O Hijab e os Direitos das Mulheres Muçulmanas (Conclusão – Parte III)

O Hijab e os Direitos das Mulheres Muçulmanas (Conclusão – Parte III)

Este artigo publicado em 3 partes:
Parte I: uma análise do posicionamento do Taliban em sua primeira formação (da década de 1990) em relação ao hijab. Clique aqui para ler a primeira parte
Parte II: uma breve análise sobre a luta histórica da França com o código de vestimenta das mulheres muçulmanas. Clique aqui para ler a segunda parte
Parte III: conclusão.

Parte III

Conclusão


Ao longo dos tempos e em todas as terras habitáveis ​​do planeta, os direitos das mulheres, em geral, têm sido frequentemente violados. As questões pertinentes aos direitos das mulheres são enormes, e como os dois artigos anteriores, nesta série, demonstraram, algo tão simples como a roupa usada por uma mulher pode ser ferramenta para violar seus direitos como agente livre – tanto obrigando a usar, quanto a deixar de usar. Esse foi o caso no Afeganistão e na França, dois países que residem nos extremos dessa questão. Não podemos negar que, apesar de só termos citado estes dois países, poderíamos listar um sem-número de outros locais onde as mulheres muçulmanas são cerceadas em suas escolhas pessoais. Lembramos que o hijab é uma ordem Divina para a mulher, é prescrito na religião e é obrigatório, porém, em contrapartida, na religião não deve haver compulsão, portanto é a muçulmana que optará se quer ou não usar o lenço, assumindo as responsabilidades de sua decisão.

No Afeganistão, a lei protecionista do véu que está consagrada na lei islâmica foi empregada por alguns membros do Taliban como uma ferramenta para subjugar as mulheres. Algumas facções desse regime, que controlavam o Afeganistão antes de 2001, impuseram estritamente o véu sobre as mulheres naquele país, com punição exigida àquelas que violassem esse código de vestimenta. Na França, a decisão de impor a proibição do hijab nas escolas públicas nega a liberdade de religião que está embutida na lei francesa e na lei internacional. Sob o pretexto de proteger essas meninas de suas famílias ou da comunidade que pode obrigá-las a usar a vestimenta, o governo francês expressa suas supostas boas intenções para com as muçulmanas e seu desejo de manter as escolas seculares. Independentemente do bem pretendido, ao aprovar esta lei, a França violou o direito internacional sobre a liberdade de praticar a religião e pode ter, inadvertidamente, contribuído para a radicalização ainda maior de uma população vulnerável.

A diversidade de opinião e o pluralismo devem ser adotados por todas as nações do mundo, mas tanto a França quanto o Afeganistão optam por não aceitarem esse chamado, limitando os direitos das mulheres em seus países. Atualmente, o Taliban está tecnicamente com o controle do poder no Afeganistão, e afirma que manterá os direitos das mulheres já conquistados nessas duas décadas passadas, sob a condição das limitações impostas pelo Islam. Até aí, tudo bem, as limitações que o Islam nos impõe são libertadoras e benéficas aos seres humanos e nós, como muçulmanos, não ousamos achar que esta condição seja algo inadequado ou pesado. Porém, nós esperamos que esta nova geração do Taliban seja menos truculenta que a de duas décadas atrás e também, esperamos que os direitos das mulheres, acesso a trabalho e educação, assim como os direitos dos cidadãos sejam mantidos, conforme prometido – afinal, o Islam é, e sempre foi, uma religião libertária e que dá bastante espaço para a mulher atuar socialmente (para mais informação sobre a atuação das mulheres na sociedade, leia este artigo: clique aqui). Se a nova geração do Taliban tiver uma leitura mais sensata do Alcorão e da sunnah do nosso amado Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), então, consequentemente manterá o respeito ao espaço das mulheres, uma vez que o Islam sempre concedeu às mulheres diversos direitos, incluindo à educação e ao trabalho.

Com a França, a esperança é um pouco mais escassa, afinal a Europa cada vez mais dominada pela ascensão de partidos de direita e com políticas cada vez mais radicais em relação aos muçulmanos sendo adotadas, não nos dá um prognóstico muito bom. O aumento dessas leis anti-islâmicas leva a questionar se a Europa será um lugar acolhedor para os muçulmanos no futuro. De qualquer forma, com o crescente aumento do número de muçulmanos neste continente, talvez, em algum tempo, haja uma participação maior dos muçulmanos em cargos de governo, no legislativo e judiciário, assim, conseguimos manter uma centelha acesa desta tão almejada esperança.

Estes artigos trazem à tona uma discussão que deve estar presente no mundo – ocidente ou oriente: as mulheres são capazes de definir o que é melhor para elas! Quando o ocidente se levanta para defender a proibição do hijab, ou quando muçulmanas são atacadas nas ruas por suas vestimentas não é diferente do abuso da determinação do estilo de hijab que as mulheres devam usar. O que queremos deixar claro é que o hijab, apesar de ser obrigatório e uma ordem Divina, continua sendo uma opção pessoal da mulher. O uso de um lenço por obrigação apenas não é algo que proporcione os benefícios espirituais que vêm junto com o hijab, e quando o hijab é usado sem consciência e fé, ele perde o significado. Na realidade, há condições no uso do hijab (para mais informações, leia este artigo: clique aqui) e ele não é um mero adereço, mas sim algo que determina o comportamento da mulher que o veste. Então, como cobrar um comportamento adequado se a mulher ainda não compreendeu seu significado? O que importa a uma sociedade não é a aparência das pessoas, mas sim o comportamento social; portanto a obrigatoriedade de se vestir ou deixar de vestir algo se torna somente uma forma de cercear a mulher em âmbito pessoal.

Por Letícia de Paula

Opressão das Mulheres