animal in order for it to be halal (permissible).

[47] Musnad Ahmad, 2791. This hadith was authenticated by Ahmad Shakir while Nasir al-Din al-Albani declared it weak. Some scholars adopting al-Albani’s view have also opined that since there is no conclusively authentic source to link the practice to Abraham’s pelting the devil, the Jamarat bear no relation to this event. However, they fail to provide an alternative for the origin of the ritual of pelting the Jamarat.

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