Haya’: Mais do que Apenas Modéstia (Parte 3)

Haya’: Mais do que Apenas Modéstia (Parte 3)

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Por Shaikh Mohammad Elshinawy

Onde a hayaʾ não pertence

Uma vez que o Profeta ﷺ disse que “Hayaʾ traz nada além do bem”[i], estudiosos muçulmanos fizeram questão de identificar que a hayaʾ é qualificada por seus frutos e condenável quando resulta na violação das leis de Allah ou usurpação dos direitos das pessoas. Como al-Aḥnaf bin Qais, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: “Na verdade, hayaʾ tem um limite designado; o que quer que exceda isso pode ser chamado do que quiseres.” Por exemplo, uma pessoa pode se recusar a falar quando islamicamente necessário, por timidez, e outra pode se recusar a falar sem conhecimento, também por timidez. À primeira vista, ambos parecem estar operando à luz da hayaʾ, porém o Islam categoriza o primeiro comportamento como fraqueza e incompetência, e o segundo como dignidade e piedade. Sobre esta nuance, al-Qurṭubi escreve,


O escolhido [(Profeta Muhammad)] certamente estava comprometido com a própria hayaʾ, e instruiria e encorajaria os outros com isto. No entanto, sua hayaʾ nunca o impediria de falar a verdade, nem de cumprir qualquer injunção religiosa. Isso foi feito em adesão às Suas palavras (o Altíssimo), “… e Allah não se envergonha com a verdade.” (33:53) Esse é o epítome da hayaʾ e sua forma mais perfeita, bela e equilibrada.
Quanto a alguém que está oprimido pela hayaʾ de tal forma que o afasta da verdade, então tal indivíduo abandonou a timidez diante do Criador para ser tímido ante a criação. Quem é assim perde os benefícios da hayaʾ e torna-se caracterizado pela hipocrisia e exibicionismo.

A tradição islâmica está repleta de declarações de advertência contra os dois inimigos do conhecimento sagrado: arrogância e constrangimento. Estas são as duas inseguranças que podem ser mal interpretadas como hayaʾ, ou mesmo chamadas de hayaʾ no sentido linguístico. Na verdade, porém, elas são contrárias a essa virtude por causa das coisas que atrapalham ou impedem, e nunca são uma desculpa válida para abortar a busca do aprendizado pela satisfação de Allah. É fascinante notar que o Profeta ﷺ conheceu e sentiu a hayaʾ que incentivou nos Companheiros, e como ele, às vezes, introduzia suas instruções mais explícitas com palavras que mitigavam sua aspereza. Em um hadith, “Eu sou para vós não mais do que um pai, ensinando-vos. Ao vos aliviar (fazer as necessidades fisiológicas), não olhai para a direção da oração (quiblah), nem virai as costas para ela… ”[ii] Esta é uma metodologia do Alcorão; ele geralmente emprega linguagem implícita para evitar ofender a hayaʾ de seus leitores, mas não é limitado apenas por este princípio, já que, às vezes, a natureza da lei necessita de uma linguagem que deixa as pessoas inquietas, a fim de afirmar noções específicas que de outra forma seriam perdidas na ambiguidade .

Encontramos este método sábio seguido pelos principais estudiosos dentre os Companheiros também. Aisha, que Allah esteja satisfeito com ela, por exemplo, uma vez foi abordada por Abu Mussa al-Ashʿari, que disse: “Ó Mãe dos Crentes, desejo perguntar-te sobre uma coisa, mas tenho vergonha de ti”. Ela disse: “Não tenhas vergonha de me perguntar algo que tu perguntarias à tua própria mãe que te deu à luz, pois eu sou apenas tua mãe.” Ele disse: “O que torna um banho ritual obrigatório?” Ela disse: “Tu encontraste a pessoa mais conhecedora [a respeito disso]. O Mensageiro de Allah disse: ‘Se ele se sentar entre os quatro membros dela e os dois pontos de circuncisão se encontrarem, então um banho ritual se tornou obrigatório.”[iii] Ela certamente não estava se gabando por se rotular como especialista, mas sim elogiando-o por não deixar de perguntar a uma esposa do Profeta sobre um assunto privado por causa da hayaʾ, especialmente quando a validade de suas orações dependia disso. Em outro contexto, Aisha disse: “Tão excelentes são as mulheres Anṣari; sua hayaʾ não as impede de obter o conhecimento da religião.”[iv] Também é relatado que ʿAli bin Abi Talib disse: “Quem não tem conhecimento nunca deve ser impedido de perguntar por causa da hayaʾ até que saiba, e quem é questionado sobre algo que não sabe nunca deve ser impedido pela hayaʾ de dizer: ‘Eu não sei.’”

