Vivendo o legado de Abraão: Relevância dos ritos e rituais na era atual (Parte 1)

Vivendo o legado de Abraão: Relevância dos ritos e rituais na era atual (Parte 1)

Por Ibrahim Hindy

Imam Ibrahim Hindy é gerente de pesquisas no Intitute Yaqeen. Possui grau de bacharel em História Islâmica e é atualmente candidato a mestrado em Estudos Islâmicos pela Universidade Internacional da Malásia; É também imam no Centro Islâmico Dar al-Tawheed em Mississauga, Canadá.

e Nazir Khan

Dr. Nazir Khan é director de pesquisa no Insittuto Yaqeen. É médico, imam voluntário e consultor do comitê de fiqh (assuntos religiosos) da Associação Islâmica Manitoba. Memorizou o Qur’aan e recebeu o tradicional certificado (ijazah) no estudo no Qur’aan, Hadith e teologia islâmica (aqidah)


Imagens do Hajj anual (peregrinação anual à Meca) continuam chamando a atenção do mundo. Conforme as pessoas testemunham a sincronização de ações e propósito de milhões de peregrinos, elas sem impressionam e se espantam. Muitos perguntam: “Por que o Hajj é importante?” ou “Qual o propósito de rituais de peregrinação nos dias de hoje?”.

Neste artigo, discutimos o poder dos rituais em geral e focamos nos vários benefícios e significados dos rituais do hajj em particular. No decorrer da discussão, embarcamos em um breve tour de material relevante da antropologia, psicologia, teologia, jurisprudência, exegese, filosofia e – mais importante – espiritualidade islâmica.

POR QUE OS RITUAIS EXISTEM?

No mundo atual, rituais religiosos são vistos apenas como vestígios da Idade das Trevas da qual a sociedade se libertou sob a luz da industrialização. Para muitos, prova material é uma virtude essencial e objetivo único válido para o comportamento humano. Tal narrativa apresenta as práticas rituais como comportamentos irracionais que não fornecem valores tangíveis, cujos objetivos podem ser melhor alcançados  através de avanços econômicos e tecnológicos.

De acordo com Catherine Bell: “A alegação popular de que o ritual e a religião declinam em proporção à modernização tem sido uma espécie de truísmo sociológico desde meados do séc. XIX”[1]. Essa sabedoria convencional estabelece a ideia do ritual diretamente sendo diretamente oposto à própria razão. Como Schilbrack descreveu: “enquanto que as mentes primitivas necessitam do ritual para acalmar seus medos e tentar entender o que não era realmente entendido, com a maturação da razão e o desenvolvimento da ciência moderna nós naturalmente deixamos essas práticas”[2].

Como os rituais não estão relacionados a assuntos que podem ser examinados no campo do mundo físico, eles parecem ser impróprios à qualquer pessoa racional instruída. O ritual sempre foi compreendido como irracional devido à sua falta de interesse nos bens materiais. A própria noção de despender recursos como dinheiro, tempo e energia sem receber nenhum retorno material era vista como uma prática insensata e retrógrada[3].

Entretanto, acadêmicos reconheceram o ritual como caricatura de mente simples do valor e relevância dos rituais. Desde meados do séc. XIX, essas tese de secularização tem sido rejeitada por um número cada vez maior de sociólogos que apontam para a função fundamental do ritual em todos os aspectos da vida humana. Os rituais cada vez mais vistos como inerentes ao comportamento humano, mudando em seu detalhes mas constantemente presente na experiência humana.

