O Que Eu Fiz Para Merecer Isto? Parte 2

O Que Eu Fiz Para Merecer Isto? Parte 2

Por Najwa Awad e Sarah Sultan
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PARTE 2: O Impacto da Raiva Quando Estamos Passando por Tempos Difíceis

Embora conheçamos tantos exemplos de nossa tradição islâmica que nos ensinam que, espiritualmente, as provações são boas para nós, elas definitivamente nem sempre são boas no momento vivido. Sentimentos difíceis surgem, naturalmente, durante os momentos de luta, incluindo a dor, decepção, tristeza e ansiedade. Cada emoção tem a função de nos sinalizar que algo está acontecendo.

Outra emoção que pode surgir em tempos de luta é a raiva. A raiva faz parte da vida, como descreve o Profeta Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele): “Na verdade, a raiva é uma brasa ardente no coração do filho de Adão” (Jami’ at-Tirmidhi, 2191). Embora seja uma emoção humana, pode ser prejudicial em muitas circunstâncias. A raiva pode ser opressora e, às vezes, assustadora se parecer incontrolável; pode ser útil entender como a raiva se propaga através de seu cérebro e corpo antes de discutirmos maneiras de recuperar a sensação de controle sobre essa emoção.


O cérebro zangado

Resposta ao estresse: Quando algo acontece (um gatilho), a raiva ativa a amígdala em seu cérebro antes mesmo de você perceber o que está acontecendo. A amígdala é a área do cérebro responsável pelo processamento emocional, principalmente medo, ansiedade e agressão. Quando a raiva surge, a amígdala ativa o sistema de resposta ao estresse em seu cérebro e corpo para prepará-lo para responder a uma ameaça. As glândulas adrenais secretam hormônios do estresse (ou seja, cortisol, adrenalina e noradrenalina), que impactam seu cérebro e corpo rapidamente.

Redução do Julgamento e Amplificação da Dor: As regiões do cérebro que são responsáveis ​​pelo bom julgamento e pela criação de novas memórias (córtex pré-frontal e hipocampo) começam a experimentar uma perda de neurônios nesta situação. É por isso que você pode ter dificuldade em tomar boas decisões ou lembrar o que queria dizer durante uma discussão quando está lutando contra a raiva. Junto com a perda de neurônios, o cortisol em excesso também diminui a serotonina, que é o hormônio que faz você se sentir feliz. Com menos serotonina, a raiva é amplificada, assim como a dor física e emocional.

Tirar conclusões precipitadas e presumir o pior: Além disso, os pesquisadores descobriram que quando algo negativo acontece e você não tem 100% de certeza do que causou aquilo, é mais provável que você tire conclusões negativas e rapidamente associe duas coisas que podem não estar realmente vinculadas. Quando há falta de clareza, é muito fácil para nosso cérebro escolher a pior explicação possível, apesar de ser altamente improvável. Quando seu companheiro está atrasado e não atende o telefone, você imediatamente começa a se perguntar se ele sofreu um acidente de carro? Nossas mentes muitas vezes chegam a conclusões negativas, apesar de sabermos racionalmente que a probabilidade é muito menor do que uma conclusão mais simples (ou seja, o telefone de seu marido ficou sem carga).

Considere a maneira como tirar conclusões precipitadas pode progredir após uma calamidade como um aborto espontâneo:

  1. “Há tanto tempo espero por um filho e agora a chance foi tirada de mim.”
  2. “O que eu fiz para merecer isso? Allah deve pensar que não sou digna de ser mãe.” (suposição)
  3. “Se eu não for digna de ser mãe, nunca terei um filho e meu marido vai me odiar.” (Adivinhação e suposição)
  4. “Meu marido vai se divorciar de mim e eu vou ficar sozinha para sempre.” (adivinhação)

Agora que entendemos o impacto que tirar conclusões precipitadas pode ter em nossas vidas e no processo de pensamento, vamos explorar como mudar esses pensamentos.

Mudando seus pensamentos

Tirar conclusões precipitadas depende de falsa evidência, medo e desconfiança. As pessoas costumam se equivocar pensando que “esperar o pior” irá salvá-las da frustração. No entanto, na realidade, fixar nossa perspectiva no pior resultado possível apenas nos leva à ansiedade e à depressão. Quando esperamos que as pessoas nos tratem mal, nosso medo nos impede de cultivar relacionamentos saudáveis. Quando esperamos falhar em algo, é muito menos provável que tentemos nosso melhor devido aos nossos medos.

