A Escravatura no Islam

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A primeira coisa que alguém tem que entender é que o Profeta Muhammad ﷺ não começou a escravatura. Este tipo de sistema estava estabelecido desde antes do Profeta nascer.

 

 

A segunda coisa a considerar é que a Shari'ah aboliu todos os sistemas de escravatura excepto um. Antes do surgimento da lei islâmica, homens e mulheres livres eram capturados e vendidos como escravos à força. O Islam removeu esta tirania e o Profeta amaldiçoou aqueles que vendessem uma pessoa livre como escrava. O Islam clara e categoricamente proibiu a prática primitiva de capturar uma pessoa e fazer dele ou dela um escravo ou vender essa pessoa à escravidão. Sobre este ponto as palavras do Profeta foram as seguintes:

"Existem três categorias de pessoas contra quem eu mesmo me queixarei no Dia do Juízo. Destes três, um é aquele que escraviza um homem livre, depois vende-o e devora o dinheiro que ganha com isso." [Bukhari e Ibn Majah]

 

A única coisa que a Shari'ah não erradicou no que toca à escravatura é o assunto dos prisioneiros de guerra. A questão era: o que fazer com os prisioneiros de guerra capturados?

 

Estes prisioneiros de guerra eram retidos pelo governo muçulmano até que o seu governo concordasse em recebê-los de volta em troca de soldados muçulmanos capturados por eles, ou efectuasse o pagamento do resgate em seu nome. Se os soldados que capturaram não fossem trocados por prisioneiros de guerra muçulmanos, ou se o seu povo não pagasse o dinheiro do resgate para comprar a sua liberdade, então o governo muçulmano costumava distribuí-los entre os soldados do exército que os tinham capturado. Isto era uma forma mais humana e correcta de os “despachar” sem que fossem tratados como gado em campos de concentração a fazer trabalhos forçados ou até mandar as mulheres que foram capturadas para trabalhar na área da prostituição. Em vez dessa cruel e indigna maneira de pôr de lado os prisioneiros de guerra, o Islam preferiu espalhá-los pela população, mantendo-os em contacto com seres humanos. E acima disso, os seus guardiões eram ordenados a tratá-los bem.

 

O resultado desta política humana foi que a maior parte dos homens capturados em campos de batalha estrangeiros, e trazidos para os países muçulmanos como escravos, aceitaram o Islam e os seus descendentes tornaram-se grandes estudiosos, Imams, júris, comentadores, estadistas e generais do exército. E até alguns deles tornaram-se depois governantes do mundo muçulmano.

 

A solução deste problema, que tem sido proposta na presente época, é que, após a cessação de hostilidades, os prisioneiros de guerra dos países combatentes devem ser trocados. Mas os muçulmanos têm praticado isso desde o início e sempre que o adversário aceitasse a troca de prisioneiros de guerra de ambos os lados, esta seria implementada sem a menor hesitação ou demora.

 

Na guerra moderna nós também vemos que se um governo for completamente devastado, sem posição alguma para negociações quanto a prisioneiros de guerra, e a parte vencedora conseguir os seus prisioneiros facilmente, a experiência tem mostrado que os prisioneiros de guerra do exército derrotado são postos em condições muito piores que as condições de escravos.

 

Qual é que foi o destino dos milhares de prisioneiros de guerra capturados pela Rússia dos exércitos derrotados da Alemanha e do Japão ne Segunda Guerra Mundial? Ninguém se preocupou em contá-los até hoje. Ninguém sabe quantos milhares deles ainda estão vivos e quantos milhares morreram por causa da dificuldade dos campos de concentração e de trabalhos forçados russos. Os trabalhos forçados tirados dos ombros deles são muito piores que o serviço feito por escravos. Até talvez nos tempos dos Faraós do Egipto, tais trabalhos duros não poderiam ser igualados a construir as pirâmides do Egipto, como foi a dificuldade de desenvolver a Sibéria e outras áreas atrasadas da Rússia, ou o trabalho em minas de carvão em temperaturas abaixo de zero, pobremente vestidos, pobremente alimentados e tratados brutalmente pelos seus supervisores.

