Possíveis Diálogos com o Longa-metragem “Alguém que me Ame de Verdade”

Possíveis Diálogos com o Longa-metragem “Alguém que me Ame de Verdade”

Por Juliane Arruda

O filme, cujo título em inglês é Arranged (EUA, 2007), dialoga com duas traduções: arranjado e disposto. Qual vocábulo melhor traduz a trama abordada? Alguém que me Ame de Verdade é um filme que nos convida a refletir sobre alteridades. O fato de duas professoras trabalharem na mesma escola e terem suas vidas ligadas pela amizade, nos induz a visualizarmos um cotidiano de diferenças e também de igualdades. Nasira é muçulmana e Rochel, judia. Todavia o que elas teriam em comum?

O olhar cinematográfico sobre temas como o matrimônio nos tempos atuais, por exemplo, é não só pertinente como também necessário. E quem estaria disposto a enxergar com tal sensibilidade tradições que prezam pelo casamento com base nas orientações de Deus? Tanto o islamismo quanto o judaísmo encontram nos mandamentos divinos uma maneira de completar a religião através da orientação de nos mantermos castos até encontrar um companheiro para constituirmos uma família e nos mantermos distante da promiscuidade. No Alcorão Sagrado (51: 49) podemos ler a seguinte mensagem:

“Aqueles que não possuem recursos para casar-se que se mantenham castos, até que Allah os enriqueça com a Sua graça.” (Surah Adh-Dhariyat, 51:49)

A diretora da escola, bem como a prima de uma das protagonistas, são personagens que ilustram realidades que exigem diplomacia para lidar com certos assuntos. Muitas vezes a mulher muçulmana é alvo de questionamentos, seja sobre sua vida pessoal ou profissional. A busca pelo conhecimento é tão necessária, quanto a compreensão do islam na vida de quem o pratica. Muitos acreditam que por estarmos em pleno século XXI temos que assumir uma identidade “conveniente” aos padrões atuais. E por falar em identidade, aos poucos, o Brasil concedeu o direito de expressarmos nossa liberdade religiosa preservando o véu na foto do RG e CNH. Quantos casos expostos na mídia de muçulmanas que perderam oportunidades de emprego por causa do hijab? E sobre a crença, quase que unânime, de que uma vez casadas, elas dedicam-se exclusivamente ao marido e filhos sem exercer o direito de trabalhar ou estudar?

Em nosso país há muitas muçulmanas que optaram pela dedicação ao conhecimento e além de seguirem com suas vidas ministrando ou assistindo aulas com engajamento, conquistaram sua independência pelo esforço. Citarei três exemplos:

  • A Doutoranda em Psicologia pela USP, Salua Omais. Graduada em Odontologia, Direito e Psicologia. Atualmente atua como Psicotrainer no Centro Integrado de Psicologia Positiva, Coaching e Inteligência Emocional. É escritora e usa hijab.
  • Dra. Soha Chabrawi. Phd em Neurociência e Cognição, que dentre outras atividades atua no setor de qualidade da FAMBRAS HALAL, é mãe e usa hijab.
  • Dra. Francirosy Campos Barbosa que além de ser cientista e possuir doutorado em Antropologia, é docente associada da USP, é mãe, escritora e também usa hijab.

A universidade mais antiga do mundo foi fundada em 859 por uma muçulmana chamada Fatima al-Fihri. Disse o Profeta do Islam: “Instruir-se é dever de todos os muçulmanos (homens e mulheres).” “Buscai o conhecimento, do berço à sepultura!” As protagonistas ilustram a ideia de que a mulher muçulmana é tudo aquilo que ela deseja ser. A professora de hoje, ainda ontem foi uma aluna. No tempo de agora reflete-se as influências da aprendizagem em expansão.

Li algumas críticas relacionadas ao tema central do filme. E por mais que a proposta da sétima arte nos motive a se colocar no lugar do outro… com base nas divergências, algumas opiniões findam distantes da realidade. Daí a importância de buscar embasamento para fundamentar certas questões. Sobre a mulher ter ou não ter o direito de escolher o marido… No Alcorão lemos a seguinte mensagem:

Entre os seus sinais está o de haver-vos criado companheiras da vossa mesma espécie, para que com elas convivais; e colocou amor e piedade entre vós. Por certo que nisto há sinais para os sensatos.” (Surah ar-Rum, 30:21)

O longa nos induz a refletir sobre algumas perguntas: Podem os pais obrigarem seus filhos a se casarem? É possível haver convívio pacífico entre culturas diferentes? Onde religiosos são oprimidos? O amor é uma declaração ou um sentimento que nos constrói?

O filme citado encontra-se disponível no YouTube e é um convite para o diálogo. Clique aqui para assistir.

O Islam e a Arte