Allah, louvado seja, diz: “Por certo, os que creem e os que praticam o judaísmo e os sabeus e os cristãos, aqueles dentre eles que creem em Allah e no Derradeiro Dia, e fazem o bem, por eles nada haverá que temer, e eles não se entristecerão.” (Al Ma’idah, 5:69)

Tirar conclusões precipitadas também pode afetar sua fé e abalá-lo. Considere como um pensamento inicial pode direcionar a este caminho:

  1. “Sempre trabalhei muito e fui um bom muçulmano, mas ainda assim perdi meu emprego. Por que Allah permite que coisas ruins aconteçam a pessoas boas?”
  2. “Allah não salvou meu emprego, então Ele não deve se preocupar comigo.” (suposição)
  3. “Não posso acreditar que Allah faria isso comigo. Eu faço tudo certo e não recebo nada em troca. Nada vai mudar, então não vale a pena tentar.” (adivinhação)

Nossos pensamentos podem impactar drasticamente nossas emoções e comportamentos. Quando a raiva inunda nossas mentes e corações, é fácil que nossos pensamentos sigam o mesmo exemplo. No entanto, como vemos no caso citado acima, permitir que nossos pensamentos raivosos criem raízes pode ser prejudicial para nosso relacionamento com Allah (louvado seja) e pode impactar negativamente nosso desejo de nos conectarmos a Ele.

Mudando seus pensamentos: escolha a conclusão que deseja

É inevitável chegar a algum tipo de conclusão quando algo acontece. Naturalmente, tentamos dar sentido à vida interpretando os eventos e prevendo o que parece lógico no momento. No entanto, podemos escolher qual conclusão ou interpretação queremos. Podemos não ser capazes de controlar as emoções que sentimos imediatamente ao receber uma notícia devastadora ou testemunhar uma tragédia. Podemos nem mesmo ser capazes de controlar os pensamentos intrusivos que vêm à nossa mente em tal situação. No entanto, todos nós temos uma escolha: podemos escolher nos deter em pensamentos que nos aproximam de Allah ou que nos afastam ainda mais d’Ele. E podemos escolher ações que aumentem ou diminuam a força de nossa conexão com Allah.

Considere o exemplo de Mussa (que a paz esteja sobre ele) quando ficou encurralado com o exército do Faraó de um lado e o Mar Vermelho do outro. Nestes versículos, veja o exemplo de dois processos de pensamento diferentes: um que fortaleceria seu relacionamento com Allah (louvado seja) e outro que o diminuiria.

“E, quando se depararam as duas multidões, os companheiros de Moisés disseram: “Por certo, seremos atingidos.” Ele disse: “Em absoluto não o seremos! Por certo, meu Senhor é comigo; Ele me guiará.” E inspiramos a Moisés: “Bate no mar com tua vara.” Então, este se fendeu; e cada divisão se tornou como a formidável montanha” (Ash-Shuara, 26: 61-63)

Durante uma situação difícil, o povo de Mussa chegou à conclusão de que estava condenado, o que gerou sentimentos de medo e devastação. Vemos uma resposta muito diferente em Mussa (que a paz esteja sobre ele) quando assumiu o oposto. Ele esperava o bem de Allah (louvado seja) e recebeu um milagre sobre o qual ainda hoje refletimos.

Encontramos as evidências que procuramos, então busque o que é bom e observe seus pensamentos e emoções se transformarem.

Nossas vidas nem sempre seguem a trajetória que esperamos. Os padrões que geralmente estabelecemos para nós mesmos a fim de sermos felizes e contentes nem sempre são realistas. Da mesma forma, as expectativas que temos de Allah (louvado seja) – a saber, decretar tudo o que consideramos melhor para nós mesmos ou que decidimos que deve fazer parte de nosso plano de vida – criam uma visão muito estreita de nossas vidas e, mais importante, nossa percepção de Allah (louvado seja). Quando nossa percepção de Allah (louvado seja) é baseada nessa percepção imprecisa, tendemos a ser vítimas de uma variedade de equívocos sobre nossas vidas, nossas lutas e por que essas coisas estão acontecendo.

Abordar esses conceitos errôneos pode ser um passo benéfico para nossa saúde mental e espiritual.

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Fonte: Yaqeen institute

O Islam e a Saúde