Ceder à pressão social é outra falha de comportamento que pode vir disfarçada de hayaʾ, mas na verdade pode ser um ato covarde. É por isso que ser a voz da razão em face do dogma generalizado e a voz da virtude em um ambiente de imoralidade predominante são atos de devoção no Islam. O Alcorão nos mostra como todos os profetas foram reformadores destemidos, que nunca se esquivaram de desafiar o status quo antiético com sabedoria, e assim também foram seus seguidores genuínos. Abu Saʿid al-Khuḍri, que Allah esteja satisfeito com ele, narrou que o Profeta ﷺ disse: “Nenhum de vós deve se humilhar” eles perguntaram: “Ó Mensageiro de Allah, como um de nós se humilha?” ele respondeu: “Ao presenciar um assunto sobre o qual devemos a Allah alguma colocação, e ainda assim a pessoa não se pronuncia. Como resultado, Allah (o Poderoso e Majestoso) dirá à pessoa no Dia da Ressurreição: “O que te impediu de dizer isso e aquilo por Minha causa?” Ela responderá: “Medo das pessoas.” Ele (louvado seja) dirá , “Eu merecia ser temido por ti.”[v] Observe como o Profeta ﷺ deixou implícito que a timidez nesse contexto era vergonhosa e que desafiá-la significaria respeito próprio e evitar a verdadeira humilhação.

Este princípio pode consertar os relacionamentos de muitas pessoas com seu Senhor e entre si. Considere a vítima que encontra coragem para acusar seu estuprador, desafiando a cultura retrógrada de vitimização de sua sociedade para salvar futuras vítimas. Considere o parente que tem a ousadia de insistir que o empréstimo seja documentado conforme a Shariah recomenda, apesar da falta de confiança que isso possa sugerir, com o intuito de preservar os laços familiares a longo prazo. Considere o funcionário que é capaz de trazer um colega para abraçar o Islam rezando corajosamente em público ou recusando-se educadamente a apertar a mão do sexo oposto. Biógrafos mencionam que sempre que Shams al-Din al-Maqdisi ouvia alguém caluniar – independentemente de quão notável fosse – ele o interrompia, com um sorriso, dizendo: “Astaghfirullah (eu busco o perdão de Allah).”

Como cultivar a hayaʾ

Os seguintes “geradores da hayaʾ” são os principais meios para desenterrar a hayaʾ que pode estar enterrada dentro de nós, restaurar seu brilho quando enferruja e aumentar sua força por meio da fé autêntica.

1. Haya’ ​e o amor de Allah. Todas as pessoas procuram se conectar com seu Criador, e anseiam em seu íntimo por garantias de que Ele esteja satisfeito com elas. Isso é o que o Islam veio oferecer à humanidade: uma oportunidade de descobrir Allah e desfrutar da bem-aventurança de ser um reflexo de Sua luz da melhor maneira que um ser criado poderia ser. Ibn al-Qayyim disse: “Quem quer que se alinhe com Allah em um de Seus atributos, isso o leva a Allah com suas rédeas, leva-o ao seu Senhor, para perto de Sua misericórdia e o faz ser amado por Allah. Ele, Exaltado seja, é Misericordioso e ama o misericordioso, é Generoso e ama o generoso, é Onisciente e ama o sábio, é Forte e ama o crente forte mais do que ama o crente fraco, é Ḥayi e ama a hayaʾ, é Belo e ama as pessoas da beleza, e é Witr (singular) e ama as pessoas do witr [oração]. ”

