Islam e Saúde Pública

Islam e Saúde Pública

O OMS (organização mundial de saúde) define: “Saúde é o estado de completo bem-estar físico, mental e social e não apenas a ausência de doença”. Saúde Pública é o nome dado às práticas e medidas de responsabilidade do Estado para garantir que todo cidadão tenha acesso à saúde física, mental e social. Às vezes, as atividades de saúde pública envolvem ajudar os indivíduos, outras vezes envolvem lidar com fatores mais amplos que têm impacto na saúde de muitas pessoas (por exemplo, um grupo etário ou étnico, uma localidade ou um país).

Acheson define saúde pública como “a ciência e a arte de prevenir doenças, prolongar a vida e promover a saúde por meio de esforços organizados da sociedade”. No Brasil temos o SUS (sistema único de saúde) que é uma referência internacional, com certeza há falhas, porém, é um sistema muito inteligente e eficaz. O Dr. Drauzio Varella afirma que “os brasileiros não conhecem o SUS” e que os problemas de atendimento que afetam o sistema público de saúde estão relacionados a falhas em outros programas, que deveriam impedir que a pessoa necessitasse ir ao pronto-socorro.


Mas, como é o sistema de saúde pública no Islam?

O Islam é um sistema de vida que abrange todos os aspectos da vida humana. Em árabe, é nomeado como um din, que é traduzido como “um modo de vida”. E qualquer sistema que atenda às necessidades humanas terá que abranger as necessidades humanas da mente, corpo e alma. De fato, o conceito de corpo é fundamental, visto que este é um veículo, através do qual uma pessoa irá transportar a sua mente e alma.

Comparando o corpo a um veículo humano.

O Islam aborda o cuidado que se deve ter com o corpo, fornecendo noções gerais e específicas que permitem ao indivíduo manter a saúde ideal ou, ao menos, tentar.

Nos textos islâmicos da antiguidade, encontramos múltiplas indicações que apontam para a cura e tratamento, além de noções importantes em saúde pública, embora não sejam definidas como tal por precederem esta terminologia. Nos tempos modernos, a forma com a qual entendemos a saúde pública, este campo se tornou vital nas comunidades em desenvolvimento, podemos refletir sobre as mensagens islâmicas e associá-las a esta disciplina.

O surgimento do Islam remonta ao século VII, quando a medicina ainda estava em sua forma primitiva e esta ciência baseava-se bastante em práticas tradicionais e remédios fitoterápicos. Dito isto, não significa que este seja um caminho de menor eficácia ou inferior. Os remédios fitoterápicos tendem a trabalhar em situações generalizadas e visam uma abordagem holística. E é por isso que notamos, a partir dos princípios medicinais islâmicos, que há referência a remédios que tratam de conceitos mais amplos, voltados à prevenção, redução de algum processo inflamatório e fortalecimento do sistema imunológico. (Sugerimos a leitura de outro artigo: Medicina Islâmica Experimental, clique para ler)

O Islam, como uma prática que reivindica o Divino em seus fundamentos, é singular em ser preservado com grande precisão. É muito clara a preocupação em prevenir doenças, prolongar a vida e promover a possibilidade de que grande parte da prática islâmica seja de fato encontrada nas primeiras tradições de outros profetas, que não puderam ter sua tradição registrada de forma precisa ou completa. Em contraste, as palavras e ditos do profeta Muhammad são seguramente preservados e bastante escrutinados por sua autenticidade. Sendo uma religião, muitas das práticas estão ligadas aos rituais e cultos de um indivíduo, e isso permite uma melhor observância. Sabemos que quem tem um sistema de crenças ou se engaja na espiritualidade é adere mais facilmente aos regimes medicinais, pois tem melhores perspectivas.

Prevenir é melhor que remediar

Grande ênfase é colocada na prevenção (de doenças) dentro da filosofia de Saúde Pública Islâmica. Os elementos de prevenção estão inseridos em todo o discurso das boas decisões na vida diária, desde a alimentação até a higiene e as devidas precauções.

A importância da limpeza e higiene

Muita importância também é colocada na limpeza dos ambientes, na higiene do corpo, bem como do espírito. O hadith do Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, “A limpeza é parte da fé” (Muslim), dá grande ênfase à importância de manter a limpeza em todos os ambientes. Um hadith adicional, “Allah é limpo e ama a limpeza” (as-Suyuti) encoraja um indivíduo consciente de Allah a lutar por aquilo que é amado por Ele.