(…) todas as sociedades são igualmente ritualizadas; elas meramente praticam rituais diferentes. Se a maioria das pessoas nas sociedades industrializadas deixa de frequentar a igreja regularmente ou de pratica rituais complexos de iniciação, isso não significa que o ritual declinou. O que aconteceu foi que novos tipos de rituais – políticos, esportivos, musicais, médicos, acadêmicos e por aí vai – tomaram o lugar dos rituais tradicionais.[4]

Assim, os rituais são intrínsecos em cada sociedade e se manifestam não apenas em práticas religiosas, mas também em atividades sociais, políticas e até mesmo em tarefas mundanas do dia a dia. Considere um dos rituais mais onipresentes – o aperto de mão. O que ele representa? Um costume antigo que talvez tenha surgido como um ato para demonstrar a ausência de armas escondidas, esse gesto passou a simbolizar um reconhecimento mútuo de cortesia, boas vindas, respeito, dignidade, confiança, ausência de confronto e paz. Esses estados cognitivos e emocionais estão todos unidos em um único gesto humano.

Podemos encontrar rituais em toda a parte: comícios, marchas, festividades, celebrações, coroações, inaugurações etc. Na vida cívica, cerimônias rituais continuam sendo realizadas em casamentos e funerais, e o abandono das mesmas seria depreciar inteiramente o significado desses eventos da vida. Seja a troca de presentes, o expressar de cumprimentos ou condolências, entreter convidados, visitar parentes, trabalhar apenas em dias comerciais ou cantar canções de ninar para crianças, nós vemos os rituais continuamente desempenharem um papel proeminente em praticamente toda atividade humana.

A razão dos rituais serem importantes e porque permanecem sendo centrais na atividade humana, é porque eles transcendem a comunicação verbal. Eles permitem aos humanos expressar sentimentos com significado e valores em comum. Eles fornecem uma linguagem que é incrivelmente versátil, que permite reconhecimento mútuo do significado de um evento em particular, ou de uma entidade ou relacionamento. Como Bell afirma: “em vez de ritual como veículo da expressão de autoridade, os teóricos tendem a explorar como o ritual é um veículo da construção de relacionamentos de autoridade e submissão”[5].

Schilbrack, seguindo a linha de Pierre Bourdieu, compara os rituais com “chamados de ordem” sociais que “despertam disposições corporais profundamente enterradas”[6]. Os rituais são então comparados a atos de protestos, nos quais o ritual em si, através do processo de aglomeração e cânticos, pode reavivar ou regenerar sentimentos e emoções de seus participantes.

Por essa razão, os rituais sempre permanecerão sendo parte significativa de nossas vidas em grupo. A habilidade de construir propósito e significado, de mudar ou tocar emoções profundas, é um poder que não pode ser substituído em nenhuma experiência humana.

RITUAIS NO CAMPO ESPIRITUAL

Rituais relacionados à espiritualidade demonstram uma grande potência na construção do significado e despertar de profundos estados emocionais daqueles que participam. Através do ritual, nós tentamos articular o inefável. Os rituais nos permitem condensar vastas classes de significados, um espectro de emoções, noções de virtude, todos dentro de um conjunto de gestos momentâneos. Aquilo que desafia as fronteiras da nossa experiência humana e transcende os limites da nossa comunicação verbal e acessado e expressado via prática espiritual e ritual religioso.

Retomando a descrição moderna dos rituais como irracionais, nós agora reconhecemos que essa percepção míope emana, predominantemente, de uma incapacidade de ver além dos movimentos físicos e comportamentos motores envolvidos em um ritual, enquanto desatentos ao significado metafísico dos atos sendo realizados. O Qur’aan faz referência a isso de cabeça erguida ao discutir o sacrifício ritual de um animal: “Nem sua carne nem seu sangue alcançam a Allah, mas O alcança vossa piedade” (22:37). A ação física é só uma cobertura externa do que um exercício espiritual almeja, que é conseguir se aproximar de Deus através da linguagem simbólica do sacrifício: abrir mão do que nos é querido (riqueza, propriedade, tempo, esforço) para expressar nosso amor pelo Divino e nossa submissão à Sua vontade. As ações externas são na verdade símbolos (ritos) do que está dentro. Na verdade, Allah descreve os rituais no Qur’aan como símbolos de nossa espiritualidade: “E quem magnifica os ritos de Allah, por certo, isto é prova da piedade dos corações” (22:32)