2. Pratique a hayaʾ para experimentá-la. A hayaʾ inata que permanece adormecida em algumas pessoas deve primeiro ser revivida por meio da prática antes que possa ser sentida por nossos sensores psicoespirituais. Agir ao contrário da hayaʾ, junto com a exposição recorrente àqueles que não a possuem, é o que nos dessensibiliza, em primeiro lugar. Portanto, esperar que o sentimento de vergonha saudável volte por conta própria, em vez de nos recondicionarmos a ele, é um pensamento enganoso. Baixar nosso olhar em um mundo saturado de imagens sem vergonha e vestir o hijab conforme definido pelo Islam, não conforme as tendências da moda, são dois dos muitos caminhos para ressuscitar nossa sensibilidade para a hayaʾ. Assim como nos é dito no Alcorão que os pais da humanidade sentiram vergonha e se apressaram a se cobrir, somos informados que o alvo do Shaitan era adormecer sua hayaʾ e deixá-los confortáveis ​​em não estarem vestidos. Allah diz: “ filhos de Adao! Que Sata nao vos tente, como quando fez sair a vossos pais do Paraiso, enquanto a ambos tirou a vestimenta, para fazê-los ver suas partes pudendas” (al-Aʿraf 7:27). Portanto, devemos normalizar os ditames da hayaʾ em nossa conduta, antes de podermos esperar experimentar a hayaʾ em nossos corações.

3. Temor reverencial por meio do conhecimento sagrado. O ápice da hayaʾ é estar mais atento ao olhar de Allah do que às pessoas, assim como o ápice do Islam (isto é, iḥsan) é “adorar a Allah como se você O visse, e se você não O vê, saiba que Ele o vê.”[vi] Esta posição é alcançada refletindo sobre a natureza onisciente do Divino, al-Raqib (o Observador), al-Shahid (a Testemunha), al-Samiʿ (o Ouvinte), al-Baṣir (o Que tudo vê), al-Muḥiṭ (o Que abrangente tudo). Ḥatim al-Aṣamm disse: “Se um espião estivesse sentado ao seu lado, você estaria em guarda diante ele, mas suas palavras são exibidas ante de Allah e você não está em guarda?”

Ibn ʿAbbas, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: “Ó pecador que se sente seguro das terríveis consequências, estejas certo de que o que se segue a um pecado é maior do que o pecado que cometido. Tua falta de hayaʾ daqueles [anjos] à tua direita e esquerda quando tu pecas é maior do que o pecado que cometeste. Tua risada, apesar de não saber o que Allah fará contigo, é maior que o pecado. Tua tristeza quando perdeste a oportunidade de pecar, é maior do que o pecado, se tu o tivesses cometido. Teu medo do vento quando ele move a cortina de tua porta enquanto pecas, e teu coração não estremece com o olhar de Allah sobre ti, é maior do que o pecado, se tu o tivesses cometido.” Imam Aḥmad certa vez ouviu Abu Ḥamid al-Khalqani recitar estes dois dísticos de poesia:

Quando meu Senhor me diz,
Você não teve vergonha de me desobedecer?
Você esconde os pecados da Minha criação,
E com esses pecados você vem a mim?

…Imediatamente, ele instruiu al-Khalqani a repeti-los para ele, e ele o fez. Depois de aprendê-los, o Imam dirigiu-se para sua casa, repetindo-os uma e outra vez enquanto chorava, imaginando-se recebendo aquele castigo. Uma vez que a pessoa percebe que seu Senhor está olhando para ela, essa certeza produz hayaʾ, o que a leva a carregar o fardo da obediência. É semelhante a quem serve com alegria a sua amada; você o achará enérgico em seu trabalho e suportando seus contratempos, especialmente se sua amada for gentil e benevolente com ele. Nesse sentido, o olhar de Allah, o Poderoso e Majestoso, nunca está alheio aos Seus servos. Mas quando os servos se descuidam de seu Mestre olhando para eles, isso gera insolência e uma falta de haya’.

4. Relembrando os imensos favores de Allah. A hayaʾ também surge ao notar o tratamento cortês que alguém recebe de Allah constantemente, porque pessoas dignas não suportam estar indiferentes àqueles que são gentis e corteses com elas, então como isso não pode gerar vergonha saudável diante do Senhor daquele cujas bênçãos são inumeráveis? Al-Junaid disse: “Hayaʾ é sobre ver os favores e perceber as próprias deficiências. Entre esses dois, nasce uma condição chamada hayaʾ, e sua realidade é uma qualidade que leva a pessoa a deixar a indecência e impede que a pessoa deixe de cumprir os direitos de cada ser.” Também é relatado que Dhun-Nun al-Miṣri disse: “Pertencentes a Allah são os servos que deixaram o pecado por hayaʾ à Sua generosidade, em vez de tê-lo deixado por medo de Seu castigo. Se Ele te disser: ‘Faça o que quiseres e não te responsabilizarei por pecar’, Sua generosidade deve aumentar tua hayaʾ a Ele e tua abstinência da desobediência a ele – se tu fores realmente um servo nobre, livre e grato. Como então deveria ser o tua hayaʾ quando Ele, de fato, te ameaça [com punição]?”