 

Os europeus dizem muito orgulhosos que acabaram com a escravatura no mundo, mesmo tendo a decência de o fazer só no meio do último segundo século. Antes disso, esses poderes ocidentais tinham invadido a África, capturando homens e mulheres livres, colocando-os em cativeiro e transportando-os para as suas novas colónias. O tratamento que estes davam a essas pessoas infelizes era pior que o tratamento dado a animais. Os livros escritos pelos próprios escritores ocidentais são testemunhos deste facto.

 

Depois da ocupação da América e dos West Indies, por 350 anos, o comércio de escravos continuou. A costa africana, onde os africanos capturados eram trazidos do interior de África e postos em barcos e navios, ficou conhecida como a Costa dos Escravos.

 

Só num século (desde 1680 a 1786) o número total de pessoas livres capturadas e escravizadas só para as colónias britânicas foi, de acordo com a estimativa feita por autores britânicos, de 20 milhões de seres humanos. Só no período de um ano (1790) é-nos dito que 75000 seres humanos foram capturados e enviados para trabalhos de escravos nas colónias. Os navios usados para transportar os escravos eram pequenos e sujos. Estes africanos infelizes eram empurrados para os porões dos navios como gado até ao topo e muitos deles eram acorrentados às prateleiras de madeira em que mal se conseguiam mexer, porque estes estavam apenas a dezoito centímetros de distância, uns em cima dos outros. Não lhes era fornecida alimentação adequada e se eles adoecessem ou se magoassem, nenhuma tentativa seria feita para lhes fornecer tratamento médico.

 

Os próprios escritores ocidentais disseram que 20% do número total das pessoas capturadas para escravatura e trabalhos forçados morriam durante a viagem da costa africana à costa americana. Foi também estimado que o número total de pessoas capturadas para escravatura pelas várias nações europeias durante o auge do comércio de escravos atingiu pelo menos 100 milhões. Isto é o recorde das pessoas que denunciam os muçulmanos dia e noite por reconhecerem a instituição da escravatura.

 

Se ler a história judaico-cristã até ao século 18, verá que sempre que eles (cristãos e judeus) tinham uma posição dominante, matavam os civis e os prisioneiros capturados. Eles não reconheciam as capacidades de uma pessoa em particular, isto é, se essa pessoa era um erudito, engenheiro, doutor, etc; e como estas capacidades beneficiariam a humanidade. Além disso, eles não consideravam se uma mulher era mãe ou teria crianças pequenas ou se teria outras responsabilidades. Todos estes factores eram ignorados e geralmente as pessoas capturadas eram mortas. Mesmo até hoje, o número de pessoas mortas pelos EUA e por Israel é maior do que o número de mortes feito por qualquer outra nação.

 

O Islam, por outro lado, proibiu a morte daqueles que se tornassem prisioneiros no final de uma guerra. Então, se alguém não é morto, o que é que se pode fazer com essa pessoa? Ele ou ela deve continuar a ser um(a) prisioneiro(a)? Se fossem encarcerados, as suas competências e habilidades seriam desperdiçadas. Por exemplo, um arquitecto. Se ficasse sentado numa prisão, as habilidades dessa pessoa apodreciam passado algum tempo. E depois, o Estado teria que carregar com o peso das despesas para estes prisioneiros que pode ficar caro com a passagem do tempo. E se estes prisioneiros fossem mandados de volta para a sua gente, a probabilidade deles se revoltarem seria bem grande. Isto então levaria a mais guerras e a paz não poderia ser estabelecida.