De modo inverso, a mesma ação física pode ser realizada, mas quando desacompanhada do estado espiritual, motivação e intenção necessárias, pode falhar ao tentar alcançar o status de adoração aceita (qabul). Considere essas duas afirmações do profeta Muhammad ﷺ: “Quem não abandona a mentira e má conduta, Deus não precisa que ele abandone a comida e a bebida (enquanto jejua)”[7] e “É possível que uma pessoa jejue um dia inteiro e não ganhe nada além de fome, e é possível que uma pessoa fique de pé em oração à noite e não ganhe nada com isso além de cansaço”[8].

Uma peça chave dos rituais é sua natureza repetitiva. Mas a repetição não diminui a importância e o significado. Quantas vezes alguém diz à pessoa amada “eu te amo”? Apesar da repetição, essas palavras nunca perdem seu significado ou força, mas elas sim se intensificam. Assim é com as nossas expressões de amor a Deus, nossas orações, nossas súplicas, nossas afirmações “Alhamdulillah”, “Subhanna Allah” e assim por diante. Essas ações, quando realizadas com concentração e reflexão, fortalecem nossa espiritualidade e permitem-nos ascender a níveis mais altos de amor e convicção.

Apesar de serem suprarracionais, as práticas rituais são prescritas com fins explicitamente racionais – a elevação espiritual e a felicidade do ser humano nessa vida e na outra. Por outro lado, é proibido aos muçulmanos realizarem rituais irracionais/antirracionais, ou seja, rituais que não fazem sentido nem no campo natural nem no espiritual. Rituais sem sentido apelam à noções de superstições sobre como o mundo natural funciona. O profeta Muhammad ﷺ disse a seus companheiros que os eclipses não acontecem por causa do nascimento ou morte de um indivíduo. Rituais espirituais irracionais fazem alegações sobre o que o Divino ordenou que não possuem fundamento nas evidências das escrituras (veja por exemplo os versículos 6:138 e 5:103, que descrevem rituais dos árabes pagãos relacionados a proibição do consumo de certos animais devido a costumes supersticiosos; Deus conclui o versículo 103 cap 5 dizendo: “E a maioria deles não razoa’, estabelecendo assim que as práticas rituais não devem ser irracionais).

PROPÓSITO DOS RITUAIS ISLÂMICOS

Rituais islâmicos, ou ‘ibadat, são assunto de grande interesse dentre teólogos e juristas muçulmanos. Entretanto, a maioria dos sábios islâmicos se preocupa com a funcionalidade dos rituais islâmicos em vez de seu propósito real. Os juristas focam na categorização dos rituais bem como a legalidade da forma, enquanto que os teólogos se preocupam principalmente com sua conexão com os princípios teológicos.

Isso não quer dizer que o propósito fundamental da ‘ibadat não é importante ou não é abordado, mas sim que parece ser uma conversa muda, provavelmente devido à falta de controvérsia sobre ele. Reconhecendo a relativa escassez de literatura sobre o assunto, alguns dos trabalhos no campo da tazkiyyah (purificação da alma) buscaram destacar o caráter básico do que a adoração islâmica deve ser.

Na verdade o propósito que motiva os rituais islâmicos se mostra importante conforme refletimos sobre os rituais específicos do hajj e particularmente ao considerarmos as emoções que a experiência do hajj almeja despertar no crente.

‘Ibadat deriva da palavra ‘abd, que significa servo ou escravo. De acordo com o Lisan al-‘Arab, a raíz ‘abd significa humildade ou subserviência e isso é comparado com a antiga frase árabe al-tariq al-ma’bad, ou “a estrada que é um ‘abd”, denotando uma estrada que é muito movimentada e por isso fica achatada, devido ao excesso de pessoas que passam sobre ela[9].

