Extremo vs. Relaxado - Onde está a “comunidade mediana”?

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Allah diz no Qur’an:

"E, assim, fizemos de vós uma comunidade mediana, para que sejais testemunhas dos homens e para que o Mensageiro seja testemunha de vós.” [2:143]

Al-Baghawi narrou no seu Tafsír (1/122) que al-Kalbi disse: "Wasatan (mediana) significa os seguidores da religião wasat, que representa um caminho intermediário entre exagero e negligência, porque ambos são culpáveis em matéria de religião.”

É com muita decepção e mágoa que tenho de abordar este assunto a muçulmanos, de todos os grupos religiosos do mundo. Muçulmanos! A “comunidade mediana”!

O Extremo

Vamos começar por abordar a questão dos que vão a extremos ou fanatismos na religião, fazendo o que não é prescrito, encorajado ou até permitido no zelo à religião de Allah.

Irmãos e irmãs, Allah não vos colocou como autoridades acima de outros seres humanos para que os forcem ou envergonhem quanto àquilo que eles acham difícil de praticar no Islam. Eu falo convosco para que acordem. Isto não é a sunnah do nosso Profeta (صلى الله عليه وسلم) isto não é o que Allah ordenou para os crentes fazerem. Se assim o fosse, não teríamos qualquer seguidor da religião monoteísta hoje!

Imaginem se o nosso Profeta (صلى الله عليه وسلم) tivesse tal atitude. Allah diz no Qur’an:

"E, por uma misericórdia de Allah, tu, Muhammad, te tornaste dócil para eles. E, se houvesses sido ríspido e duro de coração, eles se haveriam debandado de teu redor. Então, indulta-os e implora perdão para eles…” [3:159]

Sim, o Islam é o modo de vida que devemos seguir, mas todos nós temos as nossas circunstâncias, forças e fraquezas. Todos nós temos o nosso tempo para crescer, lições para aprender, hábitos para mudar e até interpretações e entendimento diferentes. Isso tudo é escolhido e ensinado por Allah, através da vida e dos ensinamentos que a pessoa estuda, e não forçado por outro ser humano, não importa a boa intenção, o número de vezes que se repita e os artigos e palestras que se enviem.

Não nos incumbe guiar alguém. Isso é uma área que pertence a Allah. Se essa pessoa não é nossa filha ou filho, que terá de aprender conosco a religião e crescer com a nossa orientação, então não devemos agir como se fosse. Se o fizermos, corremos o risco de pisar alguns limites, tornando-nos paternalistas ou até condescendentes. Isso, consequentemente, fará com que as pessoas se afastem de nós, correndo o risco de se afastarem do Islam. Por que? Porque se nos apresentarmos como pessoas praticantes da religião e tivermos este tipo de atitude, a pessoa, automaticamente, não quer ser praticante. É um comportamento feio. Na verdade, não é um comportamento de alguém que realmente pratique a etiqueta (adaab) do Islam. Allah diz no Qur’an a Mussa (عليه سلم), quando era altura de ir falar com o Faraó:

"Então, dizei-lhe dito afável, na esperança de ele meditar ou recear a Allah.” [20:44]

Se esta é a atitude e a maneira de falar com um inimigo declarado de Allah, que alegava ser Deus e oprimia os crentes, que comportamento devemos ter, então, com os nossos irmãos e irmãs na fé?

Além disso, existe uma certa suposição feita por quem age desta forma condescendente. E é uma suposição que deriva de arrogância quanto à facilidade da sua prática de certos aspectos da religião em contraste com a dificuldade da outra pessoa em fazê-lo. Allah diz no Qur’an:

“E é de Allah o que há nos céus e o que há na terra, para recompensar os que malfazem, pelo que fazem, e recompensar os que bem-fazem, com a mais bela recompensa. Estes são os que evitam os maiores pecados e as obscenidades, exceto as faltas menores. Por certo, teu Senhor é de munificente perdão. Ele é bem Sabedor de vós, quando vos fez surgir da terra e quando éreis embriões nos ventres de vossas mães. Então, não vos pretendais dignos: Ele é bem Sabedor de quem é piedoso.” [53:31-32]

Parte do conselho que Luqman (عليه سلم) deu ao seu filho também é muito importante ter em conta:

“E não voltes, com desdém, teu rosto aos homens, e não andes, com jactância, pela terra. Por certo, Allah não ama a nenhum presunçoso, vanglorioso.” [31:18]

Vamos, agora, fazer uma distinção entre este tipo de pessoa e pessoas que genuinamente informam sobre o Islam e os aspectos da sua prática. Ambos os tipos não são iguais! Na verdade, é obrigação de todos os muçulmanos aprender a religião e é dever daqueles que têm conhecimento de a ensinar. Se alguém acusa uma pessoa de arrogância, somente porque não consegue ou não quer praticar algo que ela disse ser parte do Islam, como obrigação ou sunnah, essa acusação não é válida. De facto, torna-se numa acusação que revela mais sobre o acusador do que sobre o acusado.