5. Refinamento espiritual por meio da devoção. Sentir-se próximo a Allah e proteger essa posição honrada é algo cultivado por pura devoção ritual e atos sinceros de adoração. Quando feito de forma diligente e regular, eles alimentam a fé de uma pessoa e tornam-se poderosos dissuasores contra o comportamento indecente, como Allah diz sobre a oração: “Por certo, a oração coíbe a obscenidade e o reprovável.” (al-ʿAnkabut: 29:45). Foi dito uma vez ao Mensageiro de Allah: “Fulano ora a noite inteira, então, quando chega a manhã, ele rouba!” Ele ﷺ disse: “Sua oração irá [eventualmente] restringi-lo.”[vii]

6. Paire em torno da hayaʾ. A socialização é a força mais influente na vida da maioria das pessoas, e isso pode ser um grande recurso para inculcar a hayaʾ em nossas personalidades. Além de ensaiar as virtudes da hayaʾ e os perigos de ignorá-lo, mergulhe nas biografias das primeiras gerações do Islam é de suma importância absorver essa qualidade. Isso também deve ser complementado com boa companhia, para absorver visualmente o quão contidos os piedosos são em seus olhares, quão seletivos eles são em suas palavras e como seu respeito próprio os torna incapazes de se conformarem com os padrões dos outros. Mujahid bin Jabr costumava dizer: “Se um muçulmano não beneficia en nada seu irmão, se sua hayaʾ a impede de pecar, isso já é suficiente.”

7. Valorize a honestidade. Muitas pessoas não se intimidam ao mentir para uma criança, por considerá-la (e também à “mentira”) trivial, mas podem ter dificuldade em mentir para alguém mais velho, devido à reverência que sua idade cronológica traz. Da mesma forma, são apenas as pessoas que se colocam em alta consideração que evitam a desonestidade, seja para com Allah, com o povo, ou consigo mesmas. Por essa razão, os estudiosos aconselham as pessoas que buscam a redenção de uma vida pecaminosa a começarem com honestidade, pois isso vai restabelecer nelas um senso de autoestima e, assim, erguer a cerca da hayaʾ entre elas e seu passado sombrio. Talvez esta seja uma das razões pelas quais o Profeta ﷺ disse: “Siga a veracidade, pois a veracidade certamente conduz à retidão, e a retidão certamente conduz ao Paraíso. E uma pessoa será verdadeira e insistirá em permanecer verdadeira, até que seja registrada ante Allah como um ṣiddiq (forte confirmador da verdade).”[viii]

Conclusão

Pedimos a Allah que nos perdoe por quaisquer declarações ou intenções equivocadas que este documento possa conter, por quaisquer declarações que não correspondam às nossas ações e por tudo o que demonstramos de conhecimento a respeito da hayaʾ ao sermos negligentes em praticá-la. Que Ele nos faça agir de acordo com nosso conhecimento, buscando Sua Face, e não use nossas falhas contra nós. Na verdade, Ele é Muito Gracioso e Generoso.

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[i] Sahih al-Bukhari, n° 6117; Sahih Muslim, n° 37.

[ii] Sunan al-Nasaʾi, n° 40; considerado ḥasan-sahih por al-Albani.

[iii] Sahih Muslim, n° 349.

[iv] Sahih al-Bukhari, n° 38.

[v] Sunan Ibn Majah, n° 4008; autenticado por al-Arnaʾuṭ.

[vi] Sahih al-Bukhari, n° 50; Sahih Muslim, n° 8.

[vii] Musnad Aḥmad, n. 9776; autenticado por Ibn Ḥibban e al-Wadiʿi.

[viii] Sahih al-Bukhari, n° 6094.

Etiqueta e Comportamento