Banho regular e água limpa

Apesar de surgir em um ambiente desértico com recursos hídricos limitados, o ensinamento islâmico enfatizou o uso da água na limpeza corporal regular como parte dos atos de adoração. Os muçulmanos são obrigados a realizar wudu (ablução) antes de oferecer as orações diárias. O wudu envolve a lavagem dos membros que são mais utilizados na vida e interações diárias, ou seja: a face, braços e pés. Além disso, uma limpeza que abranja todo o corpo é incentivada semanalmente, no mínimo, antes de participar de atos congregacionais. Torna-se obrigatório (o banho completo) após as relações sexuais e após o ciclo menstrual ou sangramento puerperal.

Sabemos que o banho regular é de grande benefício para o indivíduo, pois é um modo de limpeza e remoção da sujeira, pele morta e redução de patógenos. Embora possa ser de conhecimento comum hoje, as sociedades do passado consideravam banho como um privilégio, com evidências anedóticas descrevendo como as pessoas se lavavam uma vez por ano, em média.

Lavagem das mãos antes e depois das refeições

O Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “Dentre as bênçãos do alimento está a ablução antes e depois de comer” (Sunan Abi Dawud). Alguns comentaristas dizem que a ablução aqui referida é uma referência à lavagem das mãos. Esta prática tem consequências importantes na redução de doenças do trato digestivo, como febre tifoide e cólera, bem como na redução geral de possibilidade de infecção.

Limpeza de impurezas

O Islam identificou certos itens como sujeira, que precisam ser limpos do corpo, roupas e chão. A purificação desses itens promove ainda mais a saúde, pois são potenciais portadores de patógenos. Estes incluem urina, fezes, sangue, pus, vômito, carcaças mortas, etc. Quando um homem se levantou e urinou na mesquita, o Profeta instruiu a pegar baldes de água e derramar sobre a urina para lavar a sujeira. Fluidos corporais carregam patógenos e podem ser meios para a proliferação destes. Durante o século VII, não havia nenhuma compreensão de Microrganismos, isto surgiu muito mais tarde no século XIX. Enquanto isso, no antigo mundo ocidental, romanos e outros europeus lavavam suas roupas com urina, que era usada como removedor de manchas para dissolver graxa, soltar sujeira e alvejar tecidos amarelados. Classificar carcaças mortas como imundícies também impactava diretamente na saúde, pois significava evitar esses itens da dieta.

Saúde dental

Grande ênfase é colocada na saúde bucal, como demonstrado e ensinado abertamente pelo Profeta Muhammad. Há textos substanciais em que ele incentiva a escovação dos dentes em diferentes ocasiões, mais do que a recomendação de duas vezes ao dia, preconizado pelos dentistas modernos.

Além disso, ele incentivou a escovação da língua como parte da rotina. Embora os benefícios da escovação da língua para a saúde bucal geral não estejam internacionalmente bem estabelecidos ainda, porém já é definitivamente demonstrado que ajuda na halitose.

O incentivo à escovação regular dos dentes é uma importante ferramenta preventiva na prevenção da cárie dentária, gengivite e periodontite, aliada ao resultado favorável de um hálito mais fresco.

Hidratação e limpeza nasal

Uma das etapas da ablução é a limpeza nasal. É descrito como aspirar a água pelo nariz e depois expelir. Pesquisas clínicas já demonstraram os benefícios da irrigação nasal no tratamento de sintomas nasais.

Uso das mãos direita e esquerda

O Islam introduziu um sistema para seus seguidores que encoraja diretrizes sobre como as mãos devem ser usadas. ‘Aishah, que Allah esteja satisfeito com ele, relatou que seu marido, o Profeta, preferia a mão direita para comer/beber, e a mão esquerda para se limpar.

Ao seguir este sistema, há uma demonstração clara da redução potencial na disseminação de contaminantes que podem vir do nariz ou mesmo do orifício anal.

Intestino saudável

A medicina moderna já sabe da grande importância de se ter uma boa saúde intestinal para o melhor funcionamento de todo o corpo, incluindo como prevenção a doenças de fundo emocional. Hoje em dia o intestino também é chamado de “segundo cérebro”, devido à sua importância no corpo humano.