 

A Shari'ah diz que os prisioneiros deverão ser colocados sobre a nossa atenção. Se alguém é analfabeto, ele ou ela deve ser educado(a). Aqueles que possuem competências devem pô-las em prática para o melhoramento da sociedade. Acima disso, a Shari'ah encorajou enfaticamente a libertação de escravos gradualmente. O Islam tentou resolver o problema dos escravos na Arábia encorajando as pessoas a libertar os seus escravos. Os muçulmanos eram ordenados a libertar escravos para expiação dos seus pecados. Libertar um escravo de livre e espontânea vontade foi declarado como um acto de grande mérito, e até foi dito que todos os membros do corpo de um homem que libertasse um escravo seriam protegidos do fogo do Inferno, da mesma maneira que todos os membros do corpo do escravo emancipado ficaram livres da escravidão. Os companheiros do Profeta (que Allah esteja satisfeito com eles) até compravam os escravos que viam no mercado (que não tinham sido capturados na guerra, mas tinham sido adquiridos por outros meios de captura, como era comum entre os árabes na época pré-islâmica) e libertavam-nos logo de seguida.

 

O resultado deste tipo de política foi tal que, quando chegou o tempo dos Califas Piedosos (primeiros califas), todos os escravos da Arábia tinham sido emancipados. Só o próprio Profeta libertou 63 escravos. Os escravos libertados por 'Aisha, a mulher do Profeta, foram 67, 'Abbas libertou 70, 'Abd Allah Ibn 'Umar libertou 1000 e 'Abd Al-Rahman comprou 30 000 escravos e libertou-os (que Allah esteja satisfeito com eles todos). De forma semelhante, outros companheiros do Profeta libertaram grandes números de escravos, estando os detalhes arquivados nas tradições e livros de história dessa época. Logo, vemos que o problema da escravatura na Arábia foi resolvido num curto período de 30 ou 40 anos (em comparação com os séculos que foram precisos para o ocidente resolver este problema).

 

Agora a questão é as prisioneiras de guerra - as mulheres. A Shari'ah proibiu que elas fossem mortas. O Qur'an refere-se a estas como “o que a vossa mão direita possui”. Quando o Amir (líder) de guerra - por exemplo, o General do exército - declarasse que dava uma mulher a um determinado soldado, seria equivalente a casamento (e o casamento anterior dela seria anulado). Por isso, era permitido para essa pessoa ter relações sexuais com essa mulher depois de um período de espera equivalente a um ciclo menstrual (para se ter a certeza de que ela não estava grávida) e tudo isto era feito com a permissão da mulher.

 

O que mais poderia ser feito? O Mensageiro de Allah disse aos seus seguidores para tratar os escravos de forma gentil, carinhosamente e, acima de tudo, tratá-los como membros da própria família. Desta maneira, eles sentir-se-iam como os seres humanos que eram. O que é muito melhor que tratá-los como marginais e deixá-los lá fora nas ruas da sociedade estrangeira sem dinheiro para se sustentarem, numa condição degradante. Tal tratamento levaria essas pessoas a trabalharem como prostitutas - no caso das mulheres - só para poderem comer.

 

A Primeira Guerra Mundial em 1914 foi uma reflexão clara da malícia envolvida em libertar prisioneiras de guerra pelas ruas de uma sociedade estranha. Durante essa guerra, mulheres inglesas e alemãs capturadas por ambos os lados foram libertas para as ruas sem ter ninguém que as alimentasse. O resultado foi óbvio quando elas optaram por métodos pouco civis para ter algum dinheiro. Logo, é evidente que o tratamento dado às prisioneiras de guerra no Islam conduz a relações sociais melhores e melhores condições para a sociedade.

 

No que toca à objecção que deverá ter dizendo que pode ter um número infinito de mulheres escravas em casamento, deve ser entendido que um número não foi fixo em casos de emergência, isto é, se estivessem numa situação que muitas mulheres tivessem sido capturadas. Falando de forma geral, isto não poderia acontecer porque as mulheres capturadas não seriam em maior número que os soldados. Os soldados também teriam que tomar conta delas financeiramente e muitos homens não poderiam dar esse apoio. Logo, este ataque ao Islam de que se pode ter um monte de mulheres escravas em casamento não é justificado e é então falso.