É através desses significados que os sábios muçulmanos entenderam os conceitos de ‘Ubudiyah (servidão) e ‘Ibadat (rituais), todos derivados da mesma raiz (‘abd). No fim das contas, Deus poderia ter usado uma terminologia diferente para descrever a religiosidade e a devoção, mas escolheu especificamente definir o relacionamento entre Deus e o crente através de derivados da palavra ‘abd.

Ibn Taimiyyah comenta sobre isso explicando:

A devoção ritualizada (‘ibadat) é a convenção do cumprimento do amor da pessoa pelo Divino, combinada com o cumprimento da humildade perante o Divino. O ‘abd é um amante humilde (de Deus)[10].

Ibn al-Qayyim explicou sobre essa definição, dizendo:

A devoção ritualizada (‘ibadat) é o mais alto grau de amor.Há um dito popular que diz: ‘O amor o escravizou (‘abdahu) como se fosse sua propriedade’ e esse é o verdadeiro amor pelo Divino[11].

Em ambas as definições, vemos claramente como os sábios islâmicos uniram a ideia dos rituais com a percepção das emoções humanas. Nesse sentido, a forma de um ritual não tem significado completo sem despertar as emoções necessárias (nomeadamente o amor e a humildade perante Deus).

Na verdade, como disse Abu Hilal Al-Askari: “Não há rituais (‘ibadat) a não ser com o conhecimento do Divino”[12], querendo dizer que rituais não possuem espírito ou substância se não houver conexão emocional e uma imaginação do Divino. Assim, todo ritual islâmico (‘ibadat), seja a oração, o jejum, a caridade ou o hajj, busca criar e despertar emoções profundas dentro do praticante. É importante também lembrar que mesmo que nossa adoração fique aquém de experimentar a presença sincera do coração (Hudur al-Qalb), ela ainda assim possui méritos junto a Deus, pois estamos fazendo nosso melhor para alcançar esse nível.

Os rituais islâmicos também são de natureza simbólica. Quando os juristas muçulmanos discordam quanto a uma forma ou posição física no ritual do salah (oração diária), na ausência de escritura explícita, eles tipicamente confiam em qualquer posição que seja vista como denotando grande humildade perante o Divino. Isso porque os sábios muçulmanos entenderam que cada ritual tem significados simbólicos inerentes a cada ato.

De fato, nosso salah é a linguagem do corpo assim como nosso tasbih (pronuncias a glória de Deus) é a linguagem da nossa língua. Quando caímos em prostração no sujud nós estamos verbalizando com nossos corpos a afirmação do senhorio e unicidade divina de Deus, assim como verbalizamos isso com nossas línguas com a shahada (testemunho de fé).

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[1] Bell, C. M. (1997). Ritual: Perspectives and dimensions. Oxford University Press, 252.

[2] Kevin Edward Schilbrack, Thinking through rituals: Philosophical perspectives (New York: Routledge, 2004), 72.

[3] Bell, C. M. (1997). Ritual: Perspectives and dimensions. 198, 254.

[4] Peter Burke and Roy Porter, The social history of language (Cambridge: Cambridge University Press, 1987), 223.

[5] Bell, C. M. (1997). Ritual: Perspectives and dimensions, 82.

[6] Kevin Edward Schilbrack, Thinking through rituals: Philosophical perspectives (New York: Routledge, 2004), 48.

[7] Sahih Bukhari, 1804.

[8] Sunan ibn Majah, 1680.

[9] Ibn Manzur (d. 711 H). Lisan al-Arab. (Beirut: Dar Sader 1955). vol. 3, p. 274.

[10] Ibn Taymiyyah, Jami’ Al-Rasa’il (Maktabat Al-Turath Al-Islami), 284:2.

[11] Ibn Al-Qayyim, Madarij Al-Salikeen, (Ihya Al-Turath Al-Arabi), 3:28.

[12] Abu Hilal Al-’Askari, Al-Farooq Fi Al-Lugha, (Dar Al-’Ilm), 215.

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