A sociedade moderna, especialmente a ocidental, possui tendências sociais que incentivam o excesso de alimentação e pouca atividade física, o que causou uma verdadeira crise do mundo moderno: a obesidade. A prevenção da obesidade, no entanto, tem se concentrado predominantemente no comportamento dos indivíduos. O Islam tratou a questão da alimentação através da saúde pública, embora fossem declarações gerais, não voltadas especificamente para a obesidade. Profundamente enraizada na mensagem do Islam está a importância de abordar o comportamento alimentar e, consequentemente, o bom funcionamento do trato intestinal.

Em grande parte da sunnah, o Profeta desencorajou comer demais. Ele disse: “O homem não enche um recipiente pior do que o estômago. É suficiente para o ser humano ter alguns bocados de comida que lhe permita endireitar as costas (manter-se de pé). Se deve comer, então que seja um terço (do estômago) para sua comida, um terço para sua bebida e um terço para sua respiração” (Ibn Majah).

Outros ahaadith incluem a importância de uma alimentação saudável. Não há dúvida de que a sociedade antiga não vivia os perigos da sociedade moderna quanto aos alimentos processados, conservantes e fast food. No entanto, o foco era comer bem e reduzir o consumo de alimento.

Uma perspectiva importante é negar a si mesmo o que deseja, e não comer qualquer alimento que agrade o paladar. Esta foi uma mensagem clara de uma perspectiva religiosa que incentiva o homem a controlar seus desejos e tentações.

Carne Halal

O tema da carne halal precisa de uma discussão mais aprofundada. O Islam proibiu o consumo de certas carnes e deu grande importância quanto à preparação de uma carne animal para consumo. Injunções estritas significam que, para um animal terrestre para ser consumido, deve ser abatido, e seu sangue derramado. Se um animal morrer de outra maneira, sem a degola correta, é considerado ilegal.

O sangue é um meio cheio de nutrientes propício para bactérias. Ao regular esta prática, através as diretrizes específicas, reduziu-se muito a contaminação da carne e, portanto, as doenças associadas ao crescimento bacteriano. O método de abate halal não é o tema deste artigo, mas merece mais explicações para demonstrar que este modo é realmente uma importante mensagem de saúde pública.

As pesquisas médicas e a busca dos tratamentos

O Islam também encorajou a busca de tratamentos e remédios, sempre com o foco na cura ou prevenção das doenças. Um desafio para a saúde pública é fazer com que os pacientes procurem tratamento médico. Na sociedade desenvolvida, esta pode não ser uma questão ampla, mas nas sociedades tradicionais em desenvolvimento o avanço continua a ser um desafio.

O Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, foi claro em incentivar práticas saudáveis ​​e em buscar remédios e cura quando acometido por uma doença. Ele disse: “Buscai tratamento, pois Allah não criou nenhuma doença sem que houvesse criado para ela uma cura, exceto uma doença: a velhice” (Abu Dawud).

Isso serviu como uma importante orientação para os humanos – e os muçulmanos em particular: buscar remédios, sob a noção geral de que toda doença tem cura ou tratamento. Por outro lado, o Islam desencoraja o comportamento supersticioso.

Saúde Sexual

A prevalência de DST’s na sociedade ocidental está bem documentada através de doenças específicas identificadas e disseminadas através da relação sexual. O aumento da promiscuidade sexual desempenha um papel determinante na disseminação das DST’s.

O Islam, assim como a maioria das outras religiões, se opõe estritamente à relação sexual fora do casamento. Esta liminar clara teve efeito direto na redução da incidência de DST’s na comunidade. Como as sociedades abandonaram a religião e consequentemente a abstinência de relações extraconjugais, as DST’s propagaram-se com maior intensidade, sendo identificadas, cada vez mais, novas doenças no século XX.

Conclusão

Incorporado aos ensinamentos islâmicos há uma série de conselhos que equivalem a importantes diretrizes de saúde pública. Aliado ao elemento religioso, ganha muita força entre os adeptos da religião. Sabemos que a crença em um sistema Divino aumenta a probabilidade de melhor aceitação na comunidade. Este artigo pretende ser uma introdução ao tema do Islam e da saúde pública, e cada categoria merece uma maior elaboração. No site temos mais artigos que tratam de saúde na categoria “O Islam e a Saúde”, convidamos todos a explorarem os demais artigos, clique aqui para ler.

Texto baseado nos estudos de Omar el-Handoo

Fonte: jbima.com

O Islam e a Saúde Uncategorized