 

Uma das vantagens que surgiu do casamento com estas prisioneiras foi que muitas pessoas de alto status e carácter casaram com estas mulheres e muitos indivíduos de grande carácter nasceram destas uniões: Qasim Ibn Muhammad Ibn Abu Bakr, Salim Ibn Abd Allah Ibn 'Umar, Imam Zain-ul-Aabidin são só alguns exemplos. Muitos grandes sábios e juristas nasceram destas mulheres e por causa disto muitos preferiam casar com uma escrava do que com uma mulher livre. Não por desejo carnal, mas porque estas mulheres eram muitas vezes boas mães e davam a educação necessária aos filhos.

 

Quando no século 18 todas as nações do mundo assinaram um acordo para acabar com a escravatura, também as nações muçulmanas entraram neste acordo. A razão para isto é que os muçulmanos são obrigados a cumprir acordos internacionais como está mencionado na Surah Tawbah (capítulo 9) do Qur'an.

 

O Islam é contra a matança e contra escravizar pessoas livres. É de tal forma contra a escravatura que juristas escreveram que é proibido fazer acções (como magia, por exemplo) que causariam a escravatura de Jinn (génios). O Islam deu ensinamentos tão preciosos no que toca ao tratamento de escravos que o sistema islâmico de escravatura reduziu a injustiça no mundo. Algumas das narrações são as seguintes:

Abu Huraira relatou que o Mensageiro de Allah disse: “Quando o escravo de qualquer um de vós vos preparar comida e vos servir depois de ter a dificuldade de estar perto de fogo e fumo, então devem fazê-lo sentar-se convosco e dizer para ele comer convosco, e se a comida ficar escassa, então devem dar das vossas próprias porções de comida a ele”. [Muslim, Livro dos Juramentos (Kitab Al-Aiman), Livro 015, Número 4096]

Narrou Al-Ma'rur: “Em Ar-Rabadha encontrei Abu Dhar que estava vestido com um manto e o escravo dele também estava a usar um manto como o dele. Eu perguntei o porquê daquilo. Ele respondeu 'Eu maltratei uma pessoa insultando a mãe dela'. O Profeta disse-me 'O Abu Dhar! Maltrataste-o insultando a mãe dele com maus nomes. Ainda tens algumas características de ignorância. Os teus escravos são teus irmãos e Allah pô-los sob as tuas ordens. Então quem tem um irmão sob a sua ordem deve alimentá-lo com a mesma comida com que se alimenta e vesti-lo com a mesma roupa que vestir. Não lhes peçam para fazer coisas que vão para além das suas capacidades e se lhes pedirem algo assim, então ajudem-nos.'” [Bukhari, Crença, Volume 1, Livro 2, Número 29]

 

Se alguém é ainda contra e pergunta porque é que o Islam não erradicou todas as formas de escravatura de uma vez por todas (isto é, porque é que a escravatura de prisioneiros de guerra permaneceu intacta), então essa pessoa deve lembrar-se (até mesmo depois das razões mencionadas acima) que o mundo não funciona de forma tão simples que se possa trazer mudança do dia para a noite. Quase todas as casas tinham um escravo, pelo menos nessa época. Não seria viável introduzir uma política que acabaria com a escravatura só de uma vez. Pelo contrário, o Islam deu um sistema no qual a libertação dos escravos era encorajada e gradualmente a escravatura desapareceu.

 

Se o Islam introduzisse uma regra para acabar com a escravatura de uma vez só, haveria caos e resistência em massa causados por quase todas as famílias. Deve ser entendido que os profetas de Allah (que a paz esteja com todos eles) mudavam ensinamentos errados numa sociedade gradualmente quando o resto do sistema permanecia no mesmo sítio. Por exemplo, o Profeta Muhammad não mudou a lei da recompensação por assassinato injusto (100 camelos), mas ele aboliu gradualmente 7 formas de casamento (injustas) e deixou uma única que é praticada pelos muçulmanos em todo o mundo.

 

O meu humilde pedido àqueles que genuinamente procuram por respostas a estes preconceitos contra o Islam, é que façam uma pesquisa bem grande e profunda antes de chegarem a uma conclusão.

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