 

O Relaxado

Neste próximo ponto, são várias as situações em que encontramos pessoas ofendidas, meramente porque não gostam de um aspecto do Islam e tendem até a deixar partes obrigatórias da religião, insultando e lançando calúnias contra quem fala sobre o assunto como algo a ser praticado. É bem provável que o leitor já se tenha deparado com este tipo de discussão online ou na vida real.

É importante enfatizar que este tipo de pessoa pode, realmente, estar com dificuldade em praticar esse aspecto da religião. E aí, o assunto é diferente. Não negaremos isso. Mas, ter dificuldade é bastante diferente de desmentir, caluniar, insultar quem diga que o aspecto faz parte da religião ou que deve ser praticado, com evidências para confirmar o que diz. Allah avisa claramente sobre crentes escarnecerem uns dos outros. Que aviso seria, então, para aqueles que escarnecem de um crente que tenta orientá-los à prática do Islam?

"Ó vós que credes! Que um grupo não escarneça de outro grupo - quiçá, este seja melhor que aquele - nem mulheres, de mulheres - quiçá, estas sejam melhores que aquelas - e não vos difameis, mutuamente, e não vos injurieis, com epítetos depreciativos. Que execrável a designação de ‘perversidade', depois da Fé! E os que se não arrependem, esses são os injustos.” [49:11]

Há uma qualidade magnífica na nossa religião. Essa qualidade é que o Islam fala por si só a maior parte das vezes. É uma religião bem simples, com mandamentos bem diretos na grande maioria das áreas da vida. Ensinamentos que, muitas vezes, surgem de um senso comum sobre o que se encontra na vida e como se deve agir. Alhamdulilah por isso. Não temos desculpa alguma em persistir no erro quando o obstáculo é apenas nós mesmos!

Por causa disto, é desnecessário e absurdo insultar ou menosprezar pessoas que falam sobre os preceitos da religião e a ensinam ou apenas falam do que é haram e halal. E, sim, é absolutamente necessário corrigir alguém que faz ou diz algo ilícito. (Claro, tendo em conta o contexto e agindo com o melhor comportamento possível ao abordar a situação, fazendo isso em privado, a não ser que a pessoa esteja a anunciar algo equívoco em público). É necessário porque nós somos a nação que coíbe o reprovável:

“Sois a melhor comunidade que se fez sair, para a humanidade: ordenais o conveniente e coibis o reprovável e credes em Allah.” [3:110]

É um mandamento que encontramos até em ahadith. Não é algo que seja uma mera opção de um verdadeiro crente quando ele/ela pode fazer a diferença. Torna-se um dever para cada muçulmano:

Abu Sa’id Al-Khudri (رضي الله عنه) relatou: O Mensageiro de Allah (صلى الله عليه وسلم) disse: “Quem de vós vir um mal, deve mudá-lo com a mão; se for incapaz de fazê-lo, então, com a língua; e se ainda for incapaz de fazê-lo, com o coração; e essa é a forma mais fraca de fé”. [Muslim]

Este dever pode parecer proveitoso somente para quem faz a exortação. No entanto, é para o bem da comunidade inteira. Deixar este dever, fará com que a comunidade toda se “afogue”. O Profeta (صلى الله عليه وسلم) deu uma analogia esclarecedora quanto ao comportamento de deixar de coibir o reprovável:

Nu’aman Ibn Bashir (رضي الله عنه) relatou: O Profeta (صلى الله عليه وسلم) disse: “A semelhança do homem que observa os limites prescritos por Allah e a do homem que os transgride é como um grupo de pessoas que entram a bordo de um navio depois de lançar lotes, algumas delas estão no convés inferior e outras no convés superior. (Aquelas que estão no convés inferior), quando exigem água, vão até às ocupantes do convés superior e dizem-lhes: ‘Se fizermos um buraco no fundo do navio, não vos prejudicaremos’. Se elas (as ocupantes do andar superior) as deixarem fazer isso, todas serão afogadas. Mas, se não as deixarem seguir em frente (com seu plano), todas permanecerão seguras”. [Al-Bukhari]

Huthaifah (رضي الله عنه) relatou: O Profeta (صلى الله عليه وسلم) disse: “Por Aquele em cuja Mão está a minha vida, vós ordeneis o bem e proibis o mal, ou Allah, em breve, certamente vos enviará a Sua punição. E então, fareis súplicas e elas não serão aceites”. [At-Tirmithi]

 

A Nação Mediana

Com base no que foi dito acima, devemos então ser crentes medianos. Isto não quer dizer que sejamos relaxados nem que sigamos a religião a um ponto extremo. “Moderados” também não é um termo correto porque ele é usado com uma suposição errada: que o Islam não é uma religião moderada. O Islam é a moderação! Temos de ser apenas muçulmanos conscientes e seguir com as nossas vidas com sinceridade na nossa fé.

Se estamos constantemente a dizer às pessoas que elas devem fazer isto ou aquilo, porque é “obrigatório” ou “Sunnah” e elas devem sempre praticar aspectos não fundamentais (aqueles que, se deixados não farão uma pessoa não-muçulmana), não importa o estado em que estejam, então isso não é o que o Islam ensina. O Islam não encoraja ainda mais injúria para o crente para além do que ele já sofre. Na verdade, tendo em conta como o Islam foi revelado, vemos que a nossa religião é de uma mudança gradual, começando do mais importante, a Unicidade de Allah (Tawhid), seguido pela prática da oração e do jejum obrigatório, e expandindo daí para a frente. Toda a gente tem as suas etapas.

‘Aa’idh Ibn ‘Amr (رضي الله عنه) visitou ‘Ubaidillaah Ibn Ziyaad (o governante) e disse-lhe: “Filho, eu ouvi o Mensageiro de Allah (صلى الله عليه وسلم) dizer: ‘Os piores pastores (governantes) são aqueles que lidam severamente com a supervisão. Cuidado, não sejas um deles!’”. Ibn Ziyaad disse-lhe: “Senta-te, tu és apenas uma casca dentre os Companheiros do Profeta (صلى الله عليه وسلم)”. ‘Aa’idh Ibn ‘Amr (رضي الله عنه) retrucou: “Havia alguma casca entre eles? Certamente, a casca veio depois deles e entre outros além deles.” [Muslim]

Por outro lado, não devemos ser negligentes. Não devemos inventar obstáculos onde eles não existem. Não devemos pensar que por dizermos que cremos, que seremos perdoados por tudo sem responsabilidade. Não! Cada um é responsável pelo que faz. Isto é um princípio bem claro no Islam e não importa a desculpa que escolhermos, a responsabilidade não desaparece com o nosso varrer por baixo do tapete. Allah diz no Qur’an:

“E cada alma não comete pecado senão contra si mesma. E nenhuma alma pecadora arca com o pecado de outra. Em seguida, a vosso Senhor será vosso retorno: então, Ele vos informará daquilo de que discrepáveis.” [6:164]

Então, como devemos agir? Com sinceridade para com Allah, para com nós mesmos e para com as pessoas com quem interagimos.

Isto significa:

- Não tirar conclusões precipitadas de pessoas que não estejam a cumprir certos aspectos da religião;

- Não pensar que você é melhor que elas por causa disso (Quem sabe, elas podem fazer ações que não lhes são visíveis e que Allah tem em grande estima);

- Não correr para apontar o dedo quando alguém admite não cumprir certos aspectos da religião;

- Não desmentir, insultar, caluniar, prejudicar de qualquer forma uma pessoa que esteja a ensinar sobre a religião (com evidências) só porque ela falou de um aspeto do Islam que você não pratica;

- Não inventar obstáculos ou desculpas para o não cumprimento de um aspeto obrigatório na religião;

- Não negligenciar o próprio íntimo, ao ponto de pensar que Allah perdoa tudo e que você não é responsável por não praticar ou levar certas coisas a sério.

Seja um crente mediano, parte da nação mediana que Allah escolheu entre muitas outras nações. Seja orgulhoso de o ser e não deixe o seu ego destruir o seu bom trabalho nesta vida para que consiga colher o resultado na próxima.

Que Allah nos oriente e perdoe os nossos pecados, amin!

 

 

Por: Cláudia Sofia Simões

Fontes usadas para a composição deste artigo:

https://islamqa.info/en/answers/242102/no-father-is-accountable-for-his-childs-wrongdoing-and-no-child-for-his-fathers-wrongdoing

https://www.islamweb.net/en/article/164707/enjoining-good-and-forbidding-evil

https://www.islamicity.org/quransearch/

http://www.qurandislam.com/


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